Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sociologia - Micro & Macro Teorias...


A Sociologia, apesar da multiplicidade de teorias existentes, acaba por se encontrar de alguma forma parametrizada entre uma abordagem positivista e uma abordagem compreensiva. Continuam a ser referências inquestionáveis as abordagens herdadas de Durkheim e de Weber. A este respeito Nogueira Dias[1] refere que «Na Sociologia podemos opor ao positivismo de Comte e Durkheim a compreensão empática de Max Weber.». Refere ainda este autor que «…A primeira perspectiva é identificada como paradigma positivista, o qual se preocupa com a extensão dos fenómenos…» «A segunda perspectiva é identificada como paradigma compreensivo…Como resultado destas preocupações, podemos nelas incluir as chamadas microssociologias…».

Durkheim tem uma frase extremamente esclarecedora sobre a sua visão da Sociologia e que serve para se entender a sua perspectiva Macro do social: «Para compreender a maneira como a sociedade se representa a si própria e ao mundo que a rodeia, é a natureza da sociedade, e não a dos particulares que devemos considerar.»[2]. Também Weber defende a sua perspectiva: «Sociologia (na acepção aqui aceite desta palavra empregue com tão diversos significados) designará: uma ciência que pretende compreender, interpretando-a, a acção social e, deste modo, explicá-la casualmente no decurso e nos seus efeitos.»[3].

Obviamente que a divisão entre micro e macro é um artificialismo metodológico e cientifico. A realidade não é Micro nem Macro é um todo indivisível. O que importa reter é que ambas as perspectivas são válidas em Sociologia desde que sejam cumpridas as regras inerentes à utilização dos métodos e das técnicas de investigação.

Existe igualmente a tendência de considerar a abordagem macro mais objectiva por se sustentar numa perspectiva “matemática” (método quantitativo) e a abordagem micro mais subjectiva por ter uma metodologia que assenta na compreensão das representações sociais dos indivíduos (método qualitativo). A este respeito Berger e Luckmann dizem que «Estas duas afirmações [perspectiva de Durkheim e de Weber] não são contraditórias. A sociedade possui, na verdade, uma factualidade objectiva. E a sociedade é, de facto, também constituída por actividades que exprimem um significado subjectivo. Durkheim, aliás, tinha conhecimento deste último enunciado, assim como Weber conhecia o primeiro.»[4].

Nenhuma abordagem se pode considerar mais correcta do que a outra. Tudo depende daquilo que o investigador pretenda estudar. Os grandes problemas sistémicos e de dimensão global não podem ter como ferramenta de descodificação da realidade social as abordagens qualitativas, tal como o estudo do que se passa num pequeno grupo social não deverá ser operacionalizado com ferramentas que não permitam apreender as representações sociais do grupo. Isto é, as ferramentas devem adequar-se à tipologia do “trabalho” que o investigador pretende realizar.

As microssocioligias partem do que é “mini” para as estruturas e sistemas sociais e as macrossociologias percorrem um caminho oposto. Existem autores mais defensores, por uma questão de abordagem do objecto de estudo, de um ou de outro modelo. Outros há que tanto usam as micro como as macrossociologias e por isso não gostam de ser rotulados. Abaixo indicam-se alguns autores e a respectiva abordagem:

Talcott Parsons, Robert Merton[5] (era essencialmente defensor de uma perspectiva mesossociológica), Norbert Elias, Pierre Bourdieu e Anthony Giddens – Macro

Peter Berger, Thomas Luckman, Aaron Cicourel - Micro


[1] Retirado de http://www.sociuslogia.com/artigos/fudam01.htm, Outubro de 2009.
[2] Émile Durkheim, As Regras do Método Sociológico, Editorial Presença, Lisboa, 10ª edição, 2007, p. 26.
[3] Max Weber, Conceitos Sociológicos Fundamentais, Edições 70, Lisboa, 2ª edição, 2005, p. 21.
[4] Peter Berger e Thomas Luckmann, A construção Social da Realidade, Dinalivro, Lisboa, 2ª edição, 2004.p. 29.
[5] Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Merton, Outubro de 2009.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

José Saramago...o Anti Cristo?

A polémica do momento tem novamente como protagonista José Saramago e a Religião. Tudo isto porque o Sr. Nobel da Literatura não gosta da Biblia.

Não se excitem tanto que não vale a pena. Afinal a bíblia não passa de um livro. Aliás é exactamente isso que quer dizer BIBLIA. Se as pessoas criticam os livros de Saramago por que carga de água o Saramago não pode criticar os livros dos outros.

