A temática da família é certamente das mais interessantes no âmbito da Sociologia e uma das que mais próxima estará de todos nós. Não nos podemos esquecer que a maior parte de nós nascemos e vivemos em contexto familiar, apesar das múltiplas roupagens que a família pode ter.
Partindo de uma visão sistémica poderemos considerar a família como um sistema social. Neste contexto, assumindo que um sistema pode ser mais ou menos aberto, podemos facilmente entender que a família está permeável à influência de factores externos, sejam eles originários de outros sistemas sociais (ex: sistema cultural, sistema laboral, sistema económico, etc) ou de movimentos sociais que pretendem que a sociedade mude determinados aspectos da sua estrutura (ex: movimentos Gay) e que através da acção social dos indivíduos que os constituem vão ganhando espaço e porta-vozes que vão abrindo brechas no sistema cultural prevalecente – padrão – e assim conquistam o seu espaço social e impõem as suas formas de representar a vida em sociedade.
Estas brechas e estas novas visões da vida em sociedade contribuem para que a estrutura da família se modifique.
A não permeabilidade do sistema familiar às influências de outros sistemas sociais e o seu fechamento à mudança, contribuiria certamente para que sofresse um processo entrópico e tendesse a implodir. Ou seja, a rigidez do conceito de família não lhe permitiria dispor da plasticidade necessária para a sua perpetuação e adaptação às novas realidades. Por outro lado, o excesso de abertura a visões diferenciadas sobre aquilo que deve ser uma família poderá contribuir para a sua descaracterização e como tal para a perda da sua identidade.
Podemos pois concluir que é necessário encontrar um ponto de equilíbrio entre a necessidade de manter uma “ideia” nuclear de família e a aceitação da família como um conceito com diversos cambiantes.
O que é então a família na actualidade e o que pretendemos que ela seja no futuro? Esta pergunta é pertinente e a resposta certamente não é fácil.
A noção de família actual, restringindo o conceito às sociedades ocidentais ditas desenvolvidas, é certamente neta da revolução industrial. Foi sem duvida este momento determinante da nossa história enquanto espécie humana que veio alterar de forma drástica diversas dimensões da nossa vida em sociedade e forçosamente também a do conceito de família.
A industrialização do processo produtivo veio provocar as mais dramáticas alterações que o homem presenciou desde o dia do seu aparecimento à superfície da terra. Para além de ter deixado de ser eminentemente rural, passou a ser confrontado com um conjunto de realidades completamente novas. O conceito de família foi reformado, a mulher passou a ter um outro papel na sociedade, a relação laboral passou a ser essencialmente subordinada e os indivíduos passaram a concentrar-se em aglomerados urbanos que não estavam minimamente desenhados para receber uma autentica avalanche de novos habitantes.
A urbanização da vida social, o trabalho fora do local de residência, a existência de horários de trabalho rígidos, o desenvolvimento dos sistemas de educação, o facto da mulher trabalhar e a laicização da vida social, são, entre outros,factores, determinantes para que as características da família tradicional tivessem sido transformadas.
Desde logo a família deixou de ser alargada. Ou seja, a convivência de diversas gerações no mesmo espaço deixou de ser o padrão.
Todas estas alterações sociais associadas à “libertação” da mulher e à revolução sexual feminina verificada nos anos de 1960 contribuíram para que a família se transfigurasse e assumisse outras dimensões.
Presentemente, a família continua a ser um sistema social importante e que ainda funciona como uma espécie de farol e de âncora para os indivíduos, contudo, perdeu alguma da preponderância que já teve, designadamente como agente socializador dos mais novos. A dinâmica e os apelos da vida moderna fizeram com que muitas das competências de socialização que estavam centradas na família fossem transferidas para outros agentes: creches e jardins de infância, escolas, ATL, televisão, computadores, etc.
Importa não perder a noção que a família tem um papel importante na reprodução da espécie e na transferência de saberes às gerações mais novas. A verdade é que está a falhar nessas vertentes. A taxa de natalidade dos países desenvolvidos é de forma geral muito baixa e cada vez mais as crianças saem de casa mais cedo para serem socializadas fora do ambiente familiar.
Quando se fala de família tende-se a falar de casamento ou de outra forma de união entre indivíduos. É tema actual falar do casamento gay e do modelo de família que dai deriva.
No semestre passado tive oportunidade de desenvolver um trabalho no âmbito da mudança social que abordava aspectos múltiplos entre os quais o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
A componente empírica do trabalho previa a utilização da técnica de entrevista em grupo como meio de obter as representações sociais sobre o tema. O grupo era constituído por jovens estudantes do 12º ano de escolaridade.
Verificou-se no que concerne à mudança que representa o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que o grupo tendia a aceitar essa mudança embora não fosse uma opinião unânime. Quem se opunha à mudança apresentava argumentos relacionados com a tradição: «..os homossexuais não faziam parte deste projecto [casamento].»
Quando se perguntava quais as razões que levam os homossexuais a casar verifica-se que eram invocadas essencialmente razões materiais ou de obtenção de direitos: «…o que eles querem é as mesmas regalias…um papel não muda nada…», «…a razão mais forte por eles estarem a querer casar…não é o amor é para terem os mesmos direitos».
Ao questionar-se o que levam os heterossexuais a casar, não deixa de ser relevante verificar que a primeira resposta e a mais dominante é a questão afectiva: «…a principal causa é por gostarem um do outro…», «…celebra o sentimento ente eles…».
Existe pois uma representação diferente quanto ao casamento homossexual e o casamento heterossexual. O casamento homossexual tende a ser visto como um meio de obtenção de regalias e o heterossexual como uma forma de celebrar o amor e de reconhecimento social.
Por sua vez o grupo manifestou-se contra a adopção de crianças por pessoas do mesmo sexo. Alegavam que a sua posição não se deve à adopção em si mas sim ao facto da sociedade não estar preparada para essa mudança. Defendiam, designadamente, que a adopção poderia causar problemas graves às crianças na sua integração social, bem como se poderiam verificar algumas situações de reprodução do comportamento homossexual que lhes seria transmitido pelos adoptantes: «…teria uma grande pressão e sentia-se mal com os colegas», «As crianças é que vão sofrer», «…as crianças não nascem ensinadas e o exemplo que vêem é supostamente o que seguem».
Estes exemplos apenas servem para demonstrar que as gerações mais novas são tão intransigentes à mudança social, no caso ao conceito de família, como as mais velhas e que este tipo de comportamento não permite um rejuvenescimento, quanto a mim, importante do papel da família.
Penso que no futuro a família irá continuar a existir embora provavelmente seja muito diferente do conceito que hoje temos a seu respeito. Se é que existe apenas um conceito!

