Resumo
Pretende-se com este trabalho, suportando-nos em cinco artigos científicos, analisar se as emoções mistas podem ser vivenciadas pelos indivíduos de forma simultânea ou apenas de forma sequencial. Será igualmente focada a discussão académica que se coloca ao nível dos modelos teóricos e das escalas existentes para determinação e medição das emoções mistas. Outro aspecto abordado é a questão das representações das crianças sobre emoções mistas e em particular sobre a sua vivência de forma simultânea. Importa ainda destacar a relevância do estudo das emoções mistas como instrumento de intervenção e de prevenção de comportamentos de risco.
Palavras-chave: emoção, simultânea, contraditória, modelos, comportamento de risco.
Definir emoção é algo bastante complexo. Certamente mais complicado será tratar de emoções mistas e do facto destas poderem ou não ser vividas de forma simultânea por todos nós.
Esta temática pode remeter-nos imediatamente para a pergunta formulada por Larsen, MacGraw e Cacioppo (2001): Podem as pessoas sentir-se felizes e tristes ao mesmo tempo?
De facto um dos aspectos centrais no estudo as emoções mistas é determinar se é possível para os indivíduos experienciarem duas emoções contraditórias em simultâneo.
Para que se perceba que as opiniões académicas sobre esta matéria não são coincidentes, socorremo-nos do artigo elaborado por Larsen et al. (2001) para apresentarmos, resumidamente, as linhas gerais em que assentam os principais modelos conceptuais que servem como instrumentos operatórios para a análise das emoções contraditórias e em particular da possibilidade destas serem vivenciadas de forma simultânea ou meramente sequencial.
Emoções Mistas e os Modelos de Análise
O primeiro modelo que iremos referir enquadra-se no âmbito dos modelos Cricumplexos. O Modelo Bipolar desenvolvido por Russel (1980, citado em Larsen et al., 2001) defende que não é possível aos indivíduos experienciarem em simultâneo duas emoções contraditórias. Isto é, «quando estás feliz não estás triste e quando estás triste não estás feliz». (Russel & Carrol, 1999, citados em Larsen et al., 2001, p. 685).
Este modelo distribui pelos quatro quadrantes de uma circunferência as diversas tipologias de emoções. Ou seja, distribui emoções similares num mesmo quadrante (ex: no segundo quadrante agrupa emoções como serenidade, relaxamento e calma, enquanto que no quarto quadrante surgem emoções como tensão, nervosismo e stress) e cria uma espécie de espelho em que se reflectem as emoções opostas num quadrante a que se poderia designar de simétrico.
Neste contexto, seria impossível que emoções que se separam cerca de 180º, umas das outras, pudessem ser vividas de forma simultânea (Larsen et al., 2001)
Um outro modelo que importa explanar designa-se por Modelo de Espaço Avaliativo (MEA) e foi desenhado por Cacioppo e Bernston (1994, citado em Larsen et al., 2001).
Este modelo defende a bidimensionalidade ou bivariabilidade em oposição aos modelos circumplexos que defendem a bipolaridade.
Para o MEA as emoções relacionadas com aspectos positivos (ex: alegria) e outras relacionadas com situações negativas (ex: tristeza) apesar de serem antagónicas podem ser vividas de forma separada e como tal uma não tem necessariamente de excluir a outra (Larsen et al., 2001).
Ou seja, o MEA admite a possibilidade de se vivenciarem emoções contraditórias em simultâneo.
Estudos no âmbito das neurociências parecem dar razão ao MEA em detrimento dos modelos Circumplexos. Estes estudos indicam, designadamente, «…que os processos neurológicos envolvidos no afecto positivo e negativo são parcialmente distintos.» (Davidson, 1998, citado em Larsen et al., 2001, p. 687). Salientam ainda que os hemisférios direito e esquerdo do cérebro processam emoções de sinal contrário. O hemisfério direito processa as emoções negativas e o esquerdo processa as positivas (Larsen et al., 2001).
