Introdução
A Miséria do Tempo tem como pano de fundo o período da crise financeira
que emergiu primeiro nos EUA e depois se expandiu a todo o mundo. Crise que em
Portugal ficou conhecida com a designação de “TROIKA”.
Uma das consequências
mais visíveis da crise económica e social é o fenómeno do desemprego. O
desemprego atingiu valores nunca alcançados em Portugal (17,5% em 2013) e com
ele assistiram-se a situações crescentes de exclusão social.
A investigação que deu
origem ao livro pretende perceber as consequências que ainda são vivenciadas
após cerca de 10 anos sobre o início da crise.
Os autores pretendem,
mais do que avaliar dados estatísticos, dar voz aos atores que vivenciam ou
vivenciaram, na primeira pessoa, as consequências da crise. Importa analisar os
seus discursos e o seu entendimento subjetivo sobre o mundo social. Para tal,
foi utilizada a técnica de entrevista como forma de aceder às representações
sociais dos indivíduos ou se preferirmos ao seu conhecimento social.
O estudo tem o foco no
desemprego de trabalhadores menos qualificados e com idade a partir dos 40
anos.
Foram entrevistados 46 indivíduos
desempregados de ambos os sexos, com uma idade média de 55 anos (mínima 43 anos
e máxima 66 anos), residentes nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Alguns
dos indivíduos beneficiavam de apoio social no desemprego através da perceção
de prestações de desemprego.
Os autores elegeram como objetivo geral da investigação, analisar o modo como o mal-estar tem sido
vivido por grupos sociais fortemente afetados pela conjuntura económica. Como
objetivos específicos pretenderam compreender a forma como os grupos
enfrentaram e percecionaram o impacto do desemprego nas suas próprias vidas e, igualmente,
perceber os mecanismos segundo os quais se constroem
as várias interpretações da realidade social e as circunstâncias particulares
que resultam das dinâmicas macroeconómicas.
O título do livro
inspira-se na obra de Bourdieu Miséria do Mundo e visa dar destaque às pequenas misérias acumuladas nos trajetos
de vida dos indivíduos, como os baixos níveis de qualificação, a emigração, o subemprego,
a precariedade, o trabalho sem direitos, etc. Tudo aquilo que rótula os indivíduos
como perdedores e os empurra para a pobreza e exclusão social.
Pretendemos fazer uma
análise que conte a “história” do livro, percorrendo todos os capítulos, e não
se esqueça do esqueleto que lhe deu forma. Ou seja, os aspetos metodológicos surgem
ao longo do texto e nos momentos que julgamos mais adequados. Desta forma, a
história irá estar entrelaçada com o referido esqueleto.
A Miséria do Tempo: ENTRE A ACELERAÇÃO E A PARAGEM
FORÇADA
O tempo e as pequenas misérias que
ele transporta. O tempo como quase uma tortura que fere os indivíduos no seu
quotidiano penoso e sem perspetivas de futuro.
Tempo vivenciado de forma diferente e
mesmo antagónica por quem tem excesso de trabalho, passando o tempo
demasiadamente rápido, e para quem nada tem para fazer em que o tempo parece suspenso.
A aceleração do tempo social e a
falta de tempo para desenvolver todas as atividades de tipo profissional, criam
uma certa indefinição entre tempo de trabalho e tempo de lazer.
Esta “confusão”, este entrelaçamento,
entre tempo de trabalho e não trabalho é intensificada pela utilização de
tecnologia suportada pela Internet. O conceito de Homem Unidimensional
desenvolvido por Marcuse, como referem os autores, espelha bem o que se passa
na sociedade da informação.
É de salientar a observação que os
autores fazem relativamente ao facto de em contraponto à aceleração do tempo
social, para quem está imerso nas muitas rotinas profissionais, contrastar a
cristalização da mobilidade e o acentuar das desigualdades sociais. Ou seja, o
passar rápido do tempo não é sinónimo de mudança social, mas antes de
reprodução social negativa.
