Para que serve este blogue?
Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.
Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.
A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.
C.Santana
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
O Papalagui...
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Cibernética e a Teoria Geral dos Sistemas
A cibernética parte do pressuposto que tudo é comunicação. Constitui-se como uma ciência «…da comunicação e do controlo, nos sistemas….»[1]
Para Bertallanfy um sistema é um todo composto por várias componentes interdependentes. Um sistema é sempre algo que está dentro de um universo (sistema) mais amplo.[6] Outra característica do sistema é o facto de este ser «qualitativamente superior à soma das partes que o compõem.»[7].
[1] Fernando Nogueira Dias, Sistemas de Comunicação, de Cultura e de Conhecimento, Instituto Piaget, 2ª edição, Lisboa, 2007, p. 47.
[2] Idem.
[3] Idem.
[4] Idem.
[5] Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_geral_de_sistemas, Novembro de 2009.
[6] Retirado de http://www.univ-ab.pt/~bidarra/hyperscapes/video-grafias-7.htm, Novembro de 2009.
[7] Fernando Nogueira Dias, Op. Cit., p. 47.
[8] Retirado de http://www.lyfreitas.com/pdf/tgs.pdf, Novembro de 2009.
[9] Retirado de http://www.univ-ab.pt/~bidarra/hyperscapes/video-grafias-7.htm, Novembro de 2009.
[10] Fernando Nogueira Dias, Op. Cit., p.52.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Sociologia - Micro & Macro Teorias...
A Sociologia, apesar da multiplicidade de teorias existentes, acaba por se encontrar de alguma forma parametrizada entre uma abordagem positivista e uma abordagem compreensiva. Continuam a ser referências inquestionáveis as abordagens herdadas de Durkheim e de Weber. A este respeito Nogueira Dias[1] refere que «Na Sociologia podemos opor ao positivismo de Comte e Durkheim a compreensão empática de Max Weber.». Refere ainda este autor que «…A primeira perspectiva é identificada como paradigma positivista, o qual se preocupa com a extensão dos fenómenos…» «A segunda perspectiva é identificada como paradigma compreensivo…Como resultado destas preocupações, podemos nelas incluir as chamadas microssociologias…».
Durkheim tem uma frase extremamente esclarecedora sobre a sua visão da Sociologia e que serve para se entender a sua perspectiva Macro do social: «Para compreender a maneira como a sociedade se representa a si própria e ao mundo que a rodeia, é a natureza da sociedade, e não a dos particulares que devemos considerar.»[2]. Também Weber defende a sua perspectiva: «Sociologia (na acepção aqui aceite desta palavra empregue com tão diversos significados) designará: uma ciência que pretende compreender, interpretando-a, a acção social e, deste modo, explicá-la casualmente no decurso e nos seus efeitos.»[3].
Obviamente que a divisão entre micro e macro é um artificialismo metodológico e cientifico. A realidade não é Micro nem Macro é um todo indivisível. O que importa reter é que ambas as perspectivas são válidas em Sociologia desde que sejam cumpridas as regras inerentes à utilização dos métodos e das técnicas de investigação.
Existe igualmente a tendência de considerar a abordagem macro mais objectiva por se sustentar numa perspectiva “matemática” (método quantitativo) e a abordagem micro mais subjectiva por ter uma metodologia que assenta na compreensão das representações sociais dos indivíduos (método qualitativo). A este respeito Berger e Luckmann dizem que «Estas duas afirmações [perspectiva de Durkheim e de Weber] não são contraditórias. A sociedade possui, na verdade, uma factualidade objectiva. E a sociedade é, de facto, também constituída por actividades que exprimem um significado subjectivo. Durkheim, aliás, tinha conhecimento deste último enunciado, assim como Weber conhecia o primeiro.»[4].
Nenhuma abordagem se pode considerar mais correcta do que a outra. Tudo depende daquilo que o investigador pretenda estudar. Os grandes problemas sistémicos e de dimensão global não podem ter como ferramenta de descodificação da realidade social as abordagens qualitativas, tal como o estudo do que se passa num pequeno grupo social não deverá ser operacionalizado com ferramentas que não permitam apreender as representações sociais do grupo. Isto é, as ferramentas devem adequar-se à tipologia do “trabalho” que o investigador pretende realizar.
As microssocioligias partem do que é “mini” para as estruturas e sistemas sociais e as macrossociologias percorrem um caminho oposto. Existem autores mais defensores, por uma questão de abordagem do objecto de estudo, de um ou de outro modelo. Outros há que tanto usam as micro como as macrossociologias e por isso não gostam de ser rotulados. Abaixo indicam-se alguns autores e a respectiva abordagem:
Talcott Parsons, Robert Merton[5] (era essencialmente defensor de uma perspectiva mesossociológica), Norbert Elias, Pierre Bourdieu e Anthony Giddens – Macro
Peter Berger, Thomas Luckman, Aaron Cicourel - Micro
[1] Retirado de http://www.sociuslogia.com/artigos/fudam01.htm, Outubro de 2009.
[2] Émile Durkheim, As Regras do Método Sociológico, Editorial Presença, Lisboa, 10ª edição, 2007, p. 26.
[3] Max Weber, Conceitos Sociológicos Fundamentais, Edições 70, Lisboa, 2ª edição, 2005, p. 21.
[4] Peter Berger e Thomas Luckmann, A construção Social da Realidade, Dinalivro, Lisboa, 2ª edição, 2004.p. 29.
[5] Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Merton, Outubro de 2009.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
José Saramago...o Anti Cristo?
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Métodos e Técnicas em Sociologia
Existem diversas classificações no que concerne à definição de método. O mesmo ocorre relativamente às técnicas de investigação. Escolhemos uma abordagem de entre outras possíveis.
«Um método é um procedimento regular, explícito e passível de ser repetido para conseguir-se alguma coisa, seja material ou conceitual.»[1]
«Importa acima de tudo que o investigador seja capaz de conceber e de pôr em prática um dispositivo para a elucidação do real, isto é, no seu sentido mais lato, um método…»[2]
Em sociologia os métodos estão de alguma forma identificados com dois grandes modelos ou paradigmas conceptuais: positivismo – aponta essencialmente para preocupações sistémicas e de grande abrangência e que por isso recorre à utilização de métodos quantitativos com recursos a técnicas de tratamento estatístico. Compreensão Empática – que se centra essencialmente no estudo da acção social dos indivíduos e nas suas representações sociais. Neste contexto recorre-se a métodos eminentemente qualitativos, sendo a escala de observação de média e pequena dimensão.