Apesar das experiências das neurociências virem trazer alguma luz sobre a questão da possibilidade de se poderem viver emoções contraditórias em simultâneo, parece ser consensual que na maioria das vezes as pessoas ou vivenciam uma emoção positiva ou uma emoção negativa (ex: ou estão felizes ou estão tristes) (Larsen et a.l., 2001).
Para comprovarem a possibilidade de se vivenciarem emoções contraditórias em simultâneo, Larsen et al., (2001), realizaram três estudos.
Estudos Baseados no Modelo de Espaço Avaliativo
O primeiro estudo foi desenvolvido utilizando o filme a vida é bela como estimulo e demonstrou que cerca de 44% dos participantes na experiência expressaram ter experienciado emoções contraditórias de forma simultânea e que essas emoções resultaram da visualização do filme (Larsen et al., 2001).
O segundo estudo abordava a questão da mudança de residência universitária no final do ano lectivo. Também neste caso muitos participantes (54%) relatarem terem sentido um misto de felicidade e tristeza. Felicidade por estarem próximas as férias de verão e de tristeza pelo facto de terem que mudar de residência académica (Larsen et al., 2001). Este estudo corrobora e reforça os dados obtidos no primeiro estudo e demonstra que situações complexas determinam que os indivíduos vivenciem de forma mais intensa emoções contraditórias de forma simultânea.
O terceiro estudo foca-se no dia em que os alunos terminam os seus estudos. Ou seja, no dia da graduação. Também neste caso se verificou que cerca de 50% dos participantes tiveram experiências emocionais contraditórias simultâneas (Larsen et al., 2001). Os alunos sentiam-se felizes por terem alcançado o objectivo de terminarem o seu curso e tristes por esse facto determinar o final de um conjunto de vivências pelas quais tinham passado ao longo do seu percurso académico.
Pode pois concluir-se, deste conjunto de 3 estudos, que os indivíduos podem viver em simultâneo emoções contraditórias. Constata-se igualmente que esta realidade é mais frequente quando somos confrontados com situações complexas e que no dia-a-dia tendemos a viver as emoções contraditórias de forma sequencial.
A importância das Escalas na Determinação da Vivência Simultânea de Emoções Mistas
Oceja e Carrera (2007) no seu artigo intitulado: criando emoções opostas: experiências sequenciais ou simultâneas? referem que um dos problemas que se colocam ao nível da constatação da vivência ou não de emoções contraditórias em simultâneo prende-se com os instrumentos utilizados para medir os resultados obtidos nas diversas experiências realizadas. Isto é, Carrera e Oceja (2007) defendem que a utilização de escalas meramente quantitativas não permitem medir de forma correcta a existência de simultaneidade de emoções contraditórias:
As escalas quantitativas são necessárias e úteis à tarefa de medir as emoções, mas não são suficientes e esta insuficiência nota-se particularmente, em relação à medição de experiências emocionais complexas, tais como as que envolvem duas emoções que podem ocorrer durante um período particular de tempo. (Carrera & Oceja, (2007, p. 423).
Por outro lado, Carrera e Oceja (2007) chamam a atenção, tal como já tivemos oportunidade de constatar no artigo de Larsen et al., (2001), de nem todos os investigadores concordarem em ser possível vivenciar em simultâneo emoções contraditórias.
Para suprir este constrangimento metodológico – insuficiência das escalas quantitativas - Carrera e Oceja (2007) propõem a utilização de uma escala que designam por Escala Emocional Analógica (EEA).
Carrera e Oceja (2007) desenvolveram a sua própria escala analógica. Esta escala permite que os indivíduos possam representar graficamente as suas vivências emocionais. Os indivíduos podem representar as suas emoções utilizando duas dimensões. Uma dimensão mede a intensidade e outra mede a duração da emoção. Cada dimensão corresponde a uma linha.
Segundo os autores, esta escala «…permite separar as emoções contraditórias sequenciais das simultâneas». (Carrera & Oceja, 2007, p. 426).