Se o tempo passa de forma voraz para
quem tem trabalho, a locomotiva do tempo para abruptamente para quem se vê
confrontado com situações de desemprego. O tempo vivenciado por quem está desempregado apresenta contornos
diferentes. Para além da questão da perda de vínculos sociais e do surgimento
de sentimentos de inutilidade, soma-se a perda de noção de temporalidade. Perda
da noção de tempo que resulta do desaparecimento de rotinas e que potencia o isolamento
social.
À aceleração do tempo, devido à
dinâmica da vida laboral, contrapõe-se a desaceleração provocada por situações
de desemprego.
É necessário acrescentar, à dimensão
temporal, a precarização da relação laboral. Esta situação cria incerteza e faz
expandir a noção de presente para fora dos seus limites.
Precariedade que se acentuou com a
crise de 2008, mas que tem raízes mais profundas e que deriva de alterações ao
nível dos modelos de organização do trabalho, de opções políticas e da
globalização da economia.
Para Beck (2000), o novo sistema
caracteriza-se pela customização e pela diversidade. O mercado torna-se global
e o trabalho passa a ser precário. O fenómeno do desemprego é assumido como
normal tal como a exclusão social que este gera. De uma sociedade em que a
certeza era algo sistémico, passa-se para uma sociedade de risco em que nada
está certo e tudo é contingencial.
Um outro fenómeno que emerge deste
novo modelo é o aumento do desemprego nos escalões etários mais elevados
(Castel, 1998). A transição natural do trabalho para a reforma é substituída
por uma situação de desemprego que em muitos casos representa a passagem direta
para a inatividade devido às dificuldades de regresso ao mercado de trabalho.
O regresso ao emprego de
trabalhadores mais velhos e com níveis de escolaridade mais baixos ou intermédios,
acaba por se fazer de forma intermitente e através de relações de emprego pouco
estáveis e propiciadoras de baixos rendimentos.
Esta, como é destacada
na Miséria do Tempo, é igualmente uma consequência, como já referimos atrás, de
processos mais complexos em que a globalização e a transferência de atividades
económicas industriais para outras latitudes, manda para o desemprego
trabalhadores que fizeram todo o seu percurso profissional numa empresa, ou
numa atividade industrial tradicional como o calçado ou o têxtil.
Julgamos ser importante definir o que
se entende por precariedade laboral. Maria Teresa Serôdio Rosa, considera que
emprego “precário tem que ver com a incerteza, a temporalidade, o baixo
rendimento, a maior dificuldade, o carácter revogável do local e das condições
em que se realiza o trabalho”. (2003, p. 27)
A precariedade cria incertezas no
futuro, o desemprego, em particular, de longa duração, cria essencialmente
perspetiva de não futuro.
O TEMPO SOCIAL DO DESEMPREGADO: PERFIS
DIFERENCIADOS
Os autores operacionalizam o conceito de tempo social segmentando-o
em duas dimensões. A primeira designam-na de “tempo in actum” e a
segunda de “tempo iter”. A estas duas dimensões fazem corresponder duas
categorias: “tempo sem rumo e “tempo reorientado”.
Esta
segmentação pretende refletir a forma como os indivíduos percecionam e
vivenciam o tempo em período de desemprego.
Ao tempo “in actum” corresponde o tempo presente. O tempo vivenciado quotidianamente em período de desempego. A forma como os indivíduos o organizam e como o ocupam.
O tempo
“iter” é transversal à vida dos indivíduos. Percorre o passado, visita o presente
e projeta o futuro. É uma espécie de tempo biográfico em que as diversas
dimensões temporais (passado, presente e futuro) são interdependentes.
O discurso
abaixo é elucidativo do que os autores entendem por tempo “in actum” sem rumo, vivido
de forma fluída:
“Dantes havia aqueles horários a
cumprir, era preciso levantar cedo e sair àquela hora. Agora não, é completamente
diferente. Uma pessoa que trabalha sabe que se levanta e que tem lá o seu
trabalho onde vai estar o dia todo, o tempo todo. E neste caso não é assim. Que
há dias que também se torna um vazio. Há dias em que é um vazio, é um desânimo.
