De facto a coisa não está fácil. Não está fácil para quem trabalha, está mais difícil ainda para quem quer trabalhar e não tem trabalho e está bastante complicada para quem pretende defender os interesses daqueles que ainda têm a “sorte” de trabalhar.
Tudo isto é difícil de gerir. Mais difícil se torna quando todo o poder se concentra do mesmo lado da barricada: governo, capital, instituições co...munitárias e outras. Todas concentradas num prato da balança. No outro prato da balança está quem trabalha (ou está desempregado).
De facto os sindicatos estão metidos numa grande alhada. O que fazer? Tentar dialogar utilizando os canais tradicionais da concertação social? Vir para a rua correndo o risco de olhar para trás e não ver ninguém?
Quanto à concertação social para que serve neste momento? O governo utiliza sempre o mesmo argumento: o memorando da troika. O que negociar quando está tudo decidido?
A estratégia sindical, na minha modesta opinião, não pode apenas passar pelas confederações sindicais nacionais. A luta terá que ser promovida a nível comunitário. Os países têm a sua soberania praticamente hipotecada. A capacidade politica dos governos nacionais está manietada e hipotecada ao directório franco-alemão. As greves ou outras formas de luta que possam vir a ocorrer em Portugal são entendidas, a nível comunitário, como acções localizadas e pouco significativas para o sistema.
Por outro lado, ninguém consegue lutar sem guerreiros. Sinceramente não sinto que as pessoas estejam mobilizadas para tal. Cada um vê o seu problema individual e pretende resolvê-lo nem que seja à custa do desemprego do outro. Não há consciência de classe, não há identificação com um grupo profissional. É cada um por si.
Todos os dias atendo pessoas que estão desempregadas. A sua preocupação é encontrar um novo emprego. As condições em que vão trabalhar começam a ser pouco importantes.
Com o discurso do governo as pessoas vão ficando umas contra as outras. É dividir para reinar. Quem tem emprego começa a não ter espaço para defender os seus interesses. O exército de reservistas, como lhe chamava Marx, está a aguardar a sua vez e aceita trabalhar em condições menos favoráveis do que aqueles que estão empregados. Estamos a assistir àquilo a que Robert Castel (Sociólogo Francês) designa de desestabilização dos estáveis.
A saída para este estado de coisas não é fácil de vislumbrar. Nem sequer penso que seja muito relevante, no contexto actual, a posição que os sindicatos possam vir a assumir. Ser mais dialogante ou mais anti-sistema, parece que o resultado final vai ser o mesmo.
Os sindicatos estão numa encruzilhada. Convém que os sindicatos percebam que a sua existência é relativamente recente. Tal como o capitalismo em que vivemos. Um e outro são como que inimigos inseparáveis. Vamos ver se um poderá sobreviver sem o outro.
É bom que tenhamos consciência que as instituições que hoje conhecemos, designadamente os sindicatos, são produtos da revolução industrial e do paradigma económico e social que daí resultou. Normalmente a novos paradigmas correspondem novas instituições. Veremos se os sindicatos têm lugar no paradigma que ainda está em construção e que não se sabe muito bem qual será.


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