Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Será que estamos realmente a mudar a consciência?

Será que estamos realmente a mudar a consciência? O paradigma económico baseado na economia de mercado tem como alimento, da sua voraz necessidade de vender novos produtos, a depredação dos recursos naturais. Para sairmos da crise em que actualmente nos encontramos todos os analistas são unânimes em considerar que é necessário estimular os mercados e aumentar o consumo. Para aumentar o consumo é necessário gastar mais energia – essencialmente de origem fóssil – e consumir mais matérias-primas. Em suma, é necessário aumentar a depredação dos recursos naturais e consequentemente contribuir para o desequilíbrio ecológico.

Ao mesmo tempo, os diferentes media procuram divulgar um conjunto de comportamentos “cívicos” que procuram dar resposta, ou pelo menos minimizar, determinados problemas ambientais. Ensinam as populações a utilizar o “ecoponto”, a reciclar os resíduos, a gastar menores quantidades de água, a viajar de transportes públicos... E, no entanto, quase de imediato, alertam os indivíduos para os gravíssimos perigos da crise económica, cuja resolução se torna absolutamente urgente.

Temos, portanto, duas espécies de problemas. Verifica-se que as suas resoluções são incompatíveis. O que fazer nesta situação? Devem as sociedades esforçar-se mais do ponto de vista ecológico ou económico?

O que é mais importante: o planeta ou o capital?

O principal país responsável pelo desequilíbrio ambiental em que a terra se encontra são os Estados Unidos da América. Esta evidência não é negada por ninguém, nem mesmo pelos Americanos.

Cremos que não se deve dissociar a questão ecológica da globalização. A globalização, em particular a económica, revela-se egoísta. Os interesses dos países “globalizadores” não devem ser prejudicados independentemente do eventual dano que possam causar. Os países “ricos” nada fazem para mudar o seu estilo de vida em prol de um mundo mais equilibrado e justo. O seguinte trecho, retirado de um discurso do ex-presidente dos EUA, George W. Bush, serve para elucidar o que atrás foi referido: «Nada faremos que prejudique a nossa economia porque primeiro está o mais importante, que são as pessoas que vivem na América».[1] Curiosamente o seu pai, George Bush, disse anos antes (em 1992) algo muito similar: «O estilo de vida Americano não é passível de negociação».[2]

Esta arrogância e este etnocentrismo são o espelho da globalização económica.
«…a sociedade é arrastada para uma profunda anarquia moral e politica que parece ameaçá-la de uma próxima e inevitável dissolução….Desde o momento em que esta crise começou a manifestar-se até ao momento presente, a tendência para a desorganização do antigo sistema foi a dominante…»[3]

A citação acima transcrita poderia facilmente ter sido retirada de um artigo de opinião, de um jornal de hoje, sobre a crise que presentemente estamos a viver. Contudo, foi produzida por Augusto Comte em 1822. De facto, a história parece querer de tempos a tempos repetir-se. Marx e Engels também eles se manifestaram sobre as crises cíclicas do sistema capitalista: «Nas crises irrompe uma epidemia social que teria parecido um contra-senso a todas as épocas anteriores – a epidemia da sobreprodução.

E como triunfa a burguesia nas crises? Por um lado, pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de antigos mercados. De que modo, então? Preparando crises mais omnilaterais e mais poderosas, e diminuindo os meios de prevenir as crises».[4]

Estas crises apesar de serem eminentemente de carácter económico, a verdade é que contaminam todas as imensões da vida social. Sendo, na óptica Marxista, a infra-estrutura económica determinante da superstrutura moral, ideológica e cultural, temos que todas as dimensões da intervenção humana são afectadas. Marx e Engels referem «Que prova a história das ideias senão que a produção espiritual se reconfigura com a da material? As ideias dominantes de um tempo foram sempre apenas as ideias da classe dominante».[5]
Apesar de serem visíveis alguns sinais de mudança, tais como a socialização das crianças para uma maior consciência ecológica e o investimento em fontes energéticas limpas, a verdade é que todas estas iniciativas, que devem ser estimuladas, representam um esforço muito pequeno comparado com a tarefa gigantesca que é necessário empreender para mudar o rumo do nosso planeta. A mudança de comportamentos envolve a necessidade de uma nova consciência global.

A mesma tarefa que terá de partir de todos e de cada um: a de uma nova consciencialização e Educação para o Futuro.

Artigo escrito em parceria com Maria Correia e Odete Reis.

[1] George W. Bush in Peter Singer, Um Só Mundo – A ética da globalização, Gradiva, Lisboa, 2004, p. 26.

[2] Idem.

