Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O Papalagui...

Considerando que estamos a poucos dias do Natal e pelo facto desta quadra influenciar crentes e não crentes, resolvi importuna-los com mais um texto que pode servir para reflectirmos sobre o nosso modo de vida.

Já que o Deus Capital, verdadeiro motivo da comemoração do Natal nas sociedades ditas desenvolvidas, se sobrepõe cada vez mais ao Deus Menino e como o Deus Capital gosta que lhe prestemos honras através do sacrifício do dispêndio de dinheiro em produtos de que normalmente não necessitamos, sugiro que adquiram para vós e para oferecerem um pequeno e singelo livro intitulado O Papalagui (O homem branco europeu).

Sem querer estragar a vossa leitura permito-me resumir a história.

Trata-se de uma história escrita por Erich Scheurmann, escritor e pintor alemão que viveu entre 1878 e 1957, baseada em escritos produzidos por um chefe tribal de uma ilha do arquipélago da Somoa Ocidental que se situa no Pacifico Sul, mais precisamente na polinésia.
A história desenrola-se na década de 1920 e respeita ao relato produzido por Tuiavii, chefe da tribo Tiavea. Este chefe tribal foi educado por missionários cristãos e devido a esse facto sempre teve muita curiosidade em visitar a Europa. Conseguiu concretizar o seu sonho e visitou grande parte dos países europeus.

A história que o livro relata é produzida a partir de textos escritos por Tuiavii na sua língua materna os quais foram traduzidos por Erich Scheurmann para Alemão.

Nunca foi intenção do chefe tribal publicar os seus escritos. Estes apenas tinham como objectivo informar os habitantes de Tiavea sobre o que Tuiavii vivenciou aquando da sua visita à Europa.
Os escritos mais não são do que o relato pormenorizado da forma como Tuiavii representa a sociedade europeia. A forma como vivemos em sociedade e como interagimos com os nossos semelhantes. Os nossos valores, as nossas formas de pensar sentir e de agir.

Digamos que esta história representa de certa forma uma inversão de papéis. A norma será o europeu deslocar-se a uma terra longínqua para estudar uma tribo primitiva e não o contrário.
O livro tem uma riqueza inocente. É um relato que expressa a perplexidade de um individuo que não consegue perceber porque motivo os europeus vivem da forma que vivem. Certamente coloca as questões que nós colocariamos ao visitar a sua comunidade.

Encontram-se no livro conceitos como mais valia, divisão do trabalho, sustentabilidade ambiental, etc. Conceitos que não têm a riqueza erudita de Marx, de Adam Smith ou Durkheim mas que querem dizer o mesmo.

Tuiavii refere-se à mais valia dizendo que «…muitos Brancos há que amontoam o dinheiro que para eles outros ganharam».

Refere-se à divisão do trabalho, conceito introduzido por Adam Smith e aprofundado por Dirkheim, dizendo que «É uma coisa que se deve ter muita alegria ao fazer, mas raramente isso acontece. … Significa fazer sempre a mesma coisa, uma só coisa, e tantas vezes que se consegue fazê-la de olhos fechados e sem esforço algum.

Até se dá ao luxo de se referir à sobrealimentação, de que padecem grande parte dos europeus, menconando que « Lá na Europa existem pessoas que já não podem correr, pois criam muita gordura no ventre, como os porcos, porque têm que estar sempre parados, obrigados pela profissão. É raro ver um europeu que salte, que pule como criança, depois que fica adulto. Pelo contrário, quando anda, arrasta o corpo, como se alguma coisa travasse o seu movimento. Ele disfarça, nega esta fraqueza, dizendo que correr, pular, saltar não são decentes para um homem importante. Hipocrisia: é que seus ossos estão duros, sem movimento e seus músculos não têm mais animação porque a profissão o fez sonolento e morto. Ela lhe destrói a vida, insinua-lhe bonitas coisas, mas na realidade lhe chupa o sangue.»

Digam lá se o texto supra não é a cara chapada das preocupações que deveriam estar presentes na medicina do trabalho (ou medicina ocupacional como agora é elegante dizer).

Parece que o ser primitivo (como certamente o chamariamos se o vissemos nas nossas paragens) percebe o que quer dizer alegria no trabalho ao referir que «O Grande Espírito não quer certamente que fiquemos cinzentos por causa das profissões, nem que nos arrastemos feito as tartarugas e os pequenos animais rasteiros da lagoa. Ele deseja que continuemos felizes e firmes em tudo quanto fazemos; que não percamos a alegria dos nossos olhos e nem o contentamento com a simplicidade da vida.» Sem dúvida um autentico sindicalista que muito irritaria o Deus Capital.

E o que ele diz do dinheiro….Magnifico! «…a verdadeira divindade do homem branco é o metal redondo e o papel forte a que chama dinheiro.»

Pois é…quem é o primitivo?

Para Tuiavii pouco interesse terá “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, tal como “da divisão do trabalho social”, “O Capital”, “Economia e sociedade” e outras obras basilares da sociologia. Contudo, a verdade é que desprovido dos nossos “óculos do conhecimento” consegue escrutinar algo que para nós parece invisível.

Creio que este livro deveria ser lido por quem participa na conferência mundial sobre o ambiente que está a decorrer em Copenhaga. Todo ele é um apelo à ecologia, à vida em comunhão com a natureza e ao respeito pelo próximo.

Será que o nosso sistema cultural está em sintonia com aquilo que realmente somos? Não estaremos a incorrer num erro cada vez mais complicado de solucionar? Será que o nosso planeta não está a ficar doente? Não está na altura de tomarmos real consciência desse facto? É necessário que alguém de um outro “Mundo” nos venha dizer que o rei vai Nú?
Reflictam mas não desesperem.

Tuiavii in Erich Scheurmann, O Papalagui, Antigona, Lisboa, 1996.

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