Estamos em plena campanha eleitoral para as eleições legislativas que se vão realizar no próximo dia 27 de Setembro. Para sermos rigorosos teríamos que dizer que estamos em pré-campanha.
Definir conceptualmente estes dois momentos pouco ou nenhum interesse terá. Na prática e para o cidadão comum trata-se exactamente da mesma coisa. É pois nesta altura que os líderes políticos nos fazem chegar, a cada um de nós, as suas propostas para a próxima legislatura.
Considerando o espectro político nacional e as tradicionais e históricas diferenças entre direita e esquerda, cada líder esforça-se por mostrar as suas diferenças e o seu posicionamento face às principais preocupações que assolam a nossa sociedade.
Neste contexto, será de esperar que, face às convicções ideológicas que subjazem à família política em que os diferentes partidos políticos nacionais se integram, cada líder político nos apresente propostas que casem com a linha politica de cada um dos partidos.
Acontece que nos debates que têm sido transmitidos nos diferentes canais televisivos, temos assistido a situações que qualifico de estranhas e incongruentes. Assiste-se com espanto ao espanto que alguns políticos querem fazer transparecer sobre propostas, com marca ideológica, apresentadas pelos seus adversários. Esta situação é particularmente evidente nos partidos mais situacionistas e que tiveram ou têm responsabilidades governativas.
Que espanto se pode ter ao ouvir da voz de um líder político assumidamente de esquerda, não de esquerda travestida, referir que tem como objectivo a colectivização progressiva dos meios de produção? Será que esta proposta é incoerente com a linha politica que este defende?
A mesma estupefacção tenho ao ouvir os comentadores dos diversos canais de televisão que supostamente têm como missão descodificar o que os políticos tentaram transmitir durante os debates. Temos pois que escutar com atenção os debates e em seguida ouvir os sapientes comentadores para termos a certeza que conseguimos descodificar correctamente a mensagem que os políticos nos transmitiram.
Acontece que os comentadores que supostamente deveriam ter um posicionamento neutro em termos ideológicos conseguem por vezes ser mais manipuladores do que os próprios políticos.
Também os comentadores se espantam ou parecem espantar-se com as propostas apresentadas por alguns líderes políticos em particular os da esquerda assumida. Será que estes senhores não percebem que a politica ainda tem algo de ideológico e que a coerência na defesa dessa ideologia não deve ser vista como algo estranho? Estranho seria um partido de esquerda, como o Partido Comunista ou o Bloco de Esquerda, defenderem os ideais neo-liberais e a sacro santa lei de mercado. Como seria estranho o PP ou o PSD e mesmo o PS defenderem uma colectivização dos meios de produção e a luta de classes.
Como se não bastassem os políticos também os senhores comentadores parece defenderem que todos devemos raciocinar da mesma forma. Ou seja, o modelo capitalista e as leis de mercado são algo intocável e funcionam como uma espécie de religião económico-social que não pode sofrer contestação. Aqueles que a colocarem em causa são hereges e não podem merecer a nossa confiança. O problema é que esta nova religião e os seus autos-de-fé, à imagem das outras, em pouco ou nada tem contribuído para a salvação da humanidade.
A politica não pode ser uma espécie de teoria de gestão em que os políticos mais não são do que gestores em vez de serem líderes.
Os líderes devem fazer prevalecer os ideais, devem saber ver a longo prazo, devem saber motivar. Os gestores são executores a quem se pede rigor. Um líder político que tem aspirações de poder não pode ser um mero gestor por muito competente que seja.
Um líder político não pode dizer como a Dra Manuela Ferreira Leite que as pessoas não pensam na luta de classes mas sim em terem trabalho. Esta afirmação parecendo muito inocente e preocupada com a vida quotidiana dos indivíduos, faz transparecer uma preocupação maternalista e míope socialmente em que o importante é termos trabalho para pagar as nossas coisinhas de todos os dias.
A qualidade desse trabalho e as condições em que o mesmo é exercido são questões pouco relevantes. Temos assim a imagem de uma politica que não vê a longo prazo. Temos uma política que se mostra, pretensamente, preocupada com o hoje sem perceber como será o amanhã. Temos uma política que não percebe que a luta de classes não sendo algo evidente está presente diariamente quando somos confrontados com as abissais diferenças sociais existentes.
A luta de classes não se manifesta apenas nas revoluções libertárias que visam substituir a classe dominante pela classe dominada. A luta de classes faz-se diariamente. A luta de classes é algo que paira na nossa sociedade de forma difusa e que pode irromper violentamente a qualquer momento.
