Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

terça-feira, 20 de julho de 2010

Famílias Complexas «Cá em casa cabe sempre mais um»

Famílias Complexas

«Cá em casa cabe sempre mais um»


Introdução

A temática da família é certamente uma das que mais próxima estará de todos nós. Não nos podemos esquecer que a maior parte de nós nascemos e vivemos em contexto familiar.

Partindo de uma visão sistémica poderemos considerar a família como um sistema social. Neste contexto, assumindo que um sistema pode ser mais ou menos aberto, podemos facilmente entender que a família está permeável à influência de factores externos, sejam eles originários de outros sistemas sociais (ex: cultural, económico, religioso) ou de movimentos sociais que pretendem que a sociedade mude determinados aspectos da sua estrutura (ex: movimentos Gay) e que através da acção social dos indivíduos que os constituem ganham espaço e porta-vozes que vão abrindo brechas no sistema cultural prevalecente – padrão – e assim conquistam o seu espaço social e impõem as suas formas de representar a vida em sociedade.

Estas brechas e estas novas visões da vida em sociedade contribuem para que a estrutura da família se modifique.

A não permeabilidade do sistema familiar às influências de outros sistemas sociais e o seu fechamento à mudança, contribuiria certamente para que sofresse um processo entrópico e tendesse a implodir. Ou seja, a rigidez do conceito de família não lhe permitiria dispor da plasticidade necessária para a sua perpetuação e adaptação às novas realidades. Por outro lado, o excesso de abertura a visões diferenciadas daquilo que deve ser uma família poderá contribuir para a sua descaracterização e como tal para a perda da sua identidade.

A industrialização do processo produtivo veio provocar as mais dramáticas alterações que o homem presenciou desde o dia do seu aparecimento à superfície da terra. Para além de ter deixado de ser eminentemente rural, passou a ser confrontado com um conjunto de realidades completamente novas. O conceito de família foi reformado, a mulher passou a ter um outro papel na sociedade, a relação laboral passou a ser essencialmente subordinada e os indivíduos passaram a concentrar-se em aglomerados urbanos que não estavam minimamente desenhados para receber uma autentica avalanche de novos habitantes.

A urbanização da vida social, o trabalho fora do local de residência, a existência de horários de trabalho rígidos, o desenvolvimento dos sistemas de educação, o facto da mulher trabalhar e a laicização da vida social, são, entre outros, factores determinantes para que as características da família tradicional tivessem sido transformadas.

Presentemente, a família continua a ser um sistema social importante e que ainda funciona como uma espécie de farol e de âncora para os indivíduos, contudo, perdeu alguma da preponderância que já teve, designadamente como agente socializador dos mais novos. A dinâmica e os apelos da vida moderna fizeram com que muitas das competências de socialização que estavam centradas na família fossem transferidas para outros agentes: creches e jardins de infância, escolas, ATL, televisão, Internet, etc.

Apesar destas notas, o trabalho que nos propomos realizar concentra-se basicamente na análise crítica de um artigo da autoria de Pedro Vasconcelos intitulado: Famílias Complexas: Tendências de Evolução.

Iremos pois abordar aspectos relacionados com a evolução que este modelo de família (famílias complexas) tem sofrido em Portugal em particular no período de 1991 a 2001.

Começaremos o nosso trabalho por descrever os aspectos mais relevantes do artigo que acima referimos e num segundo momento iremos apresentar algumas considerações sobre a mesma temática com base num estudo realizado por outro autor.

I Parte

Famílias Complexas: Tendências de Evolução

Pedro Vasconcelos abordou as tendências de evolução das famílias complexas em Portugal durante o período de 1991 a 2001. Para tal efectuou uma análise de tipo estruturalista suportada em dados estatísticos dos censos de 1991 e 2001. Desta forma, comparando a evolução verificada de um registo censitário para outro, pretendeu traçar a evolução registada neste tipo de organização familiar.

O autor pretendeu igualmente analisar «o perfil social dessa população»[1], bem como determinar a forma como as famílias complexas se distribuem geograficamente pelo território português e o motivo pelo qual esta configuração familiar foi perdendo relevância.