(E14, Mulher, 49 anos,)”
No exemplo seguinte, os autores
pretendem traduzir o que entendem por tempo “in actum” com novas rotinas e
reorientado:
“Às 9 estou a pé. Vou para a casa de
banho, vou tomar a medicação que eu tomo, depois vou dar uma limpeza à casa, e
depois vou tratar do almoço, vou tratar das roupas, vou tratar do que houver
para fazer. Vou ver se há pão para ir buscar, lá vai ela ao pão, lá vai ela
buscar fruta. (E11, mulher, 66 anos)”
A ideia
de tempo “iter” que se consubstancia num tempo sem rumo e de fechamento é
transmitida por discursos como o seguinte:
“Não dá para fazer planos [riso]. Não
dá para fazer projetos. Quando se tem uma fonte de rendimento, um trabalho e
tal, pronto, pode-se projetar umas férias, pode projetar-se qualquer coisa por
mais pequena que seja, não é?” (E29, mulher, 47 anos)
Finalmente
o tempo “iter” transmite a ideia de que o tempo pode ser reorientado e expressa
uma ideia de abertura, de esperança na reconstrução da vida social e da
biografia dos indivíduos.
Podemos, pois, concluir que o emprego
funciona como uma espécie de pivô que serve para que os indivíduos possam
organizar as suas rotinas e a forma como consomem o tempo. Ou seja, o emprego
organiza o tempo.
Por outro lado, o emprego estável permite
aos indivíduos prever o futuro e desenhar a sua vida.
Se o emprego organiza o tempo, o
desemprego desconstrói-o e cria um certo caos.
A desorganização do tempo provocado
por períodos de desemprego é traduzida pelo discurso dos indivíduos como pudemos
constatar.
Os discursos refletem a
dificuldade que os indivíduos têm em lidar com o tempo quando se veem em
situações de desemprego. O tempo torna-se um empecilho, algo indesejado.
Contudo, nem todos os indivíduos
vivenciam o tempo de desemprego da mesma forma. Em muitos casos, como destacam
os autores, o tempo de trabalho é substituído por outros tempos.
As atividades de substituição são
boias de salvação que os indivíduos utilizam para não perderem rotinas e para
se sentirem vivos.
Mesmo assim, para quem consegue ocupar
o tempo e construir novas rotinas, bem como para quem vive agarrado ao tempo em
que trabalhava e vive no vazio, o futuro é algo nebuloso. É algo enigmático.
O QUOTIDIANO E A RELAÇÃO COM O ESPAÇO
DOMÉSTICO
Se o tempo passa a ser uma variável
complexa com a qual os desempregados têm de lidar, o espaço é igualmente um
desafio. O espaço da residência dos desempregados passa em muitos casos a
funcionar como uma espécie de prisão em que estes se vêm isolados entre quatro
paredes. Como os autores referem, o Lar que é sinónimo de tranquilidade, de
descanso e de refúgio, passa a ser o oposto. Os dias são sempre iguais e nada
de novo se passa.
“Eu em casa sinto-me inútil! Em casa
não faço nada. Eu olho para a minha casa, e às vezes digo assim: «estou aqui,
não faço hoje, faço amanhã» e a trabalhar eu sei que não é assim, sei fazer as
coisas, sei que hoje tenho de estar com atenção (…). E em casa pedi o prazer.
Perde-se o prazer, o prazer pela vida, porque todos os dias são iguais, e se
não lavar hoje a loiça, lavo amanhã. Entra-se neste ciclo.” (E1, mulher 52
anos)
Como é sublinhado pelos
autores, o tempo de clausura passado em casa, quase como numa espécie de instituição
total, convoca os indivíduos para pensamentos negativos acerca do seu futuro.