Quem conhece a história percebe que a última grande alteração de paradigma social que ocorreu por consequência da revolução industrial tem na sua génese a luta de classes.
A classe Burguesa ascendeu socialmente através de processos fracturantes como foi o caso da Revolução Francesa. Contudo, essa ascensão também se fez muitas vezes sem necessidade de levar a cabo uma revolução de carácter violento. A Burguesia destituiu do poder a Nobreza e conseguiu esse objectivo, essencialmente, através da sua luta diária pela mudança do estado de coisas. A mudança foi lenta mas foi alcançada. Talvez não tenha sido visível à vista desarmada mas ela estava presente. Provavelmente se a Dra. Manuela ferreira Leite tivesse vivido nesse período histórico não teria percebido nem se teria apercebido, devido à sua miopia politica e social, as mudanças que se estavam a verificar e teria afirmado o mesmo que afirmou há poucos dias.
Creio que a Dra. Manuela Ferreira Leite nos deve respostas às seguintes questões: Será que as classes sociais desapareceram? Será que a diferença entre ricos e pobres não é uma realidade? Será que a reprodução social da miséria que está muitas vezes na base de erupções violentas em bairros sociais do nosso e de outros países é uma ficção? É mentira que cada vez mais as classes favorecidas se conseguem impor em termos financeiros, culturais e sociais? Será que o modelo intocável de capitalismo de mercado não contribui para o acentuar das desigualdades sociais que se vivem um pouco por toda a Europa e por todo o mundo? Será que a crise que estamos a viver foi provocada pelo modelo socialista que para alguns está enterrado e sem qualquer hipótese de ressurgimento?
O sistema capitalista goza de uma capacidade de resistência e de regeneração que são assinaláveis. A razão do adormecimento das classes sociais mais desfavorecidas e o que as impede de actuarem de forma mais evidente com vista à alteração do estado de coisas, deve-se em muito ao entorpecimento mental que o capitalismo consegue incutir no espírito dos individuos.
O capitalismo vive à custa da economia de consumo. O consumo funciona como o novo «ópio do povo». O capitalismo aprisiona o espírito dos individuos através dos bens que estes adquirem.
Os individuos ao adquirirem bens materiais ficam em estado de dependência. Dependência essa que os obriga, devido aos compromissos que assumiram com as instituições capitalistas, em particular a banca, a comportarem-se de acrodo com as regras que o sistema lhes impõe e a aceitarem, como forma de sobrevivência, condições laborais e sociais por muito injustas que estas sejam.
O sistema capitalista cria uma espécie de controlo social que previne que a luta de classes e outros fenómenos, que possam fazer perigar o sistema existente, se manifestem.
Apesar de todas estas questões que deveriam ser discutidas de forma aberta e intelectualemnte honesta, a nossa política, infelizmente, não passa de uma espécie de balanço contabilístico do passado ou do presente governativo. Quem está no governo tenta justificar a sua má governação devido à herança do anterior governo e quem está na oposição tenta chegar ao poder criticando o governo actual.
Apesar de todas estas questões que deveriam ser discutidas de forma aberta e intelectualemnte honesta, a nossa política, infelizmente, não passa de uma espécie de balanço contabilístico do passado ou do presente governativo. Quem está no governo tenta justificar a sua má governação devido à herança do anterior governo e quem está na oposição tenta chegar ao poder criticando o governo actual.
Penso convictamente que todos temos que fazer um esforço para que a nossa democracia não se torne algo apenas a preto e branco. O arco íris fornece-nos uma paleta de cores que não devemos negligenciar. Não nos contentemos com um menu em que apenas podemos escolher entre dois pratos. Ainda por cima ambos utilizam os mesmos ingredientes e sabem a requentado.
Não permitamos que nos sirvam uma democracia comprimida e compactada. Exijamos diversidade e pluralidade.
A asfixia democrática não se faz apenas pela interferência que o governo possa ter nos diversos sectores da vida social. Faz-se também de forma por vezes subliminar quando nos fazem crer que a razão está sempre do mesmo lado.
Dia 27 de Setembro vamos todos votar. Votemos de acordo com a nossa consciência e tendo em mente as nossas convicções. Não nos deixemos intimidar por discursos alarmistas que visam impingir-nos a ideia de que a opção é entre duas coisas que em tudo são iguais.
C.Santana


Sem comentários:
Enviar um comentário