«Em sociologia, investigadores quantitativos usam um conjunto de análises estatísticas e em certas situações, generalizações, para determinar o padrão dos dados e o seu significado, enquanto que investigadores qualitativos usam técnicas de fenomenologia e a sua visão do mundo para extrair significado.»[3]
Em termos gerais pode-se identificar o paradigma positivista com o método de observação indirecta e o paradigma da compreensão empática com o método de observação directa.
Pode pois dizer-se que os métodos utilizados na realização de um estudo dependem do modelo teórico que o investigador selecciona. Em sociologia existem diversos métodos, designadamente:
Etnográfico[4] – este método é de carácter eminentemente qualitativo e serve para apreender a vivência social dos indivíduos inseridos num determinado grupo. Obriga o investigador a viver a realidade que está a estudar por um período longo. Igualmente qualitativo é o método biográfico ou de histórias de vida[5] e que visa recolher o conhecimento que um ou mais indivíduos têm sobre um tema ou uma situação em que foram protagonistas. Experimental[6] – igualmente qualitativo visa o estudo de pequenos grupos de pessoas, por exemplo no âmbito das organizações. Inquéritos[7] – destina-se a abranger um número de pessoas mais alargado e é em muitos casos um dos métodos mais utilizados em estudos quantitativos.
Como forma de operacionalização dos métodos a Sociologia dispõe de diversas técnicas, tais como:
Entrevistas, questionários, observação participante, observação directa, sóciodrama, psicodrama, pesquisa documental, estatística, análise de conteúdo, etc.
[1] Mário Bunge, Epistemologia, T.A. Queiroz Editor, São Paulo, 2ª Edição, 1987, p. 19.
[2] Raymond Quivy, Manual de Investigação em Ciências Sociais, Gradiva, Lisboa, 5ª edição, 2008, p. 15.
[3] Retirado de http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/346.pdf
[4] Anthony Giddens, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, 5ª Edição, 2007, Lisboa, p.648.
[5] Ibidem, p. 652.
[6] Idem.
[7] Ibidem, p. 649-650.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
A (Des)Informação e o Capitalismo
Este princípio visava criar uma sociedade mais tolerante e mais pacífica. A comunicação entre as pessoas seria a solução para que se encontrassem vias de entendimento, para os conflitos, através do diálogo.
Os cibernéticos defendiam a transparência da sociedade através da constituição de mecanismos poderosos de comunicação. Para eles – talvez o seu principal erro – não se deveria ter em conta o interior dos seres humanos, os seus sentimentos e emoções mas apenas o seu exterior.
Defendiam, um pouco à imagem de Durkheim, que não se pode avaliar algo que não se vê. Os indivíduos devem ser avaliados pela sua exterioridade e não pelo que eventualmente estes sentem ou pensam.
Esta regra veio criar aquilo que os críticos da cibernética designam por Homem Vazio. Isto é, homem sem valores, sem sentimentos, sem conteúdo.
A cibernética veio criar possibilidades para o desenvolvimento desenfreado dos meios de comunicação social e para as técnicas a eles associadas tais como: a propaganda, a publicidade e o marketing.
Todas estas técnicas trabalham em favor do sistema capitalista que vive das ilusões, da superficialidade e do efémero.
Os individuos deixaram de ser avaliados eticamente pelo que valem como seres humanos e passam a valer pelo que mostram EXTERIORMENTE: se têm sucesso profissional – nem que seja a vender cascas de alho – se têm um carro XPTO e uma casa num local exótico.
O capitalismo cria necessidade aos indivíduos através do lançamento de novos produtos no mercado. Os indivíduos por uma questão de status social ou simplesmente porque SIM consomem todo o tipo de “novidades”. Quando dão por eles estão viciados no consumo e dizem com todo o desplante que não podiam viver sem isto ou aquilo.
Muitas vezes, os indivíduos, para que não se sentirem excluídos socialmente e assim manterem os mesmos padrões de consumo recorrem desenfreadamente a créditos bancários para satisfazerem a sua “gula” consumista. Mais uma vez caem na ratoeira do sistema capitalista.
O sistema capitalista cria uma espécie de teia: por um lado vicia as pessoas através dos bens de consumo que funcionam como símbolos de poder ou de identidade e depois através do sistema financeiro encontra os mecanismos para que os indivíduos mantenham o seu vício.
Por outro lado, o sistema capitalista joga com uma outra dependência que os indivíduos modernos têm: o seu emprego. Ou seja, o sistema capitalista sabe que a esmagadora maioria das pessoas depende do seu trabalho para poder consumir e cumprir os seus compromissos para com o sistema financeiro, como tal, pode dar-se ao luxo de impor leis de trabalho cada vez menos reguladas e que contribuem para a desqualificação profissional e social dos indivíduos. O sistema capitalista sabe que os indivíduos se sujeitam a regras cada vez menos protectoras dos seus direitos pois estão dependentes do seu emprego. A este principio ajusta-se a ideia de que melhor um mau emprego do que nenhum.
Tudo isto contribui para que esta “táctica” capitalista funcione como um meio indirecto de controlo e paz social. Os indivíduos receiam perder o seu ganha-pão e como tal o seu poder de reivindicação fica limitado.
Desta forma os indivíduos andam, como dizia Marx, completamente alienados do que se passa à sua volta e têm comportamentos standardizados e robotizados. Apenas pensam de acordo com a informação estereotipada que todos os dias lhes entra pela cabeça adentro sem capacidade critica de pôr em causa o que ouvem.
Daí resulta sermos indiferentes quando se ouve ou vê algo de belo e de diferente.
A obra de Max Weber: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo é interessante, entre outros aspectos, para se perceber a origem do sistema capitalista e a sua capacidade de sedução.