Pedro Vasconcelos, apoiado em diversos autores (Laslell, Wall, Hammel), começa por caracterizar o que são famílias complexas. Neste contexto, o autor refere que as famílias complexas são caracterizadas por integrarem para além do núcleo simples (conjugais com ou sem filhos, ou monoparentais – pai ou mãe – com filhos) «…outras pessoas ou mesmo outros núcleos».[2]

Na primeira situação referida podemos mencionar que se tratam de agregados familiares alargados e na segunda de agregados múltiplos.[3]

O autor refere que historicamente e com base em estudos realizados em Portugal, designadamente por Le Play e seus colaboradores nas primeiras décadas do século XX, que se verificava que as famílias complexas eram uma realidade bastante presente, em particular nas comunidades rurais em que predominava a pequena propriedade e logo no norte do país.[4]

Apesar das constatações de Le Play e não negligenciando as assimetrias regionais, Pedro Vasconcelos refere que este tipo de organização familiar sempre foi minoritário em Portugal.

Pedro Vasconcelos refere que é claro o facto da organização familiar complexa «…ter vindo paulatinamente a perder peso relativo e absoluto no conjunto das estruturas domésticas portuguesas».[5] Para comprovar este facto apresenta dados estatísticos que demonstram que entre 1991 e 2001 as famílias complexas diminuíram cerca de 3,5%, passando de 440 mil para menos de 380 mil.

Para o autor esta quebra do número de agregados familiares complexos vem na sequência de uma diminuição ainda mais severa e que se terá iniciado na década de 1960.

Dentro da estrutura das famílias complexas são os agregados alargados que mais têm diminuído quando comparados com os múltiplos. Uma das explicações avançadas por Pedro Vasconcelos para esta realidade poderá estar relacionada com o isolamento crescente a que são votados os indivíduos mais idosos.[6]

Para além de se ter verificado uma diminuição no número relativo e absoluto de famílias complexas existentes em Portugal, Pedro Vasconcelos refere que se verificou igualmente uma alteração na própria estrutura organizativa das famílias. Ou seja, as famílias complexas deixaram de ter uma estrutura clássica e passaram a constituir-se, em muitos casos, por um núcleo composto por dois cônjuges e outro por um indivíduo jovem (quase sempre do sexo feminino) e respectivo filho. Isto é, as famílias complexas são constituídas predominantemente por dois cônjuges e um núcleo monoparental. Para Pedro Vasconcelos esta situação resulta do facto de se verificar uma fragilidade económica do núcleo monoparental e logo ter dificuldades em conseguir sobreviver de forma autónoma.[7]

Pedro Vasconcelos menciona igualmente que, apesar da situação crescente de isolamento dos idosos, as famílias complexas na sua componente de agregado alargado subsistem essencialmente devido ao acolhimento por parte dos filhos dos seus pais idosos. Esta realidade, segundo Pedro Vasconcelos, é constatada pela estrutura etária dos indivíduos pertencentes a agregados familiares alargados e pelo facto de predominarem os indivíduos do sexo feminino, facto que se deve à prevalência de indivíduos idosos do sexo feminino no contexto da sociedade Portuguesa.[8]

Estas constatações que são produzidas por Pedro Vasconcelos levam-nos a concluir que a vivência em famílias complexas não deriva de aspectos relacionados com a tradição ou cultura, mas que se sustenta eminentemente em aspectos de fragilidade económica e social. Um outro indicador, aportado por Pedro Vasconcelos, demonstra que maioritariamente as famílias complexas são constituídas por indivíduos com níveis de instrução baixos.[9]

Como foi referido no inicio deste trabalho as famílias complexas não se encontram uniformemente distribuídas pelo território nacional. Pedro Vasconcelos refere que em 2001 as famílias complexas localizavam-se essencialmente na região do Minho e restante zona norte, bem como nas ilhas.[10]

Pedro Vasconcelos indica que estas variações regionais só podem ser claramente explicadas com a realização de estudos que tenham em atenção a relação existente entre a complexidade familiar e a estrutura sócio económica predominante em cada região.[11]

Em jeito de conclusão, Pedro Vasconcelos diz que as famílias complexas, apesar da diminuição que se vem verificando de forma sustentada desde a década de 1960 e particularmente entre 1991 e 2001, apresentam ainda um número relativamente elevado em Portugal.[12]

Esta diminuição da complexidade familiar é, segundo Pedro Vasconcelos, resultado das melhores condições de vida que se vêm verificando desde há cerca de três décadas, associada a mudanças culturais que se relacionam com a modernidade. Esta situação implica que as famílias complexas se constituam como que numa espécie de enclave dos indivíduos menos dotados social e economicamente.[13]

Uma outra razão para a diminuição dos agregados de famílias complexas é, para Pedro Vasconcelos, o isolamento crescente, voluntário ou forçado, dos idosos.[14]

II Parte

Famílias Complexas: Uma Outra e Mesma Visão

A subsistência de diversas tipologias de família designadamente das famílias complexas – por alargamento ou multiplicidade – parecem querer contrariar as ideias clássicas aportadas por autores como Morgan e corroboradas por outros como Engels[15]. Estes autores defendiam de certa forma, como nos refere Cristina Santos Silva[16], que a família estava condicionada por uma espécie de evolução determinista e que tenderia a culminar num modelo de família nuclear.