Contudo, o lar pode igualmente ser o
ponto de partida para a construção de novas oportunidades, de novas rotinas, de
nova vida.
Para que o lar continue a ser
encarado como refúgio, lugar de tranquilidade e de bem-estar, os indivíduos
evitam permanecer fechados em casa e procuram atividades que subsituam o tempo
de trabalho, designadamente através de atividades lúdicas diversas, muitas
delas promovidas por instituições de caráter social.
O IMPACTO DO DESEMPREGO NA SAÚDE E NO
CUIDAR
A saúde e o desemprego surgem como
variáveis que se influenciam mutuamente. O desemprego pode causar situações de
doença mental que tornam ainda mais difícil o regresso ao emprego. A saúde é
muitas vezes condicionadora de percursos profissionais mais bem-sucedidos,
sendo que em muitos casos não se trata da saúde do trabalhador, mas daqueles a
quem este tem socialmente o dever de cuidar.
O impacto do desemprego na saúde
mental é abordado pelos autores, sendo que a literatura que existe sobre o
tema, em particular na área da psicologia, evidencia o impacto negativo que o
desemprego traz para os indivíduos, em particular nos primeiros tempos de
desemprego. Parece ficar demonstrado que os indivíduos com o passar do tempo
conseguem adaptar-se à nova realidade.
Alguns testemunhos de desempregados
num estudo efetuado no âmbito de uma dissertação de mestrado, sobre a
discriminação etária dos trabalhadores mais velhos, vêm ao encontro desta tese:
“Ao princípio nem quero pensar, até
me tirava o sono. Agora já estou habituado à ideia. (…) Ao princípio fui
abaixo. Fui abaixo porque nunca pensei ficar desempregado.” (E3, homem, 54
anos, desempregado há 3 anos).
Os fatores apontados como
catalisadores da doença mental são de ordem financeira e não financeira, sendo
que os resultados de vários estudos apontam para uma relevância mais acentuada
dos de ordem não financeira. Fatores como a perda de identidade e de utilidade.
Contudo, como referem os autores, importa
ainda destacar a relevância do emprego como elemento central na vida de muitos
indivíduos, funcionando como uma fonte de rendimento, na maioria dos casos a
única, para que estes possam fazer face às necessidades do dia a dia.
O
LADO PESSOAL DO DESEMPREGO: RETRATOS DE ALGUNS PERCURSOS DE VIDA
Neste capítulo os autores pretendem transmitir
a ideia de trajetórias de vida que nos dá uma perspetiva sobre os percursos de
indivíduos pertencentes a diversos perfis e situações face ao emprego, tais
como os desempregados de longa duração, os indivíduos em situação de
subemprego, os que estão entre empregos e os que aguardam pela reforma.
Como refere Isabel Guerra (2006, p.40), numa investigação qualitativa não se poder falar de construir
uma amostra com representatividade estatística, mas sim com representatividade
social. Foi esta a lógica subjacente à construção da amostra por parte dos
autores. A mesma é constituída por 46 indivíduos distribuídos pelas categorias
acima mencionadas, destacando-se, em particular, o peso dos desempregados de longa
duração, com 19 entrevistados e a categoria subemprego, representada por 12 indivíduos.[1]
Nas investigações qualitativas,
como aquela que estamos a analisar, não existe uma regra que os investigadores
possam seguir relativamente ao número de indivíduos que devem ser entrevistados.
A regra mais seguida é a da saturação. Podemos dizer que a “amostra” atingiu a
dimensão “perfeita” quando o discurso dos indivíduos deixa de fazer emergir
novos dados relevantes para a investigação.
A técnica utilizada foi
a entrevista semiestruturada (ou semidiretiva) baseada num guião.[2] Como sublinha
Pedro Araújo (2008, p. 73): «(…) é através das palavras que o investigador terá
acesso ao mundo dos outros e será com base nestas que dará existência a esse
mundo.».