Weber consegue dizer esta coisa extraordinária num período em que o petróleo começava apenas a ser um dos símbolos do poder do capital:
«O ascetismo, ao ser transplantado das celas conventuais para a vida profissional, começou a dominar a ética secular e deu o seu contributo para a formação do poderoso cosmos da ordem económica moderna; esta, vinculada às condições económicas e técnicas da produção, com uma força irresistível, determina hoje o estilo de vida, não apenas da população activa mas de todos os indivíduos que nascem desta engrenagem. E, provavelmente, isto poderá continuar a acontecer até que o último quintal de combustível fóssil seja queimado.».
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Quem sou eu?
Não é fácil dizer quem somos. Normalmente preferimos reservar essa tarefa para os outros.
Tendemos a julgar que é preferível serem os outros a tecerem julgamentos a nosso respeito.
Outra dificuldade com que convivemos é facilmente confundirmos o nosso nome e o nome da nossa família com aquilo que realmente somos.
Outra muleta que recorrentemente usamos, como marca da nossa identidade, é a profissão/ actividade que exercemos.
A verdade é que a nossa profissão tende a plasmar-se em nós. Quando nos perguntam quem somos, normalmente dizemos que somos a profissão A ou B. Raramente interpretamos a pergunta como algo extra profissional. Como algo mais dirigido a nós enquanto seres humanos.
Na realidade o mundo do trabalho ganhou um peso na sociedade moderna que não resta espaço para sermos algo mais do que aquilo que fazemos. Aquilo que fazemos e o que somos passam a ser a mesma coisa.
Em caso de desemprego entramos em depressão. Ficamos com medo de termos perdido a nossa identidade. O mesmo acontece quando surge o momento da reforma.
Outros artifícios que utilizamos como nosso “bilhete de identidade” são os sinais que transmitimos aos outros. Os símbolos de bem-estar material servem para que os outros possam saber quem somos. O sucesso é pois outra marca identitária da sociedade moderna. Se tivermos sucesso material somos bem vistos socialmente. Se não tivermos não passamos de uns desgraçados miseráveis.
Toda esta realidade que se baseia essencialmente em aspectos materiais para caracterizar os seres humanos, torna a pergunta Quem sou eu? Ainda mais difícil de responder.
Erving Goffman , reputado Sociólogo Canadiano, retrata, na sua obra: A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, os indivíduos como actores que ao longo do dia, dos meses e dos anos, vestem diferente roupagem consoante o contexto social em que se inserem. Na verdade Goffman quer transmitir-nos a ideia de que cada um de nós não é apenas uma “coisa”. Somos actores sociais que assumimos vários papéis em palcos diferentes. Quando estamos em contexto social comportamo-nos de acordo com as normas sociais dominantes e quando estamos sozinhos assumimos comportamentos que se assumidos em público seriam certamente considerados como desviantes.
Depois destas considerações querem uma resposta que tenha como referência os valores da sociedade de consumo ou uma resposta que se centre mais em aspectos que ponham em destaque valores universais e humanistas? Qual a medida que devemos utilizar?
Provavelmente teremos que responder tendo em conta o contexto em que a pergunta é efectuada.
Estas linhas que escrevi são a prova que não gostamos ou não sabemos dizer quem somos.
Quando me dirigem esta questão costumo simplesmente dizer que sou um Homo Sapiens, caucasiano, com as paranóias e as virtudes da generalidade dos seres humanos.
Modelo, Teoria e Paradigma
Pelas leituras realizadas nem sempre é muito clara a diferença entre modelo, teoria e paradigma. Fernando Nogueira Dias refere mesmo que «De facto, muitos autores no seu discurso não fazem esta distinção.»[1]
Contudo, apesar desta dificuldade conceptual, poder-se-á dizer que são conceitos que visam exprimir, em termos científicos, a ideia de referência ou de padrão. Ou seja, são como que “indicadores de qualidade” utilizados na construção da ciência.
Tal como ocorre com o nosso processo de crescimento enquanto seres humanos também os modelos, teorias e paradigmas evoluem em função da aquisição de novos conhecimentos ou se preferirmos de novas evidências científicas.
Ao contrário do que ocorre por exemplo com o conhecimento religioso, o conhecimento científico é mutável e sistematicamente construído e por isso é um processo dinâmico e nunca acabado.
Tentando encontrar uma definição para MODELO, TEORIA e PARADIGMA, podemos referir:
Modelo – «…um sistema de ideias de carácter mais regional, por oposição à teoria.»
Retirado de Retirado de http://www.sociuslogia.com/artigos/fudam01.htm, Outubro 2009.
Teoria – «Conjunto organizado de conceitos e relações entre conceitos substantivos, isto é, referidos directa ou indirectamente ao real.»
Augusto Santos Silva e José Madureira Pinto, Metodologia das Ciências Sociais, Edições Afrontamento, 14ª Edição, Porto, 2007, p. 10.
Paradigma – «Conjunto de princípios e de teorias que são aceites sem discussão por toda a comunidade científica.»
Boaventura de Sousa Santos, Um Discurso Sobre as Ciências, Edições Afrontamento, 15ª Edição, Porto, 2007, p. 21.
As definições acima apresentadas de alguma forma estabelecem uma certa hierarquização destes três conceitos. Os modelos surgem como algo mais redutor, quase como uma “teoria específica”, enquanto que a teoria é mais abrangente e por isso de carácter mais universalista. O paradigma é apresentado como a “teoria suprema” que é aceite pela generalidade da comunidade científica e que se manterá como um “farol” acesso até que novos desenvolvimentos científicos a tornem obsoleta e se dê uma ruptura epistemológica. Poderá dizer-se que toda a teoria “aspira” a tornar-se paradigmática. O paradigma são os “óculos certificados” que servem para que se veja de forma clara a realidade.
Contudo, a verdade é que em rigor paradigma (do grego Parádeigma) literalmente quer dizer modelo[2]. Este facto pode conduzir-nos para o início da discussão. Ou seja, será que de facto existe uma diferença bem delimitada entre os conceitos de modelo, teoria e paradigma?
[1] Retirado de http://www.sociuslogia.com/artigos/fudam01.htm, Outubro 2009.
[2] Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Paradigma, Outubro de 2009.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Franz Kafka - O Processo: Retrato de Uma Sociedade Igual à Nossa???
Trata-se de um livro que serve para nos abanar e para demonstrar que os indivíduos dificilmente conseguem lutar contra as regras, por mais perversas que elas sejam, ditadas por um sistema social supostamente constituído por indivíduos com direitos e deveres iguais.
