Não é fácil dizer quem somos. Normalmente preferimos reservar essa tarefa para os outros.
Tendemos a julgar que é preferível serem os outros a tecerem julgamentos a nosso respeito.
Outra dificuldade com que convivemos é facilmente confundirmos o nosso nome e o nome da nossa família com aquilo que realmente somos.
Outra muleta que recorrentemente usamos, como marca da nossa identidade, é a profissão/ actividade que exercemos.
A verdade é que a nossa profissão tende a plasmar-se em nós. Quando nos perguntam quem somos, normalmente dizemos que somos a profissão A ou B. Raramente interpretamos a pergunta como algo extra profissional. Como algo mais dirigido a nós enquanto seres humanos.
Na realidade o mundo do trabalho ganhou um peso na sociedade moderna que não resta espaço para sermos algo mais do que aquilo que fazemos. Aquilo que fazemos e o que somos passam a ser a mesma coisa.
Em caso de desemprego entramos em depressão. Ficamos com medo de termos perdido a nossa identidade. O mesmo acontece quando surge o momento da reforma.
Outros artifícios que utilizamos como nosso “bilhete de identidade” são os sinais que transmitimos aos outros. Os símbolos de bem-estar material servem para que os outros possam saber quem somos. O sucesso é pois outra marca identitária da sociedade moderna. Se tivermos sucesso material somos bem vistos socialmente. Se não tivermos não passamos de uns desgraçados miseráveis.
Toda esta realidade que se baseia essencialmente em aspectos materiais para caracterizar os seres humanos, torna a pergunta Quem sou eu? Ainda mais difícil de responder.
Erving Goffman , reputado Sociólogo Canadiano, retrata, na sua obra: A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, os indivíduos como actores que ao longo do dia, dos meses e dos anos, vestem diferente roupagem consoante o contexto social em que se inserem. Na verdade Goffman quer transmitir-nos a ideia de que cada um de nós não é apenas uma “coisa”. Somos actores sociais que assumimos vários papéis em palcos diferentes. Quando estamos em contexto social comportamo-nos de acordo com as normas sociais dominantes e quando estamos sozinhos assumimos comportamentos que se assumidos em público seriam certamente considerados como desviantes.
Depois destas considerações querem uma resposta que tenha como referência os valores da sociedade de consumo ou uma resposta que se centre mais em aspectos que ponham em destaque valores universais e humanistas? Qual a medida que devemos utilizar?
Provavelmente teremos que responder tendo em conta o contexto em que a pergunta é efectuada.
Estas linhas que escrevi são a prova que não gostamos ou não sabemos dizer quem somos.
Quando me dirigem esta questão costumo simplesmente dizer que sou um Homo Sapiens, caucasiano, com as paranóias e as virtudes da generalidade dos seres humanos.


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