Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ai, Portugal, Portugal

Há uns anos atrás o grande "cantautor" português Jorge Palma escreveu uma canção que diz no seu refrão o seguinte:

«Ai, Portugal, Portugal

De que é que tu estás à espera?

Tens um pé numa galera

E outro no fundo do mar

Ai, Portugal, Portugal

Enquanto ficares à espera

Ninguém te pode ajudar»


 

Pois é…acham que existe algo que retrate melhor a situação social que estamos a viver actualmente em Portugal do que a canção do Palma?

Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo português com projecção internacional, tem saído do seu retiro académico para intervir socialmente de forma mais visível. Este autor tem participado nas últimas semanas em programas de rádio e de televisão para comentar a realidade social portuguesa.

Hoje tive oportunidade de ouvir a sua intervenção no programa Forum TSF. Boaventura de Sousa Santos referiu, entre outros aspectos, que os "agentes do medo" cada vez mais manietam e constrangem a liberdade de intervenção dos indivíduos. Ao ouvir estas palavras, com as quais concordo plenamente, veio-me à memória um outro autor, por sinal igualmente Sociólogo, Nogueira Dias.

Nogueira Dias em vez de utilizar a figura dos "agentes do medo" designa essas entidades de "vigilantes da ordem emocional".

No que concerne ao medo e às suas consequência sociais em termos de constrangimentos à acção, Nogueira Dias refere que «…por um lado, juntamo-nos aos outros para fugirmos do medo e nos sentirmos mais seguros; por outro, é no seio das estruturas de relações sociais que acabamos por sentir e desenvolver o medo, exactamente dos outros!»

O medo social é igualmente definido como um instrumento de poder e que ajuda a manter esse poder. Quem detém o poder, independentemente da sua origem (politico, económico, organizacional, religioso, etc), utiliza o medo como forma de exercer o poder, de o aumentar e perpetuar, sendo pouco relevante, nesta "guerra", os chamados "danos colaterais".

O descrédito nas instituições públicas que deveriam zelar, equitativamente pelos interesses dos indivíduos, é igualmente apontado, por Nogueira Dias, como outra fonte de insegurança e consequentemente geradora de medo de cariz social.

Se o medo é um mecanismo utilizado pelo poder dominante sobre os dominados, a verdade é que ele representa igualmente a fragilidade dos dominadores.

Somos todos os dias confrontados com a necessidade de cedermos, de aceitarmos o que nos querem impor. Não devemos mostrar a nossa indignação, não nos podemos manifestar. Se o fizermos isso é algo que os obscuros agentes económicos que nos vêm resgatar de nós próprios não entendem. Temos que ficar sossegados no nosso canto. Não podemos ser irreverentes

O medo é manipulador. Temos que ter medo de tudo. Temos que perder a nossa dignidade enquanto povo. Temos que nos sujeitar ao que os outros querem, sejam eles quem forem.

Se não nos aquietarmos no nosso canto as consequências serão ainda piores: o desemprego, a precariedade, a flexibilidade, a banca rota, etc. Sofreremos de todos os males e de todas as pestes que possamos imaginar.

Só os que estão de fora podem intervir. Só a esses assiste o direito de imporem a sua vontade. A nós resta-nos abanar positivamente a cabeça.

Esses agentes do medo ou vigilantes da ordem emocional querem ainda fazer-nos crer que apenas existe um caminho. Querem impor-nos um pensamento único. Ou eles ou o caos. Ou eles ou algo muito pior. Ou eles ou …..

Não nos iludamos. Quem criou o caos quer agora surgir como o salvador. Quem criou a crise quer cavalgar essa crise e encontrar culpados. O neo-liberalismo surge como a única salvação da humanidade. O neo-liberalismo defende a desregulação dos mercados. O neo-lberalismo defende que trabalhadores e empregadores são actores sociais em pé de igualdade. São seres racionais que no mercado de trabalho definem uns quanto pagam e outros quanto recebem. Defendem que as leis laborais são um entrave à livre negociação entre empregadores e trabalhadores. Os neo-liberais defendem que o estado é um empecilho. Os neo-liberais defendem uma espécie de darwinismo social: devem vencer os mais adaptados. Defendem uma falsa meritocracia. Esquecem-se dizer que os indivíduos só podem ser comparados no seu mérito se viverem em condições materiais comparáveis. Esquecem-se essencialmente de dizer que a crise internacional que se vive é uma consequência directa deste paradigma económico.

Como em tudo na vida, também na economia, ao contrário do que alguns (muitos) pretendem vender-nos, não existe uma única via.

Façamos pois o que Mário Soares disse: mostremos a nossa indignação. Defendamos a democracia. Defendamos o nosso direito de opinião. Façamos tudo isso com elevação e civismo.

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