O ópio do povo e a religião do
ódio: Marx e a nova velha extrema-direita
As respostas estão quase todas
nos clássicos. Os outros apenas se limitaram ou limitam a reinterpretar o que
há muito foi pensado e dito.
Em Sobre a Questão Judaica,
Karl Marx propõe uma reflexão fundamental sobre a relação entre religião e
cidadania, que permanece atual face ao crescimento de discursos políticos de
cariz identitário que fomentam a exclusão social. Escrevendo a partir de uma
Europa marcada por tensões religiosas, Marx contesta a ideia de que os judeus
só poderiam ser emancipados politicamente se abdicassem da sua fé. Para Marx,
tal exigência contraria o próprio princípio da emancipação, pois subordina o
reconhecimento dos direitos à adesão a uma identidade religiosa dominante.
Marx distingue, assim, duas
dimensões da libertação humana: a emancipação política, que implica o
reconhecimento da igualdade jurídica entre todos os cidadãos independentemente
da sua religião, e a emancipação humana, que só se concretiza quando
desaparecem as formas materiais de desigualdade e alienação que estruturam a
sociedade capitalista. O Estado laico, segundo Marx, deve libertar-se de
qualquer submissão a confissões religiosas e garantir o mesmo estatuto de cidadania
a todos. A fé é uma questão privada; o direito, uma questão pública.
Como tal, ao contrário do que se
propaga, em particular por muitos que citam Marx sem o ter lido, este não ataca
a religião em si, o que ele critica é o papel político e ideológico que ela
pode assumir quando se torna instrumento de dominação e alienação.
Quando o pensador alemão refere
que “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem
coração e o espírito de uma situação sem espírito. É o ópio do povo”, não está
a rejeitar a fé, mas a denunciar a forma como a religião pode ser usada para
consolar as pessoas sem mudar as condições que as fazem sofrer.
Transportar esta reflexão para o
contexto contemporâneo português, e infelizmente de outras geografias, permite
compreender o contraste entre o ideal marxista de cidadania universal e o
discurso político de figuras como André Ventura, cujo projeto ideológico se estrutura
numa conceção de identidade nacional fortemente associada à tradição cristã e católica.
Sob a aparência de defesa dos “valores ocidentais”, este discurso delimita o
campo da pertença nacional, transformando a religião numa fronteira simbólica
entre os “de dentro” e os “de fora”, ou se preferirem “nós” e “eles”. A
diferença religiosa, tal como a diferença étnica ou cultural, torna-se, neste contexto,
um argumento de exclusão.
Ao invocar a religião como
critério de legitimidade moral ou de pertença cívica, a extrema-direita
reintroduz precisamente o que Marx criticava: a confusão entre a esfera do homem
religioso e a do cidadão. Num Estado verdadeiramente laico, o católico, o
muçulmano, o hindu, o judeu ou o ateu devem poder exercer os mesmos direitos e
deveres, sem que a fé, ou a ausência dela, determine a sua integração social ou
o seu reconhecimento político. Os direitos emergem da condição de cidadão e não
da religião.
A lição de Marx é, pois, clara e contemporânea: os direitos humanos e sociais não derivam da religião, mas da condição comum de cidadania.

