Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Trabalhar até morrer? E se não houver trabalho?


Trabalhar até morrer? E se não houver trabalho?

Parece que está para breve a destruição de mais um contrato social. Um contrato que todos assumimos quando ingressámos no mercado de trabalho. O nosso compromisso era trabalhar até aos 65 anos. O compromisso do Estado era assegurar-nos uma pensão de reforma que fosse o reflexo dos nossos anos de trabalho e de contribuições para o sistema de Segurança Social.

Como é fácil de perceber, a ideologia dominante apenas se preocupa com os contratos estabelecidos entre o Estado e o poder financeiro. Os compromissos com os cidadãos podem facilmente ser revogados e atirados para o lixo.

Se fizermos uma análise demográfica e sociológica ao que se passa nas sociedades ocidentais nos últimos 40 anos e em particular ao que se passa em Portugal desde finais da década de 1980, percebemos que existe uma crise profunda no que concerne à demografia. Chegámos a um ponto de viragem demográfica; registaram-se nos últimos anos mais óbitos do que nascimentos. A nossa sociedade entrou em recessão demográfica. Estamos a “desaparecer”.

Esta poderia ser a razão invocada pelo governo para aumentar a idade da reforma. Poderia igualmente invocar o aumento da esperança de vida. Mas não, invoca apenas razões de contabilidade de merceeiro. Contabilista de mercearia que como todos sabem é a especialidade do nosso ministro das finanças e do seu adjunto: o primeiro-ministro.

Se o sistema de segurança social é estruturalmente insustentável a prazo isso poderá vir a dever-se à crise demográfica e a nada mais.

Como tal, sejam sérios e sejam competentes.

Importa contudo perceber o que nós e os nossos amigos Europeus fizemos nas últimas décadas no que concerne ao acesso às pensões de reforma. Como muitos sabem durante a década de 1990 o objectivo das políticas Europeias era permitir o acesso à pensão de reforma numa idade mais precoce. Muitos trabalhadores foram beneficiados com processos de pré-reforma ou de antecipação da idade de reforma. Trabalhadores dos sectores publico e privado. De repente mudam-se as políticas sem que se perceba muito bem as razões que subjazem a essa alteração

Não se pode abordar a questão da idade da reforma sem analisar o desemprego. Mais uma vez apelo aos senhores governantes que sejam sérios. Sei que o não são.

A realidade é que a economia mundial deixou de ter capacidade de gerar empregos em número suficiente desde finais da década de 1970. Desde então nunca mais foi possível atingir taxas de desemprego socialmente aceitáveis. A questão foi sendo camuflada com políticas de retardamento da idade de entrada no mercado de trabalho e com políticas de antecipação da idade da reforma.

Assim sendo, pergunto: com as taxas de desemprego actuais a penalizarem os jovens e os trabalhadores com mais de 45 anos como é possível conciliar políticas de crescimento do emprego com o aumento da idade de acesso à reforma?

Se os jovens estão numa situação critica em termos de emprego, também os trabalhadores mais velhos enfrentam essa realidade. Realidade que em muitos casos é bem mais dramática do que a dos jovens. Importa não esquecer que são os trabalhadores com mais de 45 anos que em muitos casos servem de almofada social ao desemprego dos mais jovens.

A verdade dos números é transparente. Apesar de se estar sempre a falar do desemprego dos mais jovens, a verdade é que os números são idênticos para os mais velhos. A taxa de desemprego em Portugal regista cerca de 40% de desemprego jovem e cerca de 40% de desemprego de trabalhadores com mais de 45 anos.

Ao ser aumentada a idade de acesso à reforma, para além de se condicionar o acesso ao emprego dos mais jovens, vamos incrementar o desemprego dos mais velhos. É evidente que as empresas não vão contratar trabalhadores mais velhos ou manter os seus postos de trabalho apenas porque o governo decretou o aumento da idade da reforma. Podemos assim perspectivar o aumento massivo do desemprego dos mais velhos. Como se sabe, facilmente as empresas encontrarão razões para provocarem a situação de desemprego destes trabalhadores.

Desta forma, duas situações podem ocorrer: os trabalhadores mais velhos ficam em situação de desemprego e beneficiam do subsídio de desemprego nos moldes actualmente existentes, podendo antecipar a idade da reforma, ou o governo faz cessar a possibilidade de antecipação da idade da reforma para quem está desempregado.

Na primeira situação teremos o estado a pagar a factura, como é hábito, sendo que o aumento da idade da reforma não beneficiará ninguém. Na segunda hipótese, a ocorrer, iremos enfrentar mais problemas de pobreza e de coesão social.

Para que se reflicta sobre o modelo social para que caminhamos, a passos largos, resta apenas referir que «(…) 90% das transacções internacionais não são relacionadas com investimento real, mas com investimento especulativo.» (Kovács, 2002, 21). Aqui reside a génese da crise que actualmente vivenciamos. A finança deixou de ser o resultado ou o reflexo da produção. Mas quem é que se importa com isto?

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