Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Objectividade vs relativismo (Subjectividade) na ciência

Descartes pretendeu criar um método que fosse transversal a todas as ciências e que tal como a matemática permitisse «…a busca da verdade…»[1].

Augusto Comte pretendia que o seu positivismo se constituísse como uma alavanca para a autonomização das ciências sociais em particular da Sociologia. Alavanca essa que encontrava o seu ponto de apoio nas ciências físicas e da natureza. Contudo, apesar da busca da objectividade, Comte, refere que «…as nossas teorias tendem cada vez mais para a representação exacta das nossas constantes investigações, sem que, no entanto a verdadeira constituição de cada um deles em qualquer caso possa ser totalmente estudada.»[2]. Ou seja, Comte defende que o conhecimento científico é uma procura incessante da “verdade” e nunca algo completamente alcançado.

Bertrand Russel diz-nos, a respeito da ciência, que esta «…jamais terá o mesmo sentido de ser que o mundo percepcionado pela simples razão de que ela é uma determinação ou uma explicação dele.»[3]

Esta perspectiva fenomenológica aponta para o facto de a ciência ser uma construção da realidade e não a própria realidade. Como tal ser uma aproximação, uma objectivação do real e não o real em si.

Para além de todos estes argumentos que apontam para o facto da inevitabilidade do relativismo ou da subjectividade do conhecimento científico e que assentam em questões inerentes à complexidade da produção científica, Pierre Bourdieu acrescenta outros factores que podemos designar de exógenos à actividade científica. Bourdieu refere que «…a ciência está em perigo e por isso torna-se perigosa.»[4]. Bourdieu refere-se a aspectos, em particular de índole económica e de interesses políticos, que se sobrepõem ao interesse meramente cientifico e que assim, de alguma forma, podem contribuir para a manipulação da ciência e consequentemente colocar em causa a sua real validade.

Temos pois por um lado a assumpção que o conhecimento científico resulta de uma aproximação sucessiva à realidade que se constitui como o seu objecto de estudo e por outro o facto de a ciência ser uma produção humana e como tal estar exposta, em muitos casos, a factores externos que podem inquinar os seus propósitos.

Parece inevitável aceitar-se que a ciência resulta do acumular de conhecimentos que foram produzidos pelas gerações passadas. Embora se possa considerar, tal como Khun, que o processo científico não está isento de descontinuidade e de momentos mais férteis em termos de progresso científico. Contudo, é evidente que as verdades científicas estão sujeitas à corrosão do espaço e do tempo.[5]

Se assim não fosse nunca se colocaria em questão as teorias desenvolvidas ao longo da história: teoria heliocêntrica em oposição à geocêntrica, teoria de newton versus teoria da relatividade de Einstein, etc. Ou seja, as verdades seriam vistas como definitivas.

Os paradigmas – termo utilizado pela primeira vez por Khun no contexto da ciência – são como que “óculos” do conhecimento que servem como uma espécie de axiomas para que se possa entender a realidade. Contudo, os paradigmas científicos são provisórios e quando estes são colocados em causa e são substituídos por outros dá-se uma ruptura epistemológica. Ou seja, alcança-se uma nova verdade provisória.[6]

A construção científica funciona de uma forma dialéctica. A partir de uma tese (paradigma vigente) opõe-se uma antítese (paradigma emergente) e desta “luta” de contrários – como diria Karl Marx – nasce uma síntese (novo paradigma) que mais não é do que um aperfeiçoamento do paradigma anteriormente dominante.

Ao contrário de outros tipos de conhecimento: religioso, senso comum, etc que têm a pretensão de serem intemporais e de representarem verdades absolutas. O conhecimento científico não pode assumir este estatuto.

Podemos pois concluir que tal como ocorre com o nosso processo de crescimento enquanto seres humanos também os modelos, teorias e paradigmas evoluem em função da aquisição de novos conhecimentos ou se preferirmos de novas evidências científicas.

Por tudo isto é necessário, como nos diz Pierre Bordieu, romper com a verdade dada como adquirida. Deve colocar-se tudo em causa. Mesmo as "verdades" cientificas que se nos afiguram como imutáveis. A dúvida metódica de Descartes continua a ter uma validade epistemológica inquestionável.

Os cientistas não se podem deixar endeusar. A verdadeira ciência é aquele que consegue perceber as suas fragilidades e o carácter provisório das suas “verdades”.

A verdade científica é um produto das condições em que se formou, ou seja, a verdade científica é relativa.

O relativismo da ciência é inevitável.

Trabalho realizado em parceria com a colega Maria Correia.

[1] René Descartes, Discurso do Método, Europa América, Mem Martins, 2º edição, p. 52.

[2] Auguste Comte in M. Braga da Cruz, Teorias Sociológicas, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 4ª edição, p. 176.

[3] Bertrand Russel, Panorama das Ideias Contemporâneas, Editorial Estúdios Cor, Lisboa, 1968, p. 61.

[4] Pierre Bourdieu, Para uma Sociologia da Ciência, Edições 70, Lisboa, 2008, p. 7.

[5] Pierre Bourdieu, Op. Cit., p. 28.

[6] Retirado de http://www.sociuslogia.com/artigos/fudam01.htm , Novembro de 2009.

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