Os católicos que sosseguem. O Saramago critica o Deus do velho testamento. Esse é que era má pessoa. O do novo testamento era filho do mau mas parece que era bonzinho. O problema é que parece que era o mesmo. Grande confusão. Pois é a santíssima trindade tem destas coisas. São três entidades diferentes. No fim vai-se a ver são a mesma coisa. Parece que o senhor Deus tem 3 trabalhos diferentes. Uma vez é pai, outra é filho e de vez em quando é espírito santo. Com o desemprego que aí há creio que de facto é mesmo má pessoa.

Não deixa de ser curioso que todos nos insurgimos contra a censura violenta que a religião islâmica faz a todos aqueles que criticam o Corão ou os seus Profetas. Quando alguém critica a Bíblia, seja o velho ou o novo testamento, parece que a reacção muda de sentido e assumimos nós o papel dos que censuram.

Felizmente já não condenamos ninguém à morte. Certamente com muita pena da Santa Madre igreja.

Será que não se percebe que a Bíblia é uma obra semelhante a algumas mitologias, como a Grega. O que se pretende é retratar de forma alegórica a vida do homem na terra.

O velho testamento foi escrito num período em que a única justificação para a nossa existência era encontrada no sobrenatural. O Homem não dispunha de conhecimento suficiente para encontrar outras respostas.

A resposta encontrada funciona como meio de controlo e de paz social. A Bíblia, em particular o velho testamento – não esquecer que o velho testamento é comum às três religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – mais não é do que um conjunto de normas sociais que os indivíduos deviam cumprir para que fosse possível a vida em sociedade.

Vejamos os Dez Mandamentos:


Como se pode observar, os Dez Mandamentos variam consoante a religião. Logo este facto não deixa de ser interessante. Ou seja, só terá existido um Moisés, logo os mandamentos deviam ser apenas Dez e não Dez e qualquer coisa. Vamos basear-nos nos mandamentos Judaicos. Supostamente são os que estão mais próximo do original:
Eu Sou o SENHOR, o teu Deus – Obviamente não devemos ter diversos deuses. Estamos na presença do princípio da ditadura. Ou seja, devemos apenas obediência a um líder.
Não terás outros Deus para além de mim e não farás para ti nenhum ídolo – A primeira parte já está respondida. Não fazer nenhum ídolo é uma questão de respeito pelo líder. Ele é impossível de retratar. Qualquer cópia que seja feita não é suficientemente fiel à sua grandiosidade.
Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus – Obviamente que quem invocar o nome do Líder tem que ter cuidado. Normalmente quando falamos dos nossos líderes é para dizer mal. No regime Salazarista por exemplo quem invocasse o nome de Salazar era preso, não importando se estava a dizer bem ou mal da criatura.
Lembra-te do dia de Sábado para santificá-lo – todos os líderes em particular os ditadores gostam de ser bajulados.
Honra teu pai e tua mãe – importância da família como estrutura social.
Não matarás – princípio universalmente aceite e norma básica para a vivência em sociedade.
Não adulterarás – mais um princípio básico para a convivência social. Não nos esqueçamos que a tribo de Moisés terá vivido no deserto vários anos. Segundo a bíblia 40 anos. Resta saber qual era a medida utilizada. Como sabem o calendário Juliano data de 46 A.C e foi instituído por Júlio César. O calendário que presentemente utilizamos – Gregoriano – é apenas de 1582. Como tal seria impossível conviver numa tribo em que todos estivessem a dormir com os homens ou as mulheres dos outros. Certamente que a chapada e o pontapé seriam insuportáveis.
Não furtarás – Idem aspas aspas.
Não darás falso testemunho contra o teu próximo – Idem aspas aspas.
Não cobiçarás (a mulher do teu próximo e casa do teu próximo) – reparem o machismo. Não existe nada que diga não cobiçarás o homem do próximo. Sociedade eminentemente machista. Ainda por cima comparam a mulher a uma mercadoria (casa).
Como se pode ver os mandamentos são meros códigos de conduta social. Se quiserem ver a bíblia como algo mais do que uma cosmogonia que tenta explicar o universo e um conjunto de normas sociais estejam à vontade que eu não vos critico….agora que são CROMOS lá isso são.
Agora um pouco mais a sério. A Biblia é um documento magnifico e merece ser olhado com olhos de ver e sem hipocrisias.
A Biblia é muito mais do que um documento religioso. É sobretudo um testemunho da passagem do Homem por este planeta. É uma tentativa grandiosa de contar a nossa História. É um exemplo da nossa capacidade criadora. É tudo isto e muito mais. Contudo, é apenas um documento pensado e escrito por humanos e para os humanos. Quem achar que é algo mais tem todo o direito de o fazer. Nunca terá o direito de impedir os outros de terem uma opinião contrária.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Métodos e Técnicas em Sociologia