O guião é um instrumento
importante no sentido de se garantir a comparabilidade entre as diversas
entrevistas. Contudo, deve assegurar-se que o guião não é um constrangimento
para os entrevistados e que não os impede de poderem aportar informação
relevante para a investigação.
Tal como destaca Isabel
Guerra (2006, p. 48), para o êxito das entrevistas um dos fatores mais decisivos
é a definição do perfil dos entrevistados. É importante que os mesmos detenham capacidade
para verbalizar e exteriorizar as suas representações sobre o tema em estudo.
Os indivíduos entrevistados têm idade superior a 40
anos, escolaridade até ao 12º ano, estão desempregados e podem ou não
beneficiar de proteção social no desemprego.[3]
Os autores utilizaram igualmente a técnica de
entrevista biográfica para a realização de algumas entrevistas aos indivíduos que
constituem a amostra já referenciada. Os retratos biográficos representam cada um dos
perfis acima identificados.
As entrevistas biográficas são
inspiradas no método criado por Lahire, de retratos sociológicos, em que o
indivíduo se constitui como uma espécie de porta voz do grupo social em que se insere.
A análise de conteúdo, do material
resultante da transcrição das entrevistas, foi efetuada com o auxílio de um
sistema informático: MAXDA
Previamente à realização das
entrevistas, os autores utilizaram algumas das instituições frequentadas pelos entrevistados,
a maioria IPSS, como uma espécie de mediador institucional que funcionou como facilitador
no acesso aos indivíduos. Os indivíduos deram o seu consentimento informado
para participarem na investigação, tendo sido respeitados, pelos autores, as
demais questões respeitantes a aspetos éticos, designadamente a
confidencialidade da identidade dos indivíduos.
MERCADO
DE TRABALHO: EXPERIÊNCIAS E REPRESENTAÇÕES
São abordados aspetos como as
representações que os desempregados têm sobre o mercado de trabalho, as suas
experiências, expectativas e dificuldades no regresso ao trabalho.
Como é salientado pelos
autores, apesar de uma certa heterogeneidade ao nível dos itinerários
profissionais, designadamente em razão da profissão de cada individuo, da sua
experiência profissional e de variáveis geográficas, há alguns fatores que os
unem, tais como a idade, a relativa baixa escolaridade e a pouca relevância
dada pelos empregadores ao seu trajeto profissional no regresso, ou na
tentativa de regresso, ao mercado de trabalho.
“Cada vez mais há uma dificuldade
tremenda, ou seja, não é dificuldade. É quase impossível uma pessoa com uma
baixa escolaridade, não é? Arranjar trabalho. Porque nós não somos avaliados
pelas nossas competências profissionais, não é? Adquiridas ao longo da vida,
mas muitas vezes é olham para um CV, habilitações… A idade também é logo um
fator, e dos primeiros.” (E29, mulher, 47 anos)
Os discursos dos desempregados muitas
vezes salientam o facto de serem exigidas qualificações escolares para o
desempenho de certas funções que não são justificáveis. Algo similar diz Robert
Castel (1998), a propósito dos trabalhadores mais jovens, ao referir que o
aumento de exigência das empresas ao nível das qualificações dos trabalhadores,
sem em muitos casos corresponder a exigências de carácter técnico, empurra uma
significativa quantidade de jovens para situações de desemprego.
Se alguns desempregados investem na sua
escolaridade com o objetivo de afastar um dos obstáculos no regresso ao trabalho,
logo outro surge no caminho. Ou seja, a idade é uma das principais barreiras que
os indivíduos, a partir de uma determinada idade, têm de enfrentar no regresso
ao mercado de trabalho.
“A partir dos 45 anos já somos velhos
para trabalhar. (…) É como lhe estou a dizer, é como se fosse velho, é o que eu
acho. Pessoalmente é o que eu acho. Como se eu fosse um velho. Não gosto de
chamar velho. Pronto, é assim que eu me sinto. A partir dos 45 anos já veem as
pessoas de uma maneira.” (E8, homem, 50 anos)
Se a idade é um obstáculo, a
experiência profissional que poderia ser entendida como uma mais valia, não é
valorizada pelo mercado de trabalho.