Carrera e Oceja (2007) referem contudo que as escalas quantitativas não devem ser abandonadas. Devem sim ser utilizadas de forma articulada com as escalas analógicas.
Com o auxílio da referida escala (EEA), os autores, desenvolveram diversos estudos.
Estudos em que Foi Utilizada a Escala Emocional Analógica
Num desses estudos aplicaram a escala analógica a um grupo de 161 alunos que cursavam psicologia. (Oceja & Carrera, 2004)
O grupo era composto por 161 alunos. Destes, 32 do sexo masculino e 129 do sexo feminino.
Foi pedido aos participantes do estudo que vivenciassem 3 emoções: Felicidade, tristeza e medo. (Oceja & Carrera, 2004).
Dos alunos participantes no estudo, 77 pronunciaram-se sobre felicidade e tristeza e 84 sobre tristeza e medo.
Oceja e Carrera (2004) pediram aos alunos que se recordassem de uma situação por eles vivida em que fosse passível terem sentido estas emoções (felicidade e tristeza ou tristeza e medo).
Os participantes deveriam utilizar a escala analógica para expressar as suas emoções, em termos de intensidade, bem como se estas eram vividas de forma simultânea ou paralela.
Para representarem as suas emoções deveriam desenhar «duas linhas diferentes para representar cada emoção no espaço com duas dimensões: intensidade (vertical) e duração (horizontal).» (Oceja & Carrera, 2004, p. 3)
Os resultados obtidos apontam para o facto de «91% dos participantes que leram a versão felicidade tristeza e 87% daqueles que leram a versão medo tristeza informarem ter experienciado as duas emoções ao mesmo tempo.» (Oceja & Carrera, 2004, p. 6).
Verificou-se igualmente que no caso dos alunos que se pronunciaram relativamente às emoções felicidade-tristeza e medo-tristeza os resultados foram muito diferentes dos referidos anteriormente. Nestes casos «na situação felicidade-tristeza, 44,3% era sequencial e 55,7% paralela. Na situação medo-tristeza 41,1% era sequencial e 58,9% paralela.» (Oceja & Carrera, 2004, idem).
Oceja e Carrera (2007) realizaram um outro estudo tendo como participantes um grupo de alunos da Universidade Autónoma de Madrid e que cursavam psicologia.
Participaram 152 alunos, dos quais 34 do sexo masculino e 118 do sexo feminino. Também neste caso todos foram voluntários.
Neste estudo pedia-se aos participantes que recordassem a sua experiência emocional que viveram quando terminaram os seus estudos secundários e ingressaram na universidade.
Este segundo estudo apelava basicamente à movimentação de duas emoções: felicidade e tristeza (Ocerra & Carrera, 2007).
Os autores do estudo utilizaram a sua escala analógica para medirem se as emoções eram vivenciadas de forma simultânea ou paralela, sendo que «…esta distinção dependia do período de tempo em análise.» (Ocerra & Carrera, 2007, p. 427)
Tal como Oceja e Carrera (2007) referem, neste estudo, pretendia-se aferir «…se a representação sequencial é demonstrada quando as experiências curtas são narradas e se as paralelas também são demonstradas quando está em consideração um período de tempo mais longo.» (Ocerra & Carrera, 2007, idem)
Os resultados deste estudo demonstram que 59% dos alunos escolheu felicidade e tristeza e que 57,9% referiram ter vivenciado tristeza e felicidade (Ocerra & Carrera, 2007).
Os autores concluem referindo que, tal como em experiências levadas a cabo por outros investigadores, também nestes estudos se registaram muitos erros, em parte, devido à dificuldade que as pessoas têm em expressar as suas emoções. Concluem ainda que a melhor forma de alcançar resultados mais objectivados é através da utilização de técnicas de triangulação. Isto é, utilizando vários métodos de investigação na mesma experiência Carrera e Oceja (2004).
