Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

O ópio do povo e a religião do ódio: Marx e a nova velha extrema-direita

As respostas estão quase todas nos clássicos. Os outros apenas se limitaram ou limitam a reinterpretar o que há muito foi pensado e dito.

Em Sobre a Questão Judaica, Karl Marx propõe uma reflexão fundamental sobre a relação entre religião e cidadania, que permanece atual face ao crescimento de discursos políticos de cariz identitário que fomentam a exclusão social. Escrevendo a partir de uma Europa marcada por tensões religiosas, Marx contesta a ideia de que os judeus só poderiam ser emancipados politicamente se abdicassem da sua fé. Para Marx, tal exigência contraria o próprio princípio da emancipação, pois subordina o reconhecimento dos direitos à adesão a uma identidade religiosa dominante.

Marx distingue, assim, duas dimensões da libertação humana: a emancipação política, que implica o reconhecimento da igualdade jurídica entre todos os cidadãos independentemente da sua religião, e a emancipação humana, que só se concretiza quando desaparecem as formas materiais de desigualdade e alienação que estruturam a sociedade capitalista. O Estado laico, segundo Marx, deve libertar-se de qualquer submissão a confissões religiosas e garantir o mesmo estatuto de cidadania a todos. A fé é uma questão privada; o direito, uma questão pública.

Como tal, ao contrário do que se propaga, em particular por muitos que citam Marx sem o ter lido, este não ataca a religião em si, o que ele critica é o papel político e ideológico que ela pode assumir quando se torna instrumento de dominação e alienação.

Quando o pensador alemão refere que “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e o espírito de uma situação sem espírito. É o ópio do povo”, não está a rejeitar a fé, mas a denunciar a forma como a religião pode ser usada para consolar as pessoas sem mudar as condições que as fazem sofrer.

Transportar esta reflexão para o contexto contemporâneo português, e infelizmente de outras geografias, permite compreender o contraste entre o ideal marxista de cidadania universal e o discurso político de figuras como André Ventura, cujo projeto ideológico se estrutura numa conceção de identidade nacional fortemente associada à tradição cristã e católica. Sob a aparência de defesa dos “valores ocidentais”, este discurso delimita o campo da pertença nacional, transformando a religião numa fronteira simbólica entre os “de dentro” e os “de fora”, ou se preferirem “nós” e “eles”. A diferença religiosa, tal como a diferença étnica ou cultural, torna-se, neste contexto, um argumento de exclusão.

Ao invocar a religião como critério de legitimidade moral ou de pertença cívica, a extrema-direita reintroduz precisamente o que Marx criticava: a confusão entre a esfera do homem religioso e a do cidadão. Num Estado verdadeiramente laico, o católico, o muçulmano, o hindu, o judeu ou o ateu devem poder exercer os mesmos direitos e deveres, sem que a fé, ou a ausência dela, determine a sua integração social ou o seu reconhecimento político. Os direitos emergem da condição de cidadão e não da religião.

A lição de Marx é, pois, clara e contemporânea: os direitos humanos e sociais não derivam da religião, mas da condição comum de cidadania.


 

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