Ontem estive engripado. Como tal, não tinha grande paciência para me preocupar em fazer zaping para perceber a programação dos diversos canais do espectro da Zon. Assim, por inércia, fiquei durante algum tempo a ver (mais a ouvir) os vários intervenientes do programa Pós e Contras que passou na RTP 1.
Não cheguei a perceber bem qual era o tema. Mais uma vez teria algo a ver com a crise.
Depois de ouvir os diversos intervenientes verifiquei que havia um dos senhores que tinha uma atitude quase persecutória para com os trabalhadores. Para ele os trabalhadores não sabem o que fazem nas empresas. Como estava engripado e algo febril pensei ter ouvido mal.
Mais tarde percebi que este senhor era presidente do conselho de administração do hospital da Cruz Vermelha. Ou seja, alguém que tem um vencimento com diversos zeros do lado direito. Tinha um aspecto de oficial nazi (mas isso são considerações pouco relevantes).
Este senhor que não parece gostar muito de trabalhadores referia que se perdeu a emoção pelo trabalho. Que as pessoas só trabalham pelo dinheiro (será que ele trabalha por outra coisa?). Que já não há amor à camisola (esta de amor à camisola foi uma frase introduzida pela quase sempre inoportuna moderadora dos debates, Fátima Campos Ferreira). A verdade é que o senhor falava muito da emoção que se deveria ter pelo facto de termos um emprego.
Este senhor não percebe ou não quer perceber que os laços de afectividade (de amor à camisola) se ganham pela permanência. Pela estabilidade no emprego. Pelo espírito de equipa que se vai construído. Pelo sentimento de pertença e de identidade. Como é possível que alguém tenha amor à camisola quando a camisola é mudada de 6 em 6 meses?
A precariedade no emprego faz com as empresas, a prazo, sejam igualmente prejudicadas. As empresas cada vez mais vão deixando de ser estruturas sociais que servem de mecanismos de coesão social. As empresas passam a ser elementos de desintegração social. Se as empresas não vinculam os trabalhadores, estes por uma questão de sobrevivência deixam de se vincular ás empresas e sempre que uma melhor oportunidade de emprego surge nada os detém e facilmente mudam de empresa. Ninguém está vinculado a ninguém. Cada um por si. Salve-se quem puder. Amor com amor se paga. É esta a nova lógica do mercado de emprego.


Sem comentários:
Enviar um comentário