Contudo, apesar dos constrangimentos inerentes ao estudo das emoções contraditórias, os autores em análise concluem que «…as paralelas [emoções] são mais longas e podemos relacionar este resultado com as diferenças entre emoção e estado de espírito.» (Carrera & Oceja, 2004).
As experiências acima relatadas implicavam que os participantes tivessem que fazer um exercício de retrospecção para apelarem às emoções vividas há um determinado período de tempo, situação que poderia ter influência nos resultados dos estudos pelo facto de se verificar um hiato de tempo entre a vivencia das emoções e o seu relato (Ocerra & Carrera, 2007)
Assim, para eliminar este eventual elemento entrópico, Oceja e Carrera (2007) desenvolveram mais estudos em que as emoções eram induzidas no momento em que os participantes eram solicitados a pronunciar-se sobre as emoções vivenciadas.
Mais uma vez estava igualmente em causa a adequabilidade das escalas quantitativas (Ocerra & Carrera, 2007).
Num destes estudos participaram 114 alunos da Universidade Autónoma de Madrid. Estes alunos foram divididos em 4 grupos. Os alunos foram estimulados pela leitura de um texto, devendo em seguida responder a um questionário (Ocerra & Carrera, 2007)
Os textos distribuídos pelos alunos tinham três versões diferenciadas sobre um mesmo acontecimento. Cada versão pretendia invocar: Felicidade e tristeza ou ambas as emoções em simultâneo.
Também neste caso se verificou que a utilização exclusiva de escalas quantitativas impede um apuramento correcto da existência ou não de vivências simultâneas de emoções contraditórias, situação que é clarificada com a introdução da escala emocional analógica.
Numa outra experiência, igualmente realizada com alunos da Universidade Autónoma de Madrid, Carrera e Oceja (2007) submeteram os alunos, divididos em grupos, a estímulos emocionais induzidos por cenas de filmes. Num caso pretendia-se induzir emoções sequenciais de tristeza e felicidade e noutro caso o objectivo era induzir emoções contraditórias simultâneas.
Pretendia-se testar as duas hipóteses avançadas por Oceja e Carrera (2007): «a) as escalas quantitativas não fazem a distinção entre experiências emocionais sequenciais e simultâneas e b) as correntes emocionais transmitidas pela EEA serão coerentes com a estrutura emocional dos estímulos apresentados nas situações experimentais; simultânea e sequencial.» (Ocerra & Carrera, 2007, p. 436)
Concluiu-se neste estudo que apenas a EEA permitiu apreender de forma correcta as emoções que supostamente os participantes deveriam experienciar em função dos estímulos proporcionados pelas cenas do filme. Ou seja, «…os resultados demonstram que a EEA era sensível às experiências emocionais esperadas, não só revelando uma elevada incidência da experiência emocional na situação simultânea, mas também revelando a estrutura previamente manipulada (tristeza-felicidade) dos estímulos sequenciais.» (Ocerra & Carrera, 2007, idem)
Se no artigo anteriormente referenciado da autoria Larsen et al., (2001) a preocupação residia na eficácia dos modelos conceptuais para a identificação da possibilidade dos indivíduos vivenciarem ou não em simultâneo emoções contraditórias e se nos artigos de Carrera e Oceja (s/d e 2007) a centralidade da temática se foca na pertinência da utilização da EEA, importa analisar de que forma as crianças vivenciam as emoções contraditórias.
As Crianças e as Emoções Mistas
Tal como Larson, To e Fireman (2007) referem, vários autores já se debruçaram sobre a forma como as crianças representem as emoções contraditórias em particular a sua vivência de forma simultânea.
São referidos estudos levados à prática por autores como Harter e Buddin (1987, citados em Larsen et al., 2007) e que sustentam que as crianças não têm capacidade de sentir em simultâneo emoções de sinal contrário embora consigam viver emoções contraditórias sequencialmente.