Existem diversas classificações no que concerne à definição de método. O mesmo ocorre relativamente às técnicas de investigação. Escolhemos uma abordagem de entre outras possíveis.

«Um método é um procedimento regular, explícito e passível de ser repetido para conseguir-se alguma coisa, seja material ou conceitual.»[1]

«Importa acima de tudo que o investigador seja capaz de conceber e de pôr em prática um dispositivo para a elucidação do real, isto é, no seu sentido mais lato, um método…»[2]

Em sociologia os métodos estão de alguma forma identificados com dois grandes modelos ou paradigmas conceptuais: positivismo – aponta essencialmente para preocupações sistémicas e de grande abrangência e que por isso recorre à utilização de métodos quantitativos com recursos a técnicas de tratamento estatístico. Compreensão Empática – que se centra essencialmente no estudo da acção social dos indivíduos e nas suas representações sociais. Neste contexto recorre-se a métodos eminentemente qualitativos, sendo a escala de observação de média e pequena dimensão.

«Em sociologia, investigadores quantitativos usam um conjunto de análises estatísticas e em certas situações, generalizações, para determinar o padrão dos dados e o seu significado, enquanto que investigadores qualitativos usam técnicas de fenomenologia e a sua visão do mundo para extrair significado.»[3]

Em termos gerais pode-se identificar o paradigma positivista com o método de observação indirecta e o paradigma da compreensão empática com o método de observação directa.

Pode pois dizer-se que os métodos utilizados na realização de um estudo dependem do modelo teórico que o investigador selecciona. Em sociologia existem diversos métodos, designadamente:

Etnográfico[4] – este método é de carácter eminentemente qualitativo e serve para apreender a vivência social dos indivíduos inseridos num determinado grupo. Obriga o investigador a viver a realidade que está a estudar por um período longo. Igualmente qualitativo é o método biográfico ou de histórias de vida[5] e que visa recolher o conhecimento que um ou mais indivíduos têm sobre um tema ou uma situação em que foram protagonistas. Experimental[6] – igualmente qualitativo visa o estudo de pequenos grupos de pessoas, por exemplo no âmbito das organizações. Inquéritos[7] – destina-se a abranger um número de pessoas mais alargado e é em muitos casos um dos métodos mais utilizados em estudos quantitativos.

Como forma de operacionalização dos métodos a Sociologia dispõe de diversas técnicas, tais como:

Entrevistas, questionários, observação participante, observação directa, sóciodrama, psicodrama, pesquisa documental, estatística, análise de conteúdo, etc.

[1] Mário Bunge, Epistemologia, T.A. Queiroz Editor, São Paulo, 2ª Edição, 1987, p. 19.
[2] Raymond Quivy, Manual de Investigação em Ciências Sociais, Gradiva, Lisboa, 5ª edição, 2008, p. 15.
[3] Retirado de http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/346.pdf
[4] Anthony Giddens, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, 5ª Edição, 2007, Lisboa, p.648.
[5] Ibidem, p. 652.
[6] Idem.
[7] Ibidem, p. 649-650.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A (Des)Informação e o Capitalismo

Os cibernéticos, na sua boa fé, criaram uma teoria nos anos de 1940, como resposta à anomia social decorrente da segunda guerra mundial, que pretendia transmitir a ideia de que tudo é comunicação.

Este princípio visava criar uma sociedade mais tolerante e mais pacífica. A comunicação entre as pessoas seria a solução para que se encontrassem vias de entendimento, para os conflitos, através do diálogo.

Os cibernéticos defendiam a transparência da sociedade através da constituição de mecanismos poderosos de comunicação. Para eles – talvez o seu principal erro – não se deveria ter em conta o interior dos seres humanos, os seus sentimentos e emoções mas apenas o seu exterior.

Defendiam, um pouco à imagem de Durkheim, que não se pode avaliar algo que não se vê. Os indivíduos devem ser avaliados pela sua exterioridade e não pelo que eventualmente estes sentem ou pensam.