[3] Augusto Comte, Reorganizar a Sociedade, Guimarães Editores, Lisboa, 4ª edição, 2002, p. 29.

[4] Karl Marx e Friedrich. Engels, Manifesto do Partido Comunista, Edições Avante, Lisboa, 2004, 4ª edição, p. 42.

[5] Ibidem, p. 55.

Afinal porque somos assim?

Embora simpatize com o pensamento de Rousseau a verdade é que não faz muito sentido dizer que o homem em estado selvagem (natural) é bom e é a sociedade que o corrompe. O Homem é por natureza um ser social. O Homem não poder ser desintegrado do contexto social. Sem sociedade não existe ser humano. Já Aristóteles dizia que "O homem que não precisa da sociedade ou é um Deus ou um animal". Marx diz algo semelhante e na continuidade deste raciocínio ao referir que «...é a consciência do homem determinada pelo seu ser social».[1]

Marx vai mais longe ao considerar que o que distingue os homens dos animais é o facto das capacidades e gostos humanos serem um produto social e que o individuo isolado não passa de uma ficção. O indivíduo funciona como uma esponja que absorve, através do processo de socialização, as formas de pensar, sentir e agir que lhe são passadas pelas gerações mais velhas.

O indivíduo não é contudo um ser neutro e contribui através da interacção social para a transformação da sociedade.[2]

Marx vê o indivíduo como um ser social que resulta de todo um passado histórico. Mas não deixa de o encarar, igualmente, como um transformador da realidade social.

Para Marx o Homem é um "produto" da história e não um mero resultado do contexto social presente. O que somos hoje resulta do que formos ontem. Este carácter de homo historicus que Marx atribui aos indivíduos é uma referência importante no seu método de análise da evolução social e de explicação das razões que lhe estão inerentes.

Marx utiliza o materialismo histórico para explicar a evolução social. Marx considera que a sociedade é «Um produto histórico, o resultado de uma sucessão de gerações, cada uma das quais como que subindo para os ombros da que a precedeu…»[3]

Ao pensamento de Rousseau poderíamos opor igualmente o de John Locke ou de Thomas Hobbes quando estes defendem que o Homem é mau por natureza e são as regras sociais que o “domesticam”.

Poderia igualmente recorrer-se ao pensamento de Norbert Elias. Elias refere que de facto individuo e sociedade não é exactamente a mesma coisa. Não se pode dizer simplesmente que uma sociedade é um conjunto de indivíduos. Tal como não se pode dizer que uma casa é um conjunto de pedras ou uma floresta é um conjunto de árvores.[4] A sociedade, utilizando uma linguagem sistémica, é qualitativamente superior ao somatório da acção social de cada indivíduo, contudo, não se pode dizer que seja algo exterior aos indivíduos. É antes algo que é construído, como diz Elias, muitas vezes de forma não intencional e sem que os indivíduos estejam em condições de predizer as consequências futuras da sua acção.

Norbert Elias reforça a ideia de que não faz sentido referir que as estruturas ou os sistemas coagem o indivíduo. Isto porque os sistemas e as estruturas são corporizados por indivíduos e não existem por si só. Quando muito pode dizer-se que indivíduos coagem outros indivíduos.[5] Esta questão remete para o que Elias considera poder. Para ele o poder desenvolve-se, tal como as classes sociais, do inter-relacionamento que se desenvolve entre os indivíduos e das relações de dependência que dai derivam. Ou seja, somos mais ou menos poderosos consoante os indivíduos dependem mais ou menos de nós.

É igualmente interessante analisar o comportamento do Homem à luz do conceito de Homo Demens que Morin apresenta na sua obra o paradigma Perdido e a Natureza Humana.[6] De facto, o Homem apresenta características completamente distintas, por um lado é capaz dos actos da mais profunda entrega ao próximo e por outro é capaz das maiores barbaridades. O Homo Demens (demente) é uma espécie de alter ego do Homo Sapiens.

O Homem padece de uma espécie de esquizofrenia genética que é passada intergeracionalmente.


[1] Marx in Peter Berger e Thomas Luckmann, A Construção Social da Realidade, Dinalivro, Lisboa, 2ª edição, 2004, p. 17.

[2] Karl Marx in Anthony Giddens, Capitalismo e Moderna Teoria Social, Editorial Presença, Lisboa, 6ª edição, 2005, p. 42

[3] Ibidem, p. 53.

[4] Norbert Elias, A Sociedade dos Indivíduos, Dom Quixote, Lisboa, 2ª edição, 2004.

[5] Idem.

[6] O Paradigma Perdido e a Natureza Humana, Publicações Europa-América, Mem Martins, 6ª edição, 2000.

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