Larsen et al., (2007) referem igualmente, que a capacidade das crianças percepcionarem emoções contraditórias de forma simultânea está directamente relacionada com a sua idade. Ou seja, como referem os autores, «…o entendimento conceptual das crianças desenvolve-se com a idade.» (Larsen et al., 2007, p. 187)
Apesar desta constatação, Larsen et al., (2007), chamam à atenção, suportados no pensamento de Harte e Buddin (1987, citados em Larsen et al., 2007), que o facto das crianças de menor idade terem dificuldade em exteriorizar e compreender emoções contraditórios vividas simultaneamente, tal não quer dizer que estas mesmas crianças não tenham elas próprias vivenciado essas mesmas emoções. Ou seja, é necessário separar o que as crianças de facto sentem e aquilo que elas conseguem representar.
Uma outra leitura da possibilidade dos indivíduos poderem vivenciar em simultâneo emoções contraditórias é aportada por Larsen et al., (2007). Estes autores referem que o Modelo Bipolar, tal como já tivemos oportunidade de analisar, defende que «…as pessoas não podem sentir-se felizes e tristes ao mesmo tempo, tal como não conseguem estar em dois sítios diferentes ao mesmo tempo.» (Russel & Carroll, 1999, citados em Larsen et al., 2007, p. 186).
Referem ainda que, ao contrário do que defende o Modelo Bipolar, o Modelo de Avaliação do Espaço (MAE) de Cacciopo e Bernston permite «…entender as emoções contraditórias e os adultos podem ser capazes de experienciar emoções tão opostas como a felicidade e tristeza, ao mesmo tempo.» (Cacioppo & Bernston, 1994, citados em Larsen et al., 2007, idem)
Para comprovar esta proposição: os adultos podem ser capazes de experienciar emoções tão opostas como a felicidade e tristeza, ao mesmo tempo, Larsen et al. (2001), realizaram um estudo que demonstrou «…que os adultos podem sentir-se felizes e tristes ao mesmo tempo.» (Larsen et. al., 2001, citados em Larsen et al., 2007, p. 187). O referido estudo comprovou igualmente que as crianças de idade mais elevada conseguem entender melhor o que são emoções contraditórias do que as mais novas.
Contudo, Larsen et al. (2007) referem que nenhum estudo tentou saber «…se as crianças mais velhas são mais propensas a experienciar emoções contraditórias do que as mais novas.» (Larsen et al., 2007, p. 187) é pois este o propósito dos autores atrás mencionados.
Para tal submeterem um conjunto de crianças, com idades compreendidas entre os 5 e os 12 anos de ambos os sexos, a um estímulo (excerto do filme a pequena sereia).
Na sequência do visionamento do filme foram submetidos a uma entrevista.
Para além das crianças terem que expressar as emoções que sentiram, teriam igualmente que se pronunciar sobre que emoções teria vivido um dos personagens do filme. Ou seja, as crianças para além de se pronunciarem sobre o que sentem têm que de forma empática referir-se à forma como os outros vivem as emoções.
Importa referir que o filme termina com uma cena que reflecte sentimentos contraditórios de felicidade e tristeza.
Os resultados confirmam que a capacidade de experienciar emoções contraditórias em simultâneo se manifesta em crianças de idades mais avançadas. (Larsen et al., 2007)
O estudo das emoções mistas, para além de ser um interessante tema para análises de carácter meramente teórico é igualmente algo que pode e deve ter aplicabilidade prática.
A Aplicabilidade Prática do Estudo das Emoções Contraditórias
Um dos exemplos da aplicabilidade do estudo das emoções é apresentado por Carrera, Caballero, Sánchez e Blanco (2005). Estes autores pretenderam utilizar de forma aplicada o estudo das emoções mistas a contextos concretos. No caso que passaremos a analisar no âmbito de comportamentos de risco.
O estudo das emoções mistas pode ser útil na previsão e no esclarecimento de determinadas condutas sociais (Carrera et al.,2005).