Esta regra veio criar aquilo que os críticos da cibernética designam por Homem Vazio. Isto é, homem sem valores, sem sentimentos, sem conteúdo.

A cibernética veio criar possibilidades para o desenvolvimento desenfreado dos meios de comunicação social e para as técnicas a eles associadas tais como: a propaganda, a publicidade e o marketing.

Todas estas técnicas trabalham em favor do sistema capitalista que vive das ilusões, da superficialidade e do efémero.

Os individuos deixaram de ser avaliados eticamente pelo que valem como seres humanos e passam a valer pelo que mostram EXTERIORMENTE: se têm sucesso profissional – nem que seja a vender cascas de alho – se têm um carro XPTO e uma casa num local exótico.

O capitalismo cria necessidade aos indivíduos através do lançamento de novos produtos no mercado. Os indivíduos por uma questão de status social ou simplesmente porque SIM consomem todo o tipo de “novidades”. Quando dão por eles estão viciados no consumo e dizem com todo o desplante que não podiam viver sem isto ou aquilo.

Muitas vezes, os indivíduos, para que não se sentirem excluídos socialmente e assim manterem os mesmos padrões de consumo recorrem desenfreadamente a créditos bancários para satisfazerem a sua “gula” consumista. Mais uma vez caem na ratoeira do sistema capitalista.

O sistema capitalista cria uma espécie de teia: por um lado vicia as pessoas através dos bens de consumo que funcionam como símbolos de poder ou de identidade e depois através do sistema financeiro encontra os mecanismos para que os indivíduos mantenham o seu vício.

Por outro lado, o sistema capitalista joga com uma outra dependência que os indivíduos modernos têm: o seu emprego. Ou seja, o sistema capitalista sabe que a esmagadora maioria das pessoas depende do seu trabalho para poder consumir e cumprir os seus compromissos para com o sistema financeiro, como tal, pode dar-se ao luxo de impor leis de trabalho cada vez menos reguladas e que contribuem para a desqualificação profissional e social dos indivíduos. O sistema capitalista sabe que os indivíduos se sujeitam a regras cada vez menos protectoras dos seus direitos pois estão dependentes do seu emprego. A este principio ajusta-se a ideia de que melhor um mau emprego do que nenhum.

Tudo isto contribui para que esta “táctica” capitalista funcione como um meio indirecto de controlo e paz social. Os indivíduos receiam perder o seu ganha-pão e como tal o seu poder de reivindicação fica limitado.

Desta forma os indivíduos andam, como dizia Marx, completamente alienados do que se passa à sua volta e têm comportamentos standardizados e robotizados. Apenas pensam de acordo com a informação estereotipada que todos os dias lhes entra pela cabeça adentro sem capacidade critica de pôr em causa o que ouvem.

Daí resulta sermos indiferentes quando se ouve ou vê algo de belo e de diferente.

A obra de Max Weber: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo é interessante, entre outros aspectos, para se perceber a origem do sistema capitalista e a sua capacidade de sedução.

Weber consegue dizer esta coisa extraordinária num período em que o petróleo começava apenas a ser um dos símbolos do poder do capital:

«O ascetismo, ao ser transplantado das celas conventuais para a vida profissional, começou a dominar a ética secular e deu o seu contributo para a formação do poderoso cosmos da ordem económica moderna; esta, vinculada às condições económicas e técnicas da produção, com uma força irresistível, determina hoje o estilo de vida, não apenas da população activa mas de todos os indivíduos que nascem desta engrenagem. E, provavelmente, isto poderá continuar a acontecer até que o último quintal de combustível fóssil seja queimado.».

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Quem sou eu?


Não é fácil dizer quem somos. Normalmente preferimos reservar essa tarefa para os outros.

Tendemos a julgar que é preferível serem os outros a tecerem julgamentos a nosso respeito.

Outra dificuldade com que convivemos é facilmente confundirmos o nosso nome e o nome da nossa família com aquilo que realmente somos.

Outra muleta que recorrentemente usamos, como marca da nossa identidade, é a profissão/ actividade que exercemos.

A verdade é que a nossa profissão tende a plasmar-se em nós. Quando nos perguntam quem somos, normalmente dizemos que somos a profissão A ou B. Raramente interpretamos a pergunta como algo extra profissional. Como algo mais dirigido a nós enquanto seres humanos.