A história do livro resume-se rapidamente. Josef K., personagem central da história, acorda certa manhã e é surpreendido na sua própria casa por dois agentes da justiça que o informam que este é alvo de um processo judicial e como tal se encontra detido.
Apesar da acusação que lhe é formulada K. não é informado de mais nada sobre o seu processo. Aliás os próprios representantes da justiça desconhecem os motivos da acusação.
Toda a trama do livro gira à volta do processo e das tentativas incontáveis e dos estratagemas mais bizarros que K. usa para tentar apurar a sua culpa e declarar a sua inocência.
K. apesar de acusado, formalmente, nunca esteve detido.
Após mil e uma peripécias K. acaba condenado e executado sem nunca ter percebido os motivos da sua acusação.
Esta história que é marcada por situações bizarras, surreais e assustadoras contém uma riqueza sociológica assinalável.
O que Kafka nos quer transmitir, apesar da obra ter leituras que extravasam o âmbito da Sociologia, tal como uma leitura mais Filosófica centrada nas questões da existência humana, é que a sociedade e os seus sistemas sociais condicionam a acção social dos indivíduos e tratam-nos como verdadeiras marionetas facilmente manipuladas.
Kafka utiliza o sistema judicial como uma mera metáfora. A questão central é entendermos que o sistema social representado, designadamente, pelo estado não tem contemplações para com os indivíduos.
O autor dá-nos igualmente pistas sobre a estratificação social. Retrata uma sociedade assimétrica em que coexistem os privilegiados e os miseráveis. A própria justiça é retratada como um sistema muito desigual em que convivem indivíduos com um elevado status social e capacidade económica e os funcionários subalternos que não passam de meros peões do sistema e que vivem em condições degradadas e muito próximas da miséria.
A estratificação social está na base da corrupção generalizada de que enferma o sistema social. A corrupção não é vista como algo anómalo mas sim como um traço identitário da sociedade. A corrupção institucionalizou-se através da rotina e enraizou-se fazendo parte da cultura desta sociedade.
As acentuadas desigualdades sociais estão igualmente presentes no território da cidade em que se passa a história. A cidade identifica-se com os indivíduos que nela residem. Existem partes da cidade ricas e faustosas e outras miseráveis e sombrias.
Está implícita na obra a vergonha social. Vergonha que deriva do facto do indivíduo quando é acusado levar atrás de si todos aqueles que com ele interagem socialmente e em particular a sua família. A acusação deixa de ser algo individual e passa a afectar um conjunto alargado de indivíduos.
Kafka relata igualmente a alienação a que os indivíduos são sujeitos face à justiça.
A burocracia no sistema judicial é retratada como algo perverso e como fonte de medo social. Os indivíduos vêem-se impotentes para se defenderem de um sistema que supostamente deveria existir para sua protecção.
Em conclusão podemos referir que Kafka retrata uma sociedade obscura, talvez não mais do que aquela em que vivemos, em que o controlo social é algo completamente arrasador e implacável. Onde quer que os indivíduos estejam estão a ser controlados. As pessoas mais insuspeitas trabalham para instituições mais ou menos indefinidas e que o comum dos mortais nunca ouviu falar.
Tal como Josef K. todos nós somos condenados a viver aprisionados numa sociedade mais ou menos escabrosa.
Existe, contudo, uma mensagem de esperança. Apesar de a maioria dos indivíduos se comportarem como autênticos cordeiros a caminho do matadouro, a verdade é que existe sempre alguém que tenta remar contra a maré e perguntar porquê? Foi o que K. fez. É verdade que no fim foi morto. Contudo, é neste questionamento da realidade social que se encontra o embrião da mudança e se identifica a verdadeira acção social.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Almada, o Tráfego Automóvel e o Centro da Cidade...
Quem conhece Almada sabe que a sua zona central é constituída por um eixo viário que se desenvolve entre a rotunda do Centro Sul e a zona de Cacilhas.Este eixo central é constituído por várias avenidas: Bento Gonçalves, Nuno Álvares Pereira, Afonso Henriques e 25 de Abril).
Acontece que inserido no Plano de Mobilidade de Almada e aproveitando as potencialidades que o Metro trouxe em termos de acessibilidades e conforto para os Almadenses e não só, a Câmara Municipal decidiu interditar ao transito parte do eixo central da cidade.
O eixo central terá em toda a sua extensão cerca de 2 km de comprimento sendo que a parte interdita ao trânsito não terá mais de 200 metros, ou seja, cerca de 10% da totalidade do eixo central.
Esta decisão Camarária que visava descongestionar a zona central da Cidade e assim restituir a rua aos Almadenses e visitantes, foi mal recebida por parte dos comerciantes da zona.
Estes comerciantes argumentam que esta decisão, da Câmara Municipal, contribui decididamente para a ruína do comércio local.
Em traços largos é este o retrato da polémica que está instalada em Almada e que começa a dominar a campanha eleitoral autárquica que está a dar os primeiros passos.
Importa pois saber até que ponto os comerciantes têm razão para protestar e em que medida o Município Almadense terá tomado uma decisão correcta.Como em todos os aspectos da vida em sociedade, também neste caso, a razão não está toda do mesmo lado. Pode argumentar-se que a Câmara Municipal poderia ter sido mais sensível e deveria ter percebido que esta decisão iria contribuir para o agravamento de uma situação que já era séria em termos da diminuição da procura do comércio tradicional instalado na zona central da cidade. Por outro lado, os cidadãos residentes na área vêem com agrado a inexistência de trânsito.
Ou seja, estamos numa posição em que existem interesses conflituantes.Voltando à opinião dos comerciantes, creio que a mesma acontece por um acto de desespero. A verdade é que a realidade pela qual passa o comércio tradicional é similar em todas as áreas da cidade e é de carácter estrutural.
Este fenómeno de crise generalizada do comércio tradicional não é uma realidade Almadense. Está presente em todas as cidades do Pais (veja-se a discussão sobre a baixa Lisboeta) e diria mesmo que está na agenda das principais cidades Europeias.
A verdade é que se alteraram os hábitos sociais.