Por outro lado, os indivíduos consideram
que a principal diferença entre o mercado de trabalho atual e aquele que
encontraram quando começaram a trabalhar, é a dificuldade em obter emprego. A
transição entre empregos era algo recorrente e presentemente é muito rara.
Os indivíduos percecionam
ainda outras alterações estruturais no mercado de trabalho, como a automação,
que segundo estes é responsável por muita destruição de emprego, bem como a
introdução das tecnologias de informação.
O tipo de vínculo laboral é outra das
grandes alterações percecionadas pelos indivíduos. De uma relação de emprego
estável, passou-se para vínculos precários.
“Portanto hoje é muito complicado,
hoje há muita gente aí a trabalhar na construção, com ordenados, sem férias,
sem recibos, sem nada, por 30 euros por dia.” (E3, homem, 59 anos)
É importante fazer
menção ao conceito de desemprego utilizado pelos autores. Foi intenção destes, mais
do que se ficarem pelas estatísticas oficiais do desemprego e respetivos
conceitos, fazer emergir as “pequenas misérias” que resultam de fatores que as estatísticas
utilizadas pela medir o desemprego acabam por camuflar. Neste contexto, os
autores optaram por utilizar “um indicador denominado «taxa de desemprego redimensionada»,
através do qual se torna possível analisar uma taxa de desemprego alargada, que
contabilize todas as situações que não são equacionadas na taxa de desemprego
oficial” (Carmo & D’Avelar, 2020, 18).
Desta forma, é possível
perceber o impacto que situações de subemprego, desemprego a tempo parcial e
outras formas de precariedade laboral, têm na vida dos indivíduos e como contribuem
para potenciar situações de exclusão social. Permite ainda perceber as razões
subjacentes à desistência de procurar emprego característica dos indivíduos que
são designados como “desencorajados”, característica muitas vezes presente nos desempregados
de longa duração.
Os autores referem
ainda ser esta a melhor metodologia para a realização de uma investigação de
tipo qualitativo.
Julgamos que os autores
poderiam, igualmente, ter feito alusão ao desemprego registado. Ou seja, ao
conceito utilizado pelo IEFP e que em determinadas situações não abrange os indivíduos
em situação de desemprego, apesar destes não terem qualquer atividade
profissional, designadamente quando estes estão a frequentar ações de formação
ou integrados em medidas ativas de emprego.[4]
FORMAS
DE APOIO EM SITUAÇÕES DE DESEMPREGO
Os autores fazem referências às medidas
de política pública que visam mitigar os impactos do desemprego, em particular
nos períodos mais agudos da crise de 2008.
As medidas passivas, ou reparadoras,
consubstanciam-se nas prestações de desemprego, em particular o subsídio de
desemprego e o subsídio social de desemprego. Sendo que a taxa de cobertura, em
particular do subsídio de desemprego baixou de forma expressiva na pior fase da
crise, deixando desta forma uma parte substancial dos desempregados sem
proteção social.
Acrescentamos a esta constatação, o
facto de em 2012 a legislação de suporte ao sistema de proteção social no
desemprego ter sido alterada, tendo sido reduzidos os prazos de proteção no
desemprego de forma acentuada, em particular para os escalões etários mais
elevados. [5]
Por seu turno, as medidas ativas de
emprego visam ativar os desempregados através de várias estratégias, desde a
formação profissional, aos programas ocupacionais, medidas de aproximação ao
mercado de emprego, técnicas de procura de emprego, etc.
As medidas ativas pressupõem uma
contratualização entre os desempregados e o estado, através do serviço público
de emprego, em que ficam definidos direitos e deveres e a aplicação de sanções
em determinadas situações de incumprimento por parte dos desempregados.