Na realidade o mundo do trabalho ganhou um peso na sociedade moderna que não resta espaço para sermos algo mais do que aquilo que fazemos. Aquilo que fazemos e o que somos passam a ser a mesma coisa.

Em caso de desemprego entramos em depressão. Ficamos com medo de termos perdido a nossa identidade. O mesmo acontece quando surge o momento da reforma.

Outros artifícios que utilizamos como nosso “bilhete de identidade” são os sinais que transmitimos aos outros. Os símbolos de bem-estar material servem para que os outros possam saber quem somos. O sucesso é pois outra marca identitária da sociedade moderna. Se tivermos sucesso material somos bem vistos socialmente. Se não tivermos não passamos de uns desgraçados miseráveis.

Toda esta realidade que se baseia essencialmente em aspectos materiais para caracterizar os seres humanos, torna a pergunta Quem sou eu? Ainda mais difícil de responder.

Erving Goffman , reputado Sociólogo Canadiano, retrata, na sua obra: A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, os indivíduos como actores que ao longo do dia, dos meses e dos anos, vestem diferente roupagem consoante o contexto social em que se inserem. Na verdade Goffman quer transmitir-nos a ideia de que cada um de nós não é apenas uma “coisa”. Somos actores sociais que assumimos vários papéis em palcos diferentes. Quando estamos em contexto social comportamo-nos de acordo com as normas sociais dominantes e quando estamos sozinhos assumimos comportamentos que se assumidos em público seriam certamente considerados como desviantes.

Depois destas considerações querem uma resposta que tenha como referência os valores da sociedade de consumo ou uma resposta que se centre mais em aspectos que ponham em destaque valores universais e humanistas? Qual a medida que devemos utilizar?

Provavelmente teremos que responder tendo em conta o contexto em que a pergunta é efectuada.

Estas linhas que escrevi são a prova que não gostamos ou não sabemos dizer quem somos.

Quando me dirigem esta questão costumo simplesmente dizer que sou um Homo Sapiens, caucasiano, com as paranóias e as virtudes da generalidade dos seres humanos.

Modelo, Teoria e Paradigma


Pelas leituras realizadas nem sempre é muito clara a diferença entre modelo, teoria e paradigma. Fernando Nogueira Dias refere mesmo que «De facto, muitos autores no seu discurso não fazem esta distinção.»[1]

Contudo, apesar desta dificuldade conceptual, poder-se-á dizer que são conceitos que visam exprimir, em termos científicos, a ideia de referência ou de padrão. Ou seja, são como que “indicadores de qualidade” utilizados na construção da ciência.

Tal como ocorre com o nosso processo de crescimento enquanto seres humanos também os modelos, teorias e paradigmas evoluem em função da aquisição de novos conhecimentos ou se preferirmos de novas evidências científicas.

Ao contrário do que ocorre por exemplo com o conhecimento religioso, o conhecimento científico é mutável e sistematicamente construído e por isso é um processo dinâmico e nunca acabado.

Tentando encontrar uma definição para MODELO, TEORIA e PARADIGMA, podemos referir:

Modelo – «…um sistema de ideias de carácter mais regional, por oposição à teoria.»

Retirado de Retirado de http://www.sociuslogia.com/artigos/fudam01.htm, Outubro 2009.

Teoria – «Conjunto organizado de conceitos e relações entre conceitos substantivos, isto é, referidos directa ou indirectamente ao real.»

Augusto Santos Silva e José Madureira Pinto, Metodologia das Ciências Sociais, Edições Afrontamento, 14ª Edição, Porto, 2007, p. 10.

Paradigma – «Conjunto de princípios e de teorias que são aceites sem discussão por toda a comunidade científica.»

Boaventura de Sousa Santos, Um Discurso Sobre as Ciências, Edições Afrontamento, 15ª Edição, Porto, 2007, p. 21.

As definições acima apresentadas de alguma forma estabelecem uma certa hierarquização destes três conceitos. Os modelos surgem como algo mais redutor, quase como uma “teoria específica”, enquanto que a teoria é mais abrangente e por isso de carácter mais universalista. O paradigma é apresentado como a “teoria suprema” que é aceite pela generalidade da comunidade científica e que se manterá como um “farol” acesso até que novos desenvolvimentos científicos a tornem obsoleta e se dê uma ruptura epistemológica. Poderá dizer-se que toda a teoria “aspira” a tornar-se paradigmática. O paradigma são os “óculos certificados” que servem para que se veja de forma clara a realidade.