Quem tem o privilégio de ter nascido na época pré-centros comerciais, sabe que então todos tínhamos o hábito de passear na rua com os nossos pais. O passeio consistia nada mais, nada menos do que na observação das montras das lojas que existiam um pouco por toda a parte. Costumava-se dizer que íamos ver as “montras”.
A verdade é que esse hábito social se mantém. Na prática continuamos a ver as “montras”. Acontece que as “montras” não estão directamente na rua mas sim dentro de um centro comercial. Ocorreu pois um fenómeno de deslocação do comércio de rua para os centros comerciais.
Os centros comerciais de grande dimensão funcionam como estruturas agregadoras que permitem que os indivíduos consigam satisfazer todas as suas necessidades de consumo no mesmo espaço.
Esta nova forma de fazer compras disponibiliza aos consumidores um conjunto de produtos e de serviços que o comércio tradicional não poderá proporcionar. Para além da gama de produtos e de serviços que funcionam de forma complementar, os centros comerciais proporcionam conforto e bem-estar. No inverno são locais acolhedores e no verão são frescos. Para além de serem locais climatizados proporcionam estacionamento automóvel (no caso do Almada Fórum gratuito).
É impensável nos dias de hoje ver pessoas carregadas com compras no meio da rua ao frio ou ao calor. Os indivíduos tornaram-se mais exigentes e comodistas e pouco se importam com a realidade do comércio tradicional.Os centros comercias, para além das “virtudes" acima descritas, perceberam igualmente que a vida moderna, essencialmente urbana, está condicionada pelos horários. Os indivíduos em muitos casos praticam horários de trabalho que coincidem com o horário do comércio tradicional. Ou seja, não têm disponibilidade para fazer compras a não ser nos centros comerciais ou noutras grandes superfícies.
De facto, as cidades deslocaram o seu eixo comercial para outras áreas e em particular para a periferia. Esta alteração deve-se, entre outros motivos, ao facto dos terrenos serem mais baratos na periferia, por serem mais abundantes e por ser mais fácil edificar edifícios com grande volumetria em zonas não construídas. Por outro lado, estas estruturas requerem vias de acesso rápidas e que garantam o escoamento célere do tráfego automóvel o que dificilmente se consegue numa zona da cidade mais antiga e menos adequada à circulação intensa de automóveis.
Estamos pois confrontados com um novo paradigma ao nível dos hábitos de consumo e da oferta que é proporcionada aos consumidores.
Os comerciantes não podem insistir em “velhas fórmulas” que já não funcionam. O comércio tradicional para funcionar com algum sucesso tem que se modernizar e tem que diferenciar a sua oferta. Não faz sentido oferecer produtos e serviços iguais ou de inferior qualidade aos que podemos encontrar num centro comercial.
O comércio tradicional tem que ser capaz de eleger públicos alvo que devido a diversos factores não gostem ou não possam utilizar os centros comerciais.
O comércio tradicional tem que apostar em produtos e em serviços que tenham valor acrescentado e que não estejam disponíveis nas grandes superfícies, como é o caso de artigos exclusivos, destinados a faixas de mercado de estratos sociais mais altos ou na comercialização de produtos e de serviços que sirvam, por exemplo, camadas da população com maiores dificuldades de mobilidade como os idosos e que não se deslocam a centros comerciais.Os comerciantes são os primeiros interessados em que o seu negócio prospere ao invés de entrar num processo de estagnação e de agonia. Os comerciantes devem contudo perceber que interesses corporativos e sectários não podem impedir o desenvolvimento da Cidade.
Almada necessita, quanto a mim, de alguns serviços na sua zona central. Serviços que sirvam de pólo de atracção e que assim acabem por catalisar sinergias e por consequência beneficiar as actividades económicas que ai se estabelecem.A ideia de localizar no centro da Cidade a Loja do Cidadão é um exemplo.
Esta medida que está a ser utilizada como arma eleitoral pela oposição contra a actual força política que gere os destinos do Concelho de Almada, não passa de um placebo que apenas dá ao doente a sensação que está a contribuir para a sua recuperação.
Fica pois o apelo para que o problema do comércio tradicional em Almada seja tratado de uma forma séria e que não se utilizem argumentos pouco fundamentados apenas como arma de arremesso político.
C.Santana
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
As Eleições Legislativas, os Debates Políticos e os Comentadores
Definir conceptualmente estes dois momentos pouco ou nenhum interesse terá. Na prática e para o cidadão comum trata-se exactamente da mesma coisa. É pois nesta altura que os líderes políticos nos fazem chegar, a cada um de nós, as suas propostas para a próxima legislatura.
Considerando o espectro político nacional e as tradicionais e históricas diferenças entre direita e esquerda, cada líder esforça-se por mostrar as suas diferenças e o seu posicionamento face às principais preocupações que assolam a nossa sociedade.
Neste contexto, será de esperar que, face às convicções ideológicas que subjazem à família política em que os diferentes partidos políticos nacionais se integram, cada líder político nos apresente propostas que casem com a linha politica de cada um dos partidos.
Acontece que nos debates que têm sido transmitidos nos diferentes canais televisivos, temos assistido a situações que qualifico de estranhas e incongruentes. Assiste-se com espanto ao espanto que alguns políticos querem fazer transparecer sobre propostas, com marca ideológica, apresentadas pelos seus adversários. Esta situação é particularmente evidente nos partidos mais situacionistas e que tiveram ou têm responsabilidades governativas.
Que espanto se pode ter ao ouvir da voz de um líder político assumidamente de esquerda, não de esquerda travestida, referir que tem como objectivo a colectivização progressiva dos meios de produção? Será que esta proposta é incoerente com a linha politica que este defende?
A mesma estupefacção tenho ao ouvir os comentadores dos diversos canais de televisão que supostamente têm como missão descodificar o que os políticos tentaram transmitir durante os debates. Temos pois que escutar com atenção os debates e em seguida ouvir os sapientes comentadores para termos a certeza que conseguimos descodificar correctamente a mensagem que os políticos nos transmitiram.
Acontece que os comentadores que supostamente deveriam ter um posicionamento neutro em termos ideológicos conseguem por vezes ser mais manipuladores do que os próprios políticos.
