Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

As Siglas...

P.S.D……

As siglas costumam ter alguma importância. As siglas são uma espécie de marcas. Marcas às quais os consumidores se fidelizam. A fidelização dos clientes é uma das mais-valias do capitalismo. As marcas transmitem segurança, identidade e status. Sentimo-nos bem ao identificarmo-nos com uma marca.

Contudo, as marcas têm uma vida difícil. Caso traiam a sua identidade os consumidores ficam apre...ensivos e mudam de território.

P.S.D.

Quando optamos por uma marca; seja ela de automóveis, de produtos para lavar os dentes, de ténis para correr ou de qualquer outra coisa, esperamos um certo resultado. Coerência, solidez, soluções.

P.S.D.

Quando essa marca é politica, esperamos o quê? Defesa de valores. De princípios. De ideais!!!

Ideais. Ou seja, formas de pensar, sentir e agir. Formas de ver o mundo. Formas de nos organizarmos em sociedade. Maneiras de convivermos.

Os ideais contam!!! São a identidade das marcas a que aderimos.

P.S.D.

Normalmente as marcas utilizam acrónimos para que as consigamos interiozar de forma mais fácil e imediata.

Quando falamos de partidos políticos, ou de grupos de interesse, como lhes chamava Max Weber, as marcas ganham uma relevância social mais significativa.

P.S.D.

Os acrónimos transmitem ideias. Pretendem que os indivíduos identifiquem de forma fácil as ideias que estão condensadas em poucas letras.

P.S.D. – Partido Social Democrata. Partido político que baseia a sua acção na social-democracia.

A social-democracia é uma ideologia política que nasceu no século XIX na Alemanha.

A Social-democracia defende:

«Envolvimento alargado do Estado na vida social e económica, primazia do Estado sobre a sociedade civil, colectivismo, administração de raiz Keynesiana, juntamente com a defesa de interesses de classe, limitação do papel do mercado: economia mista ou social…igualitarismo forte…» (Giddens, 1999 – Para Uma Terceira Via).

Com base nestes princípios, os “consumidores” da social-democracia esperam encontrar estas características num produto que tem um rótulo que diz: P.S.D.

Quando o produto adquirido não tem as características identificadas no rótulo estamos na presença de uma fraude.

É verdade. O P.S.D. é uma fraude. De quem será a culpa? Dos eleitores (consumidores)? Dos dirigentes? De ambos?

A verdade é que quem é eleitor do P.S.D. está a comprar gato por lebre!

Os eleitores podem dizer: as circunstâncias da crise exigem posições determinadas. Certo. É verdade. Mas será que a social-democracia não consegue encontrar as soluções no seu espectro ideológico? Se não consegue é porque a social-democracia está acabada.

Quanto aos dirigentes do P.S.D. das duas uma: ou dirigem um partido em que não acreditam ou não sabem o que é a social-democracia.

Se não acreditam no partido estão a enganar os seus eleitores. Se não sabem o que é a social democracia estão-se a enganar a eles próprios.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Por Causa da Gripe...

Ontem estive engripado. Como tal, não tinha grande paciência para me preocupar em fazer zaping para perceber a programação dos diversos canais do espectro da Zon. Assim, por inércia, fiquei durante algum tempo a ver (mais a ouvir) os vários intervenientes do programa Pós e Contras que passou na RTP 1.

Não cheguei a perceber bem qual era o tema. Mais uma vez teria algo a ver com a crise.

Depois de ouvir os diversos intervenientes verifiquei que havia um dos senhores que tinha uma atitude quase persecutória para com os trabalhadores. Para ele os trabalhadores não sabem o que fazem nas empresas. Como estava engripado e algo febril pensei ter ouvido mal.

Mais tarde percebi que este senhor era presidente do conselho de administração do hospital da Cruz Vermelha. Ou seja, alguém que tem um vencimento com diversos zeros do lado direito. Tinha um aspecto de oficial nazi (mas isso são considerações pouco relevantes).

Este senhor que não parece gostar muito de trabalhadores referia que se perdeu a emoção pelo trabalho. Que as pessoas só trabalham pelo dinheiro (será que ele trabalha por outra coisa?). Que já não há amor à camisola (esta de amor à camisola foi uma frase introduzida pela quase sempre inoportuna moderadora dos debates, Fátima Campos Ferreira). A verdade é que o senhor falava muito da emoção que se deveria ter pelo facto de termos um emprego.

