Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Há mercados e mercados...

As medidas liberais ou neo-liberais (um raio que os parta) esquecem-se que o mercado de trabalho não é um mercado na verdadeira acepção da palavra. No mercado dos “tomates” podemos escolher os mais rijos e deitar fora os que estão mais maduros. No mercado de trabalho se deitamos os mais maduros fora e não encontramos mecanismos de protecção social que assegurem a protecção dos indivíduos e em simultâneo a paz social, estamos a acumular tensões sociais que mais tarde ou mais cedo vêm ao de cima. É mais ou menos a lógica do vulcão. Foi por isso que os franceses e ultimamente os ingleses ficaram muito admirados com os tumultos que ocorreram nos seus países.

Curiosamente, um dos pais fundadores do liberalismo ou da teoria económica clássica (David Ricardo – creio que o homem era de ascendência judaica portuguesa) dizia que os baixos salários eram uma forma de controlar o crescimento da população (morrendo crianças em idade muito prematura, morrendo homens e mulheres em idade de procriação, etc). Dessa forma deixava de ser necessário estabelecer medidas de protecção social. Ou seja, os salários estabeleciam-se no mercado de trabalho com base nas leis da oferta e da procura e desta forma funcionava como um mecanismo de selecção dos melhores (uma espécie de principio Darwinista). Parece que os neo-liberais, embora não o digam de forma tão clara e sejam mais cínicos, defendem basicamente os mesmos princípios. A eugenia social dos séculos XVIII e XIX está novamente a emergir.

É pena que estes senhores não tenham percebido (claro que perceberam) que a crise actual foi determinada por mecanismos de desregulação dos mercados e que os países com politicas liberais não deixaram de ser afectados pela crise. Os neoliberaliberais surjem agora travestidos de salvadores da humanidade cavalgando a crise como se lhe fossem completamete alheios. A crise é sistémica e afecta todos. 
O problema é que os estados nação cada vez têm menos poder e os políticos são meras figuras decorativas, uma espécie de reis em estados de regime parlamentar. Quem manda são as grandes corporações e sobretudo o capital financeiro. O mundo vai sendo governado por instituições controladas pelo grande capital. O Manuel Castells (Sociólogo Espanhol) previu, nos anos de 1980, que:

«A economia global será regida por um conjunto de instituições multilaterais, ligadas entre si por um sistema de redes. No centro desta rede estão os países do clube do G7, talvez com mais alguns membros e os seus braços executivos, o Fundo Monetário Internacional e o banco Mundial, encarregados da regulamentação e intervindo em nome das regras básicas do capitalismo global. Tecnocratas e burocratas destas instituições e de instituições económicas internacionais semelhantes acrescentarão a sua dose de ideologia neoliberal e de especialização profissional ao seu amplo mandato.» (O fim do milénio: a era da informação, 2007: 482).

Como se vê quem andava atento, mesmo que há algumas décadas atrás, conseguia perceber o que se iria passar no futuro.

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