Também os comentadores se espantam ou parecem espantar-se com as propostas apresentadas por alguns líderes políticos em particular os da esquerda assumida. Será que estes senhores não percebem que a politica ainda tem algo de ideológico e que a coerência na defesa dessa ideologia não deve ser vista como algo estranho? Estranho seria um partido de esquerda, como o Partido Comunista ou o Bloco de Esquerda, defenderem os ideais neo-liberais e a sacro santa lei de mercado. Como seria estranho o PP ou o PSD e mesmo o PS defenderem uma colectivização dos meios de produção e a luta de classes.
Como se não bastassem os políticos também os senhores comentadores parece defenderem que todos devemos raciocinar da mesma forma. Ou seja, o modelo capitalista e as leis de mercado são algo intocável e funcionam como uma espécie de religião económico-social que não pode sofrer contestação. Aqueles que a colocarem em causa são hereges e não podem merecer a nossa confiança. O problema é que esta nova religião e os seus autos-de-fé, à imagem das outras, em pouco ou nada tem contribuído para a salvação da humanidade.
A politica não pode ser uma espécie de teoria de gestão em que os políticos mais não são do que gestores em vez de serem líderes.
Os líderes devem fazer prevalecer os ideais, devem saber ver a longo prazo, devem saber motivar. Os gestores são executores a quem se pede rigor. Um líder político que tem aspirações de poder não pode ser um mero gestor por muito competente que seja.
Um líder político não pode dizer como a Dra Manuela Ferreira Leite que as pessoas não pensam na luta de classes mas sim em terem trabalho. Esta afirmação parecendo muito inocente e preocupada com a vida quotidiana dos indivíduos, faz transparecer uma preocupação maternalista e míope socialmente em que o importante é termos trabalho para pagar as nossas coisinhas de todos os dias.
A qualidade desse trabalho e as condições em que o mesmo é exercido são questões pouco relevantes. Temos assim a imagem de uma politica que não vê a longo prazo. Temos uma política que se mostra, pretensamente, preocupada com o hoje sem perceber como será o amanhã. Temos uma política que não percebe que a luta de classes não sendo algo evidente está presente diariamente quando somos confrontados com as abissais diferenças sociais existentes.
Quem conhece a história percebe que a última grande alteração de paradigma social que ocorreu por consequência da revolução industrial tem na sua génese a luta de classes.
A classe Burguesa ascendeu socialmente através de processos fracturantes como foi o caso da Revolução Francesa. Contudo, essa ascensão também se fez muitas vezes sem necessidade de levar a cabo uma revolução de carácter violento. A Burguesia destituiu do poder a Nobreza e conseguiu esse objectivo, essencialmente, através da sua luta diária pela mudança do estado de coisas. A mudança foi lenta mas foi alcançada. Talvez não tenha sido visível à vista desarmada mas ela estava presente. Provavelmente se a Dra. Manuela ferreira Leite tivesse vivido nesse período histórico não teria percebido nem se teria apercebido, devido à sua miopia politica e social, as mudanças que se estavam a verificar e teria afirmado o mesmo que afirmou há poucos dias.
Creio que a Dra. Manuela Ferreira Leite nos deve respostas às seguintes questões: Será que as classes sociais desapareceram? Será que a diferença entre ricos e pobres não é uma realidade? Será que a reprodução social da miséria que está muitas vezes na base de erupções violentas em bairros sociais do nosso e de outros países é uma ficção? É mentira que cada vez mais as classes favorecidas se conseguem impor em termos financeiros, culturais e sociais? Será que o modelo intocável de capitalismo de mercado não contribui para o acentuar das desigualdades sociais que se vivem um pouco por toda a Europa e por todo o mundo? Será que a crise que estamos a viver foi provocada pelo modelo socialista que para alguns está enterrado e sem qualquer hipótese de ressurgimento?
Apesar de todas estas questões que deveriam ser discutidas de forma aberta e intelectualemnte honesta, a nossa política, infelizmente, não passa de uma espécie de balanço contabilístico do passado ou do presente governativo. Quem está no governo tenta justificar a sua má governação devido à herança do anterior governo e quem está na oposição tenta chegar ao poder criticando o governo actual.
Penso convictamente que todos temos que fazer um esforço para que a nossa democracia não se torne algo apenas a preto e branco. O arco íris fornece-nos uma paleta de cores que não devemos negligenciar. Não nos contentemos com um menu em que apenas podemos escolher entre dois pratos. Ainda por cima ambos utilizam os mesmos ingredientes e sabem a requentado.
Não permitamos que nos sirvam uma democracia comprimida e compactada. Exijamos diversidade e pluralidade.
A asfixia democrática não se faz apenas pela interferência que o governo possa ter nos diversos sectores da vida social. Faz-se também de forma por vezes subliminar quando nos fazem crer que a razão está sempre do mesmo lado.
C.Santana
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Demografia - Concelho de Mértola

Neste contexto e tendo por pano de fundo o atrás referenciado, só me restavam duas hipóteses de escolha: Almada e Mértola.
Para além do gosto pessoal que tenho pelo concelho, este apresenta uma característica que julguei interessante para a realização de um trabalho na área da demografia. Ou seja, ocorreu um acontecimento que alterou profundamente a estrutura e dinâmica da população: encerramento da Mina de São Domingos em meados da década de 1960.
O primeiro capítulo respeita a volumes e estrutura da população, o segundo capítulo trata aspectos referentes à mortalidade e o último destina-se a caracterizar a natalidade. Por fim será apresentada uma breve conclusão salientando os aspectos mais relevantes.
Concelho de Mértola Breve Historial
Calcula-se que durante os cerca de 108 anos, em que as minas operaram, tenham sido extraídos cerca «25 milhões de toneladas de minério».[4]


Vista da praia fluvial de São Domingos – Foto – Autor: Carlos Santana, 2006.

Metodologia
[1] Retirado de http://www.cm-mertola.pt/cm-mertola/default.asp?SqlPage=GuiaVisitantePatrimonio&CpChannelId=107&CpContentId=218&Style=amarelo.css , Janeiro de 2009.
[2] Nova Enciclopédia Larousse, Circulo de Leitores, Lisboa, Edição 3900, volume 15, 1998, p. 4689.
[3] Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Mina_de_S%C3%A3o_Domingos, Fevereiro de 2009.
[4] Idem.
[5] Heitor Domingos, Recordações da Mina ao Pomarão, Edição do Autor, 1995, p. 53.