Este senhor não percebe ou não quer perceber que os laços de afectividade (de amor à camisola) se ganham pela permanência. Pela estabilidade no emprego. Pelo espírito de equipa que se vai construído. Pelo sentimento de pertença e de identidade. Como é possível que alguém tenha amor à camisola quando a camisola é mudada de 6 em 6 meses?

A precariedade no emprego faz com as empresas, a prazo, sejam igualmente prejudicadas. As empresas cada vez mais vão deixando de ser estruturas sociais que servem de mecanismos de coesão social. As empresas passam a ser elementos de desintegração social. Se as empresas não vinculam os trabalhadores, estes por uma questão de sobrevivência deixam de se vincular ás empresas e sempre que uma melhor oportunidade de emprego surge nada os detém e facilmente mudam de empresa. Ninguém está vinculado a ninguém. Cada um por si. Salve-se quem puder. Amor com amor se paga. É esta a nova lógica do mercado de emprego.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Que Fazer???

De facto a coisa não está fácil. Não está fácil para quem trabalha, está mais difícil ainda para quem quer trabalhar e não tem trabalho e está bastante complicada para quem pretende defender os interesses daqueles que ainda têm a “sorte” de trabalhar.

Tudo isto é difícil de gerir. Mais difícil se torna quando todo o poder se concentra do mesmo lado da barricada: governo, capital, instituições co...munitárias e outras. Todas concentradas num prato da balança. No outro prato da balança está quem trabalha (ou está desempregado).

De facto os sindicatos estão metidos numa grande alhada. O que fazer? Tentar dialogar utilizando os canais tradicionais da concertação social? Vir para a rua correndo o risco de olhar para trás e não ver ninguém?

Quanto à concertação social para que serve neste momento? O governo utiliza sempre o mesmo argumento: o memorando da troika. O que negociar quando está tudo decidido?

A estratégia sindical, na minha modesta opinião, não pode apenas passar pelas confederações sindicais nacionais. A luta terá que ser promovida a nível comunitário. Os países têm a sua soberania praticamente hipotecada. A capacidade politica dos governos nacionais está manietada e hipotecada ao directório franco-alemão. As greves ou outras formas de luta que possam vir a ocorrer em Portugal são entendidas, a nível comunitário, como acções localizadas e pouco significativas para o sistema.

Por outro lado, ninguém consegue lutar sem guerreiros. Sinceramente não sinto que as pessoas estejam mobilizadas para tal. Cada um vê o seu problema individual e pretende resolvê-lo nem que seja à custa do desemprego do outro. Não há consciência de classe, não há identificação com um grupo profissional. É cada um por si.

Todos os dias atendo pessoas que estão desempregadas. A sua preocupação é encontrar um novo emprego. As condições em que vão trabalhar começam a ser pouco importantes.

Com o discurso do governo as pessoas vão ficando umas contra as outras. É dividir para reinar. Quem tem emprego começa a não ter espaço para defender os seus interesses. O exército de reservistas, como lhe chamava Marx, está a aguardar a sua vez e aceita trabalhar em condições menos favoráveis do que aqueles que estão empregados. Estamos a assistir àquilo a que Robert Castel (Sociólogo Francês) designa de desestabilização dos estáveis.

A saída para este estado de coisas não é fácil de vislumbrar. Nem sequer penso que seja muito relevante, no contexto actual, a posição que os sindicatos possam vir a assumir. Ser mais dialogante ou mais anti-sistema, parece que o resultado final vai ser o mesmo.

Os sindicatos estão numa encruzilhada. Convém que os sindicatos percebam que a sua existência é relativamente recente. Tal como o capitalismo em que vivemos. Um e outro são como que inimigos inseparáveis. Vamos ver se um poderá sobreviver sem o outro.

É bom que tenhamos consciência que as instituições que hoje conhecemos, designadamente os sindicatos, são produtos da revolução industrial e do paradigma económico e social que daí resultou. Normalmente a novos paradigmas correspondem novas instituições. Veremos se os sindicatos têm lugar no paradigma que ainda está em construção e que não se sabe muito bem qual será.

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