Carrera et al., (2005) realizaram um estudo sobre a conduta de risco que está subjacente ao viajar num veículo tendo o condutor ingerido bebidas alcoólicas em excesso.
Pretendia-se saber se as pessoas envolvidas nestas experiências teriam sentido emoções contraditórias tais como medo (indicador de emoção negativa) e alegria (indicador de emoção positiva) e se as mesmas estariam na disposição de repetir experiência similar (Carrera et al., 2005).
Participaram no estudo 98 estudantes com uma média etária de 20 anos. Todos os participantes já tinham experienciado viajar num automóvel em que o condutor estava sob o efeito de bebidas alcoólicas (Carrera et al., 2005).
Os participantes deveriam identificar as emoções que viveram antes de entrar no carro, durante o período que estiveram dentro do carro e o que sentiram após ter terminado a viagem (Carrera et al., 2005).
Os resultados apontam para o facto de se ter verificado que nos três momentos analisados (antes, durante e depois) os participantes relatarem ter vivido emoções mistas.
Em todos os casos foram citadas as emoções alegria e medo (Carrera et al., 2005). Contudo, os dados recolhidos não permitem avaliar se as emoções foram vivenciadas de forma sequencial ou simultânea.
Carrera et al., (2005) chamam a atenção para o facto dos resultados destes estudos permitirem a adopção de medidas que permitam prevenir os comportamentos de risco.
Importa pois frisar que a temática do estudo das emoções mistas é algo que deve ser entendido como relevante enquanto instrumento de intervenção social.
Considerações Finais
De acordo com a informação produzida e com base nos autores em que nos suportámos ao longo deste artigo, podemos considerar que, apesar de não ser consensual, é maioritariamente assumido que é possível os indivíduos experienciarem emoções contraditórias de forma simultânea. Com excepção da posição defendida por Russel e Carroll (2001) com base no modelo bipolar, os demais investigadores estão de acordo quanto a este aspecto.
Contudo, os defensores da possibilidade de se vivenciarem emoções contraditórias de forma simultânea, reconhecem que esta situação ocorre, normalmente, em situações complexas e que por isso o normal é os indivíduos vivenciarem emoções contraditórias de forma sequencial. Concordam igualmente com o facto das emoções mistas vividas simultaneamente ocorrem num período de tempo mais amplo do que as emoções mistas sequenciais.
Verifica-se igualmente que os instrumentos de observação e de medição das emoções contraditórias são elementos fundamentais para o sucesso das investigações. Sendo que autores como Carrera e Oceja (2007) defendem a utilização de escalas quantitativas de forma articulada com escalas analógicas.
Outro aspecto relevante aponta para o facto de, tal como é frisado por Larsen , et al., (2007), que a vivência da simultaneidade de emoções contraditórias é algo que está dependente do estado de desenvolvimento cognitivo e emocional dos indivíduos. Ou seja, a capacidade de experienciar emoções contraditórias em simultâneo é algo que apenas se alcança a partir de uma determinada idade.
Uma outra questão que importa reter, tal como nos é referido por Carrera et al., (2005) é a importância dos estudos das emoções mistas serem um instrumento importante, designadamente, na prevenção de comportamentos de risco.
Referências bibliográficas
Jeff T. Larsen, A. Peter MCGraw & Jonh T. Cacioppo, (2001). Can People Feel Happy and Sad at the Same Time?. Journal of Personality and Social Psycology, 81, (4), 684-696.
Carrera P., & Oceja, L. (2007). Drawing mixed emotions: Sequencial or simultaneous experiences? Cognitions and Emotions, 21 (2), 422-441.
Carrera P., & Oceja, L. (2004. July). Mixed Emotions, Sequential or simultaneous experiences? Poster Presented at 13th Internacional Society of research on Emotions,
Carrera, P. Caballero, A. Sánchez, F., & Blanco, A. (2005). Emociones mixtas y condutas de riesgo (mixed emotions and risk behavior). Revista Latino-americano de Psicologia, 37, 119-130.

