Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

As Principais características da Construção Social da Realidade, em Peter Berger e Thomas Luckmann

A sociologia do conhecimento vem trazer uma nova perspectiva sobre o que de facto é o conhecimento social. Importa referir que a esta disciplina sociológica não respeita o estudo do conhecimento erudito, filosófico ou científico. Berger e Luckmann dizem-nos que «… a sociologia do conhecimento deve antes de mais ocupar-se com o que os homens “conhecem como realidade”, na sua vida quotidiano, na vida não teórica ou pré-teórica. Por outras palavras, o “conhecimento” com bom senso, mais do que as “ideias”, deve ser o foco central da sociologia do conhecimento».[1] Berger e Luckmann dizem ainda a este respeito: «…defendemos o ponto de vista de que a sociologia do conhecimento se preocupa com a análise da construção social da realidade».[2]

Para estes autores o conhecimento tem duas faces. Uma face objectiva e outra subjectiva. A face objectiva respeita à realidade que transcende os indivíduos. Ou seja, a realidade que lhes é externa. A face subjectiva é a que está no interior dos indivíduos. Isto é, aquilo que estes constroem como sendo real.

Peter Berger e Thomas Luckmann fundam a sua sociologia do conhecimento sobre o funcionalismo de Durkheim, o método compreensivo de Weber e a fenomenologia de Schultz.[3] Apesar de serem estas as referências base, da sua teoria, não deixam de relevar a importância que consideram decisiva do pensamento de Marx: «É em Marx que a sociologia do conhecimento encontra a raiz da sua proposta, que declara ser a consciência do homem determinada pelo seu ser social».[4] Temos pois que o enfoque da sociologia do conhecimento deve estar centrado naquilo que o indivíduo “comum” entende como certo ou errado, como verdadeiro ou falso. Este conhecimento é aquele que se deixa contaminar pelos juízos de valor, pelos preconceitos, pela moral e pelos costumes. É um conhecimento despreocupado com a sua legitimidade ou validade teórica.

Nogueira Dias[5] refere que à sociologia do conhecimento «…interessam, entre outros aspectos, as condições sociais da produção do conhecimento, o uso social do conhecimento, a distribuição social do conhecimento e as consequências sociais e individuais do conhecimento». Ao contrário do conhecimento científico que é construído paulatinamente e por aproximações sucessivas à realidade e que por isso é sempre provisório, o conhecimento do senso comum tem a pretensão de ser definitivo.[6]

Pode pois deduzir-se que o conhecimento humano é relativo e está condicionado por diversos factores tais como: os valores, a cultura, a religião, o momento histórico e a geografia (o espaço). Para clarificar este aspecto Berger e Luckmann utilizam uma frase de Pascal: «Aquilo que é verdade de um lado dos Pirenéus é falso do outro».[7]

Para os autores a tipificação e a institucionalização do conhecimento são factores essenciais. A tipificação não é mais do que o resultado da rotina que decorre da repetição de determinadas acções. As acções repetidas e logo tipificadas permitem que o conhecimento sobre uma determinada realidade social não tenha que ser construído sistemática e repetidamente sempre que nos confrontamos com um determinado fenómeno. Ou seja, o conhecimento torna-se objectivado. Podemos dizer que as tipificações em grande parte são como “produtos” que nos são impostos, pelos padrões culturais, religiosos e morais, através do processo de socialização. As tipificações são de certa forma representações sociais que nos permitem agir. O conhecimento tipificado tende a institucionalizar-se. Esta institucionalização implica que as rotinas se tornem em regras com um protocolo específico. As acções são executadas com determinadas regras institucionalizadas e que devem ser comuns a um conjunto alargado de indivíduos.[8]

Para se clarificar este aspecto poderemos recorrer a um exemplo. Anibal Ponce[9] refere que inicialmente, nas comunidades primitivas, a educação era um processo espontâneo que decorria da interacção que os indivíduos estabeleciam quotidianamente. Não existia nesta fase uma institucionalização desta rotina. Ou seja, não existiam regras específicas nem um corpo especializado para educar as crianças. Com a evolução e complexificação das regras sociais a educação institucionalizou-se tendo surgido o sistema de ensino. O propósito da institucionalização do conhecimento é em primeiro lugar permitir a sua transferência, através do processo de socialização, para as gerações mais novas e por outro permitir que esse conhecimento seja alvo de um controlo social efectivo em que o sistema de sanções serve como mecanismo de salvaguarda da integridade desse mesmo conhecimento. Contudo, a objectivação do conhecimento, como nos diz Nogueira Dias[10], necessita de um meio de comunicação eficaz e que permita a sua reprodução. Ou seja, a objectivação do conhecimento está dependente da linguagem. Temos assim que o conhecimento apenas existe enquanto fenómeno comunicacional que se difunde através da linguagem (oral e escrita). «Apetece dizer que quando pensamos, pensamos com as palavras».[11]

[1] Peter L Berger e Thomas Luckmann, Construção Social da Realidade, Dinalivro, Lisboa, 2ª edição, 2004, p. 26-27.

[2] Peter L Berger e Thomas Luckmann, Op. Cit p.15.

[3] Ibidem, p. 11-12.

[4] Ibidem, p. 17.

[5] Fernando Nogueira Dias, A Manipulação do Conhecimento, Vega, Lisboa, 2005, p.22.

[6] Ibidem, p. 19.

[7] Pascal in Peter L Berger e Thomas Luckmann, Op. Cit., p. 17.

[8] Idem.

[9] Anibal Ponce, Educação e Luta de Classes, Vega, Lisboa, 1979, p. 14.

[10] Fernando Nogueira Dias, Op. Cit. p.30.

[11] Ibidem, p. 31.

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