[6] Retirado de http://www.cm-mertola.pt/cm-mertola/default.asp?SqlPage=GuiaVisitantePatrimonio&CpChannelId=107&CpContentId=218&Style=amarelo.css , Janeiro de 2009.
[7] «Arqueólogo e islamista, é o responsável pelo desenvolvimento do Campo Arqueológico de Mértola e pela notável investigação que tem trazido à luz a importância daquela vila durante o período de ocupação islâmica. Tendo recusado a carreira académica, foi sobretudo depois da volta de um exílio que durou catorze anos, de 1960 a 1974, que tomou a opção pelos estudos em Mértola. Estes já lhe valeram reconhecimento nacional e internacional com a atribuição do "Prémio Pessoa" (1991), "Prémio Rómulo de Carvalho" (2001), sendo ainda o Representante de Portugal no Comité do Património Mundial da UNESCO». Retirado de http://www.uevora.pt/universidade/honoris_causa/claudio_torres, Janeiro de 2009.
[8] Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9rtola, Janeiro de 2009.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Teoria da Agência vs Teoria dos Interessados

O movimento cooperativo tal como muitos outros fenómenos de cariz social tem como catalisador do seu desenvolvimento, as mudanças radicais vividas, em particular, no século XIX.
Edgar Morin tem uma opinião algo coincidente com a acima apresentada, embora considera a divisão do trabalho um caminho inevitável: «A especialização vai fazer progredir de forma gigantesca a complexidade dos sistemas sociais, multiplicar os produtos, as riquezas, as trocas, as comunicações, estimular invenções em todos os domínios. No plano individual, no entanto, a especialização vai acarretar a degenerescência de um tipo humano polivalente e politécnico que a arqui-sociedade havia desenvolvido (…)».[3]
Sobre esta mesma matéria, Emile Durkheim tem uma posição contrária: «Mas, não será que a divisão do trabalho, ao fazer de cada um de nós um ser incompleto, implica uma diminuição da personalidade individual? É uma crítica que frequentemente se lhe dirige. Nos povos inferiores, o acto próprio do homem é assemelhar-se aos seus companheiros, é realizar nele todos os traços do tipo colectivo, que então se confundem, mais ainda do que hoje, com o tipo humano. Mas, nas sociedades mais avançadas, a sua natureza é, em grande parte, ser um órgão da sociedade, e a sua acção específica, por consequência, é desempenhar o seu papel de órgão».[4]
[2] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, Edições Avante, Lisboa, 4ª edição, 2004, p.43.
[3] Edgar Morin, Op. Cit., p. 176 e 177.
[4] Emile Durkheim, A Divisão do Trabalho Social, II Volume, Editorial Presença, Lisboa, p.200 e 201.
[5] Anthony Giddens, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 5ª edição, 2007, p. 381.
As cooperativas são como um híbrido «entre um agrupamento de pessoas e uma empresa».[4]
[2] Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Cooperativismo, Dezembro 2008.
[3] Conceição S. Couvaneiro, Op. Cit., p.41.
[4] Ibidem, Op. Cit., p.21.
Retirado de: http://www.museudascolectividades.com/index.php?page=shop.browse&option=com_virtuemart&Itemid=2, Dezembro de 2008.Pode pois dizer-se que a Cooperativa de Consumo Piedense desempenhava duas funções de carácter social: por um lado contribuir para a prestação de serviços e comercialização de produtos a um preço justo aos seus associados e por outro contribuir para os ideais de liberdade.
Modelos de Governação
Caracterização Geral
Falar de modelos de governação nada tem de político. Trata-se apenas das diversas opções organizativas e de gestão que se podem encontrar como forma de assegurar a definição estratégia e a vida quotidiana das empresas, sejam elas do sector lucrativo ou cooperativo.
Na prática, apenas se trata de estabelecer «o meio através do qual uma organização é dirigida, controlada e regulada».[3]
De entre os diversos modelos de governação existentes, apenas iremos, de forma sintetizada, referir-nos a dois: Teoria da Agência e Teoria dos Interessados.
Teoria da Agência
Teoria dos Interessados
Para além dos gestores e dos accionistas, existem outros “agentes” que concorrem para o sucesso ou insucesso das empresas e como tal devem estar representados na sua governação.
Neste modelo de governação está presente o conceito de democracia empresarial.
Devem igualmente existir departamentos que se dediquem a auscultar quer clientes como fornecedores, para que a empresa conheça as suas expectativas e anseios.
Modelo de Governação da Cooperativa de Consumo Piedense
Como já foi referido a Cooperativa de Consumo Piedense já não existe autonomamente tendo sido integrada na Pluricoop. Contudo, pela importância histórica que a mesma tem para o movimento cooperativo Português, decidiu-se pela análise dos seus estatutos datados de 1985 e que vieram substituir os estatutos que foram criados aquando da sua constituição enquanto cooperativa em 1893.
«Artº 3º § 1º - A Cooperativa tem por objectivos e fins:
a) Adquirir para fornecer aos seus membros, nas melhores condições de qualidade, informação e preço, bens e serviços destinados ao seu consumo e uso directo;
b) Prestar serviços para a promoção cultural, social e profissional dos seus membros, dos seus trabalhadores e respectivos familiares;
c) Concorrer para a difusão da doutrina e dos princípios do cooperativismo como forma de desenvolver a solidariedade entre os consumidores;
d) Difundir informação de ordem económica e social com vista à defesa da economia familiar e a educação e orientação dos consumidores».[5]
«Artº 15º § 1º - Os Órgãos Sociais da Cooperativa são:
a) Assembleia Geral;
b) Direcção;
c) Conselho Fiscal.
Pode pois verificar-se que os órgãos sociais, da Cooperativa de Consumo Piedense, obedecem a uma estrutura clássica. Ou seja, existe uma Assembleia Geral como órgão máximo, a Direcção é eleita em Assembleia Geral, é a quem compete conduzir os destinos da organização, e o Conselho Fiscal que fiscaliza a actividade exercida pela Direcção.
Modelo de Governação
Parece claro que os estatutos da Cooperativa de Consumo Piedense apontam para um modelo de governação próximo da teoria da agência.
Na prática a Assembleia Geral elege a Direcção, tal como a Assembleia de Accionistas elege os gestores responsáveis pela governação das empresas de tipo capitalista.