Contudo, a verdade é que em rigor paradigma (do grego Parádeigma) literalmente quer dizer modelo[2]. Este facto pode conduzir-nos para o início da discussão. Ou seja, será que de facto existe uma diferença bem delimitada entre os conceitos de modelo, teoria e paradigma?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Franz Kafka - O Processo: Retrato de Uma Sociedade Igual à Nossa???

A obra de Franz Kafka “o Processo” aborda um tema que se mantém actual e polémico apesar de terem decorrido oitenta e quatro anos após a data da sua publicação (1925).

Trata-se de um livro que serve para nos abanar e para demonstrar que os indivíduos dificilmente conseguem lutar contra as regras, por mais perversas que elas sejam, ditadas por um sistema social supostamente constituído por indivíduos com direitos e deveres iguais.

A história do livro resume-se rapidamente. Josef K., personagem central da história, acorda certa manhã e é surpreendido na sua própria casa por dois agentes da justiça que o informam que este é alvo de um processo judicial e como tal se encontra detido.

Apesar da acusação que lhe é formulada K. não é informado de mais nada sobre o seu processo. Aliás os próprios representantes da justiça desconhecem os motivos da acusação.

Toda a trama do livro gira à volta do processo e das tentativas incontáveis e dos estratagemas mais bizarros que K. usa para tentar apurar a sua culpa e declarar a sua inocência.

K. apesar de acusado, formalmente, nunca esteve detido.

Após mil e uma peripécias K. acaba condenado e executado sem nunca ter percebido os motivos da sua acusação.

Esta história que é marcada por situações bizarras, surreais e assustadoras contém uma riqueza sociológica assinalável.

O que Kafka nos quer transmitir, apesar da obra ter leituras que extravasam o âmbito da Sociologia, tal como uma leitura mais Filosófica centrada nas questões da existência humana, é que a sociedade e os seus sistemas sociais condicionam a acção social dos indivíduos e tratam-nos como verdadeiras marionetas facilmente manipuladas.

Kafka utiliza o sistema judicial como uma mera metáfora. A questão central é entendermos que o sistema social representado, designadamente, pelo estado não tem contemplações para com os indivíduos.

O autor dá-nos igualmente pistas sobre a estratificação social. Retrata uma sociedade assimétrica em que coexistem os privilegiados e os miseráveis. A própria justiça é retratada como um sistema muito desigual em que convivem indivíduos com um elevado status social e capacidade económica e os funcionários subalternos que não passam de meros peões do sistema e que vivem em condições degradadas e muito próximas da miséria.

A estratificação social está na base da corrupção generalizada de que enferma o sistema social. A corrupção não é vista como algo anómalo mas sim como um traço identitário da sociedade. A corrupção institucionalizou-se através da rotina e enraizou-se fazendo parte da cultura desta sociedade.

As acentuadas desigualdades sociais estão igualmente presentes no território da cidade em que se passa a história. A cidade identifica-se com os indivíduos que nela residem. Existem partes da cidade ricas e faustosas e outras miseráveis e sombrias.

Está implícita na obra a vergonha social. Vergonha que deriva do facto do indivíduo quando é acusado levar atrás de si todos aqueles que com ele interagem socialmente e em particular a sua família. A acusação deixa de ser algo individual e passa a afectar um conjunto alargado de indivíduos.

Kafka relata igualmente a alienação a que os indivíduos são sujeitos face à justiça.

A burocracia no sistema judicial é retratada como algo perverso e como fonte de medo social. Os indivíduos vêem-se impotentes para se defenderem de um sistema que supostamente deveria existir para sua protecção.

Em conclusão podemos referir que Kafka retrata uma sociedade obscura, talvez não mais do que aquela em que vivemos, em que o controlo social é algo completamente arrasador e implacável. Onde quer que os indivíduos estejam estão a ser controlados. As pessoas mais insuspeitas trabalham para instituições mais ou menos indefinidas e que o comum dos mortais nunca ouviu falar.

Tal como Josef K. todos nós somos condenados a viver aprisionados numa sociedade mais ou menos escabrosa.

Existe, contudo, uma mensagem de esperança. Apesar de a maioria dos indivíduos se comportarem como autênticos cordeiros a caminho do matadouro, a verdade é que existe sempre alguém que tenta remar contra a maré e perguntar porquê? Foi o que K. fez. É verdade que no fim foi morto. Contudo, é neste questionamento da realidade social que se encontra o embrião da mudança e se identifica a verdadeira acção social.

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