Ainda segundo Cristina Santos Silva[17] a família nuclear era, mesmo antes do processo de industrialização, o modelo predominante. Ou seja, quando os indivíduos eram eminentemente rurais era a família nuclear que predominava.

É senso comum entender-se que a urbanidade é sinónimo de famílias nucleares, sejam elas conjugais ou monoparentais, e que na ruralidade predominam outras tipologias, designadamente as famílias complexas. Também esta ideia feita não encontra nas investigações empíricas uma sustentação científica[18].

Cristina Santos Silva desenvolveu um trabalho que visava estudar as famílias complexas num bairro histórico de Lisboa, Alfama. Esta autora conclui, tal como Pedro Vasconcelos, que o principal motivo pelo qual as famílias complexas se constituem tem a ver com aspectos de carência económica e social. Coincidem igualmente quanto ao facto dos indivíduos que compõem estas famílias serem detentores de níveis de instrução baixos.

Pode pois concluir-se que a ruralidade ou a urbanidade não são factores decisivos para a existência de famílias complexas. Estas derivam essencialmente de aspectos sócio económicos e consequentemente por necessidade de manter laços de solidariedade que permitam enfrentar de forma menos dura a realidade do dia-a-dia. Exemplo desta solidariedade familiar é o facto de todos os indivíduos das famílias complexas terem uma divisão funcional de tarefas muito específica e contribuírem todos – pelo menos os que têm rendimentos – para o orçamento familiar. A família é gerida como uma espécie de pequena comunidade em que os direitos e deveres são partilhados por todos.[19] Inclusive, a família substitui o Estado em muitas das funções que lhe estão confiadas nas sociedades de tipo ocidental nos países desenvolvidos (guarda de crianças por parte dos avós, cuidados à terceira idade, etc).[20]

As famílias complexas parecem ser, com base na informação produzida pelos autores citados, algo não natural. Ou seja, tendem a desaparecer à medida que as condições económico sociais melhoram.

***

Bibliografia

VASCONCELOS, Pedro, Famílias Complexas: Tendências de Evolução, Sociologia, Problemáticas e Práticas, nº 43, 2003.

ENGELS, Friedrich, A Origem da Familia, da propriedade Privada e do Estado, Edições Avante, Lisboa, 2ª edição, 2002.

SILVA, Cristina Santos, Famílias de Alfama, Imprensa de Ciências Sociais, Lisboa, 2001.




[1] Pedro Vasconcelos, Famílias Complexas: Tendências de Evolução, Sociologia, Problemáticas e Práticas, nº 43, 2003, p. 83.

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] Pedro Vasconcelos, Op. Cit., p. 84.

[5] Ibidem, p. 85.

[6] Pedro Vasconcelos, Op. Cit. p. 85.

[7] Ibidem, p. 88.

[8] Pedro Vasconcelos, Op. Cit., p. 88.

[9] Mais de 50% das famílias complexas em 2001 eram constituídas por indivíduos com o 1º ciclo do ensino básico. Apenas 5,7% das famílias complexas em 2001 possuíam licenciatura ou grau académico superior. Pedro Vasconcelos, Op. Cit., Quadro 2, p. 87.

[10] Pedro Vasconcelos, Op. Cit., p. 92-96.

[11] Ibidem, p. 95.

[12] Idem.

[13] Idem.

[14] Idem.

[15] Friedrich Engels, A Origem da Família, da propriedade Privada e do Estado, Edições Avante, Lisboa, 2ª edição, 2002.

[16] Cristina Santos Silva, Famílias de Alfama, Imprensa de Ciências Sociais, Lisboa, 2001, p. 20.

[17] Idem.

[18] Cristina Santos Silva, Op. Cit., p. 22.

[19] Ibidem, p. 106..

[20] Cristina Santos Silva, Op. Cit., p. 132.

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