Os autores pretendem
perceber os olhares dos desempregados sobre estes apoios e não avaliar a forma
como o sistema de proteção social no desemprego está desenhado.
São efetuadas considerações à
especificidade do chamado estado social nos países do sul da Europa, nos quais
se integra Portugal. Historicamente os países do Sul são muito marcados pela
existência de redes de solidariedade familiar que subsituem o estado sempre que
este falha.
Considerando que o emprego é a principal
fonte de rendimentos da maioria dos indivíduos, importa perceber como estes
conseguem “sobreviver” numa situação de desemprego, em particular nos casos de
desemprego de muito longa duração, em que a proteção social conferida pelas
prestações de desemprego já não existe.
A sobrevivência nestes casos parece
ser assegurada pelo recurso a mecanismos informais de proteção social, como os
amigos e em particular a família.
Se o apoio material providenciado
pelas famílias é importante para a sobrevivência dos indivíduos, a verdade é
que a família é igualmente um pilar de extrema importância do ponto de vista
emocional e afetivo.
PERSPETIVA SOBRE O «OUTRO»
Pretende transmitir-se a ideia de
como os desempregados veem os outros. Em particular os “diferentes”, os
imigrantes, os beneficiários de RSI, os “culpados do costume”.
Do discurso dos indivíduos emergem
duas categorias opostas. Por um lado, o nós, os que são da nossa “tribo” e o
eles que representam uma espécie de inimigo.
Recorrendo à linguagem de Becker, os
insiders e os outsiders, ou os normais e os estigmatizados, apropriando-nos do
léxico de Goffman.
Um dos alvos mais fáceis são os
imigrantes, como representantes dos eles.
Quando questionados
sobre quem deveria ter prioridade no emprego, a resposta é clara:
“Aos portugueses, tal e qual! Acho
que sim. São do nosso país, nós estamos cá primeiro. Nós nascemos cá.” (E8,
homem, 50 anos)
Este comportamento de rejeição dos
eles é igualmente praticado pelos nós que estando excluídos da possibilidade de
usufruírem de proteção social no desemprego, por terem esgotado o prazo de
atribuição das prestações ou por qualquer outro motivo, consideram que os
apoios dados a terceiros são ilegítimos e deveriam ser eliminados por parte do
governo. São especialmente vítimas deste comportamento, os beneficiários do
Rendimento Social de Inserção (RSI).
Apesar desta aparente oposição entre
nós e eles, também há quem não aceita esta divisão e considera que os
imigrantes têm tanto direito ao trabalho como os portugueses, dizendo inclusive
que as fronteiras entre países são construções sociais que deveriam ser
eliminadas.
“Eu sou a favor da miscelânea. Desde
sempre para mim as fronteiras físicas são um disparate, portanto não deve haver
fronteiras entre seres humanos.” (E34, mulher, 58 anos)
Considerações
Finais
A Miséria do Tempo consegue demonstrar
que o desemprego é um fenómeno multidimensional que afeta a vida dos indivíduos
em diversos quadrantes.
O trabalho assalariado continua a ser
a principal e na maioria das vezes a única fonte de rendimento da maioria dos
indivíduos. Sem emprego e consequentemente sem salário, os indivíduos incorrem
demasiadas vezes em processos de exclusão social. O trabalho assalariado não é
apenas uma fonte de rendimento é também uma instituição social que confere aos
indivíduos sentimentos de utilidade e de pertença.
O desemprego dos
trabalhadores mais velhos encerra em si características e especificidades.
Estes sabem que caindo no desemprego e em particular no desempego de longa
duração, dificilmente conseguirão reconstruir a sua biografia e voltar a ter
emprego. Pelo menos emprego estável e com direitos.
Os
autores, em particular Renato Carmo, têm-se dedicado ao estudo de temáticas como
a desigualdade social. Renato Carmo é atualmente diretor do observatório das
desigualdades.[6]
A
Miséria do Tempo vem na sequência de uma outra investigação levada a cabo por Renato
Carmo e por Ana Matias, com o título de «Retratos da Precariedade» (Camo &
Matias, 2019) respeitante ao fenómeno da precaridade do emprego dos jovens e a
forma como esta afeta o quotidiano e a vida desses indivíduos.