É facto que no caso da Cooperativa de Consumo Piedense a Direcção é eleita de forma democrática, ou seja, cada membro contribui com um voto, ao contrário do que acontece numa Assembleia de Accionistas em que o peso dos votos depende do capital detido por cada accionista. Contudo, no caso da Cooperativa de Consumo Piedense, na prática existe um delegar de competências na Direcção tal como os accionistas delegam poderes nos gestores.
Por outro lado não é perceptível a existência de órgãos que representem outros interessados para além dos associados. Ou seja, os princípios definidos na teoria dos interessados que prevêem a existência de uma estrutura que represente outros grupos de interessados tais como: «empregados, clientes (…), a comunidade local (…)»[7], não existe.
«Adesão voluntária e livre, gestão democrática exercida pelos seus membros, participação económica dos membros, autonomia e independência, educação, formação e informação, cooperação entre cooperativas, interesse relativo à comunidade».[8]
Estes princípios não estão propriamente em contradição com os princípios da teoria da agência, contudo, parecem estar melhor defendidos pela teoria dos interessados.
No caso da Cooperativa de Consumo Piedense, o facto dos membros da Direcção serem eleitos de forma democrática, parece vir ao encontro de um dos princípios cooperativos supra enumerados. Contudo, importa ter presente que muitas das vezes o nível de informação que os associados, com poder de voto, detêm dos assuntos é disparo pelo que o princípio democrático acaba por ser colocado em causa.
Se nas empresas capitalistas o capital financeiro é quem dita as regras, numa cooperativa em que o modelo de organização seja próximo da teoria da agência, acaba por ser, usando as palavras de Pierre Bourdieu, o capital social e o capital cultural detido pelos associados a marcar a diferença.
Neste contexto, os Directores apesar de serem igualmente “donos da cooperativa”, ao contrário do que acontece com os gestores das empresas capitalistas, devido ao alto grau de autonomia de que gozam e devido à inexistência de estruturas orgânicas que representem outros interesses, podem, tal como ocorre com os gestores capitalistas, ser tentados a conduzir a Organização de uma forma pouco consentânea com os desejos e anseios dos seus associados e com os objectivos para que foi criada.
Resta referir que a Cooperativa de Consumo Piedense ao optar pela sua integração numa cooperativa que é o resultado da fusão de diversas outras cooperativas, enveredou por um caminho que se aproxima do modelo preconizado pela teoria dos interessados. Ou seja, a Pluricoop apresenta uma estruturação próxima da seguida por exemplo pela Mondragon Corporacion Cooperativa[9] que também é na prática, apesar da desproporção no que concerne à dimensão, o resultado da fusão de diversas cooperativas.
Pode pois concluir-se dizendo que «(…) parece não restarem duvidas de que a forma bicéfala de governação, correspondente ao modelo que assegura a representação dos interessados é mais conforme com os princípios e os ideais do cooperativismo do que actualmente existe e que dificilmente assegura que esses fins sejam alcançados».[10]
Em Portugal o Instituto do emprego e Formação Profissional, IP (IEFP, IP) foi um dos organismos pioneiros em termos da criação de uma estrutura de gestão bicéfala e portanto na linha do preconizado pela teoria dos interessados.
O IEFP, IP, criado em 1979 e a quem compete operacionalizar as políticas públicas em matérias de emprego e formação profissional, apresenta um modelo de gestão que preconiza a existência de um Conselho Directivo (Direcção) e de um Conselho de Administração.
No Conselho de Administração têm assento para além do representante do estado - conselho directivo e elementos do ministério da educação – os representantes dos trabalhadores – centrais sindicais – e os representantes das entidades empregadoras – associações empresariais.
«O IEFP tem uma gestão tripartida, contando com a representação dos Parceiros Sociais, com assento efectivo na Comissão Permanente de Concertação Social do Conselho Económico e Social, no Conselho de Administração, na Comissão de Fiscalização, nos Conselhos Consultivos Regionais e nos Conselhos Consultivos dos Centros de Formação Profissional».[11]
Livros
MARX, Karl e ENGELS, F., O manifesto do Partido Comunista, Edições Avante, Lisboa, 4ª edição, 1997;
MORIN, Edgar, O Paradigma Perdido e a Natureza Humana, Publicações Europa-América, Mem Martins, 6ª edição, 2000;
DURKHEIM, Emile, A Divisão do Trabalho Social, II Volume, Editorial Presença, Lisboa, 1984;
GIDDENS, Anthony, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 5ª edição, 2007;
COUVANEIRO, Conceição S., Práticas Cooperativas – Personalização e Socialização, Instituto Piaget, Lisboa, 2004;
Cooperativismo e Economia Social.
Páginas Web
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cooperativismo, Dezembro 2008;
http://www.almadadigital.pt/portal/page/portal/ACD/ACD/?d_id4=2189707&cboui=2189707, Dezembro de 2008;
http://www.consumo-pt.coop/pluricoop/index.php, Dezembro de 2008;
Outros Documentos
Estatutos da Cooperativa de Consumo Piedense de 1985
Fotos da Capa
[1] Conceição S. Couvaneiro, Op. Cit., p.43.
[2] Retirado de http://www.consumo-pt.coop/pluricoop/index.php, Dezembro de 2008.
[3] Cooperativismo e Economia Social, p. 53.
[4] Os estatutos da Cooperativa de Consumo Piedense são um apêndice deste trabalho.
[5] Estatutos da Cooperativa de Consumo Piedense de 1985, p. 8.
[6] Estatutos da Cooperativa de Consumo Piedense de 1985, p. 14 e 15.
[7] Cooperativismo e Economia Social, p. 57.
[8] Conceição S. Couvaneiro, Op. Cit., p.43.
[9] Trata-se de uma das maiores cooperativas do mundo que tem sede em Espanha e estabelecimentos espalhados por diversos países.
[10] Cooperativismo e Economia Social, p. 68.
[11] Retirado de http://www.iefp.pt/iefp/sobre/Paginas/UmaIntervencaoParticipada.aspx, Dezembro de 2008.
[1] Retirado de http://www.almadadigital.pt/portal/page/portal/ACD/ACD/?d_id4=2189707&cboui=2189707, Dezembro de 2008.


