Cremos ser interessante começar com uma metáfora respeitante ao mundo social.
A vida em sociedade, primeiramente em pequenas comunidades, caracterizava-se pela simplicidade das relações entre os indivíduos. A divisão do trabalho era praticamente inexistente e as instituições eram meras construções casuísticas sem substrato organizacional, jurídico e burocrático.
A sociedade complexificou-se à medida que os aglomerados populacionais aumentaram e que a divisão do trabalho proliferou, em particular após a passagem da sociedade primitiva para a sociedade histórica, com a constituição das primeiras cidades, com o aparecimento das primeiras formas de estado e com a divisão da sociedade em classes sociais.[1] Isto é a simplicidade deu lugar à complexidade.
Para Morin o mesmo aconteceu com a ciência.
Pode entender-se das palavras de Egdar Morin que a evolução da ciência desbravou novos conhecimentos que colocaram em causa um paradigma antigo. A ciência perdeu ingenuidade e deixou de se contentar com respostas simples.[2]
Morin refere que ao «paradigma de simplificação» característico da ciência clássica se deve opor o «paradigma da complexidade.»[3]
Morin considera que o fim último do paradigma da complexidade é salvaguardar que as rupturas no conhecimento, provocadas pela divisão da ciência em áreas cada vez mais especializadas, são eliminadas assegurando-se uma visão holística, integradora e multidimensional dos fenómenos observados.[4]
Esta intenção encontra acolhimento na Cibernética como na Teoria Geral dos Sistemas (TGS).
Nogueira Dias refere: «Paralelamente à criação da cibernética, desenvolve-se a teoria geral dos sistemas…».[5] Esta teoria, pretendia configurar-se como um paradigma transversal a diversas áreas científicas, propunha «…uma nova visão holística, como contraponto da perspectiva simplificadora e atomizada de Descartes.».[6]
A TGS defende, como a Cibernética, que a sucessiva divisão da ciência implica que cada uma das áreas científicas fique enredada no seu casulo e a informação não flua. Cada área científica funciona como um sistema fechado e logo sujeito a processos entrópicos.
Por sua vez Sousa Santos propõe-nos um paradigma que designa por emergente como o novo farol do processo de construção de conhecimento científico.
Para este autor a ciência encontra-se numa encruzilhada. Ou seja, vivencia-se um período de indefinição epistemológica que indicia fragilidades estruturais do paradigma científico dominante. Estamos na presença de um processo dialéctico em que a tese vigente (paradigma dominante) está em confronto com uma antítese (paradigma emergente) sendo que a síntese ainda não foi alcançada.[7]
Sousa Santos considera que a ciência é guiada pelos princípios que estiveram na génese da sua emersão no século XVI.[8]
Para este autor o paradigma dominante está em crise, sendo Einstein o principal responsável.[9] Isto é, as novas concepções científicas de Einstein colocaram em causa a validade do paradigma nascido no século XVI.
Segundo Sousa Santos o paradigma emergente impõe-se cada vez mais e cabe-lhe terminar definitivamente com a distinção entre ciências naturais e sociais. Ou seja, esta dicotomia «entre ciências naturais e ciências sociais deixou de ter sentido e utilidade».[10]
Outra ideia defendida pelo autor é o facto da especialização excessiva – que é uma realidade da ciência dos dias de hoje – remeter os cientistas para um conhecimento demasiado especializado e como tal pouco holístico.[11]
Assim, tanto o paradigma da complexidade de Edgar Morin (EM) como o paradigma emergente de Sousa Santos (BSS) preconizam a conjugação/interacção de diversas áreas disciplinares rumo a um conhecimento total, indiviso (BSS) e multidimensional (EM).
Para que tal aconteça é necessário o desenvolvimento de um pensamento dialógico (EM) ou de uma situação comunicativa (BSS): ao invés de se rejeitarem as contradições, característica da ciência clássica, no novo paradigma são considerados e associados diversos aspectos sobre a mesma realidade, que podem ser complementares e/ou antagónicos.
Estes desenvolvimentos implicam também um colapso – seguido de uma transformação positiva – das distinções dicotómicas (BSS) tradicionais entre termos, conceitos e/ou disciplinas. Assim, verifica-se a «superação da distinção entre ciências naturais e ciências sociais», como refere Sousa Santos. A relação entre o sujeito e objecto é também transformada, de tal forma que se atinge um grau de inseparabilidade entre o acto de conhecer e o produto do conhecimento.
No que se refere à investigação científica, defendem uma pluralidade metodológica (BSS) ou uma ausência de metodologia (EM) no novo paradigma. «A complexidade não tem metodologia, mas pode ter o seu método... pede-nos que pensemos sem nunca encerrar os conceitos, que quebremos as esferas fechadas, que restabeleçamos as articulações entre o que está desconjuntado, que tentemos compreender a multidimensionalidade...»[12], como escreve Edgar Morin.
Finalmente, os autores apontam para a inevitabilidade de construção de um novo paradigma social, além de científico. Para Morin, «A nossa necessidade de civilização abrange a necessidade de uma civilização do espírito.»[13]. Sousa Santos menciona: «No futuro não se tratará tanto de sobreviver como de saber viver.»[14], e que «Assim subjectivado, o conhecimento científico ensina a viver e traduz-se num saber prático.»[15]
[1] Edgar Morin, O Paradigma Perdido, Publicações Europa-América, Mem-Martins, 6ªEdição, 2000.
[2] Edgar Morin Recurso 1.
[3] Ibidem, p. 252.
[4] Edgar Morin, Recurso 2.
[5] Edgar Morin, Recurso 2.
[6] Idem.
[7] Boaventura de Sousa Santos, retirado de http://www.scribd.com/doc/16663995/Boaventura-de-Sousa-Santos-Um-Discurso-Sobre-as-Ciencias, Janeiro de 2010.
[8] Idem.
[9] Idem.
[10] Ibidem, p. 13.
[11] Boaventura de Sousa Santos, retirado de http://www.scribd.com/doc/16663995/Boaventura-de-Sousa-Santos-Um-Discurso-Sobre-as-Ciencias, Janeiro de 2010.
[12] Recurso 2, página 150
[13] Recurso 2, página 151.


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