Na
Miséria do Tempo o foco está no desemprego e nos trabalhadores de meia idade,
com níveis de escolaridade baixos ou intermédios. Como referem os autores “desemprego
e precariedade são flagelos sociais contemporâneos que atingem um número crescente
de pessoas em idade ativa. (Carmo & D’Ávila, 2020, p. 12). Ou seja, precariedade
e desemprego são faces da mesma moeda.
Deve
realçar-se da obra que analisámos e sobre a qual estamos a escrever as nossas
considerações finais, que a mesma se destaca pelo facto de ter utilizado uma
abordagem metodológica intensiva, dando desta forma voz aos indivíduos que são
diretamente afetados pela problemática do desemprego. Mais do que ler dados estatísticos,
importa perceber que os números correspondem a pessoas com vidas reais.
Destaca-se,
igualmente, a utilização de um conceito de desemprego que não “respeita” e vai
além da lógica institucionalizada de interpretação do desemprego em estrito
senso e de acordo com critérios metodológicos e concetuais do Instituo
Português de Estatística. O conceito utilizado «taxa de desemprego redimensionada»
que permite destapar uma realidade social camuflada pela taxa de desemprego
oficial.
A
realização de um Web-documentário é igualmente um traço distintivo desta
investigação.
Finalmente,
verifica-se que o livro está quase “despido” de uma revisão de literatura e de
uma abordagem teórica e concetual o que lhe confere uma maior leveza sem lhe
retirar rigor científico.
Bibliografia
Araújo, P. (2008). A
Tirania do Presente: Do Trabalho para a Vida às Incertezas do Desemprego. Coimbra:
Quarteto;
Carmo, R, M., e D´Avelar, M.M. (2020). A Miséria do
Tempo: Vidas Suspensas pelo Desemprego. Lisboa: Tinta da China.
Carmo, R.M., e Matias, A.R. (2019). Retratos da
Precariedade: Quotidiano e Aspirações dos Trabalhadores Jovens. Lisboa:
Tinta da China.
Guerra, I.C. (2006). Pesquisa
Qualitativa e análise de Conteúdo: Sentidos e forma de uso. Estoril: Principia Editora;
Beck,
U. (2000). The Brave New World of Work. Polity Press: Oxford;
Castel, R. (1998). As metamorfoses da questão
social: Uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes,
Rosa, M.T.S. (2003). Trabalho Precário Perspectivas de
Superação. Lisboa: OEFP.
Legislação
Decreto Lei 64/2012 de 15 de março. Diário da
República, N.º 54/2012 — I Série. Lisboa: Ministério da Solidariedade e da
Segurança Social: Retirado de https://dre.pt/application/conteudo/553468
SITES
https://ciencia.iscte-iul.pt/authors/renato-miguel-emidio-do-carmo/publications
https://ciencia.iscte-iul.pt/authors/renato-miguel-emidio-do-carmo/cv[1] 27 mulheres (58,7%) e 19
homens (41,3%). A idade média de 55 anos (mínimo 43 anos; máximo 66 anos). 30 entrevistas
realizadas na área metropolitana de Lisboa (indivíduos residentes em 6 zonas
diferentes) e 16 na área metropolitana do Porto (numa única zona periurbana). Escolaridade:
1 analfabeto, 12 com o 1º ciclo, 21 com o 2º e 3º ciclos, 12 com o ensino secundário.
[3] Ver
conceito de desemprego referenciado na análise ao capítulo VI.
[4] https://www.iefp.pt/documents/10181/273964/Metainforma%C3%A7%C3%A3o/8a9a7a4e-383d-4f19-958b-850c068e8c71
[5]
Decreto Lei 64/2012
de 15/03

