Como nos diz Robert Blanché, epistemologia «…significa literalmente teoria das ciências».
Esta definição parece clarificadora do que é a epistemologia. Contudo, a epistemologia não é um tema pacífico. Diversos autores propõem que este ramo do saber pode ter vários enquadramentos.
Hilton Japiassu chega mesmo ao ponto de dizer «…que da epistemologia sabemos muito sobre aquilo que ela não é, e pouco sobre aquilo que é ou se torna, uma vez que se trata de uma disciplina recente e cuja construção é, por isso mesmo, lenta.»
Devido a esta indefinição sobre o estatuto da epistemologia, existem autores que defendem que se trata de um ramo da filosofia – Pierce, Husserl, Cassirer – e como tal compete aos filósofos apropriarem-se deste recurso como forma de análise crítica da ciência produzida em diversas áreas. Outros defendem que a epistemologia é própria da ciência – Einstein, Heisenberg, Monod. Compete pois aos produtores de ciência usá-la como ferramenta científica. Há igualmente os que defendem que a epistemologia é uma área do conhecimento que deve ser entendida de forma autónoma, como meta-ciência.
O. Pombo refere-se a esta indefinição de estatuto e igualmente de objecto da epistemologia referindo que há quem defenda que «…a epistemologia é entendida como uma reflexão filosófica sobre o conhecimento científico, pelo que constitui tarefa de filósofos…».
A este respeito, considerando a não coincidência de opiniões sobre o papel da epistemologia e sobre os seus verdadeiros “promotores”, refere ainda esta autora que outros defendem que «…a epistemologia é considerada como uma tarefa que só o cientista pode realizar, analisando e reflectindo sobre a sua própria actividade científica…».
O. Pombo refere igualmente que existe também quem defende que «…a epistemologia é considerada como uma investigação metacientífica, uma ciência da ciência, disciplina de segundo grau constituindo domínio de epistemólogos e que tem o seu próprio objecto…».
Também Pierre Bourdieu dá o seu contributo para esta discussão ao dizer que «O campo das disciplinas e dos agentes que tomam a ciência como tema – filosofia das ciências, epistemologia, história das ciências, sociologia das ciências –, campo de fronteiras mal definidas, é atravessado por controvérsias e conflitos…». Bourdieu parece defender a ideia de que a epistemologia, apesar de ter pontos de contacto e mesmo áreas de actuação sobrepostas com outras áreas do saber, é uma disciplina autónoma.
Este despique entre filosofia e ciência pode ficar bem demonstrado através das seguintes ideias:
«O filósofo acusa o cientista de ousar por vezes filosofar sem conhecer o pensamento profundo de Kant, Hume ou Wittgenstein.
O cientista rebela-se contra o esoterismo aparente de muitos discursos filosóficos e, quando se trata de Filosofia das Ciências, tem a tentação de fechar o livro e exclamar: “Eis um homem cujas ideias seriam mais claras se viesse passar alguns meses aqui, no meu laboratório.»
Face a esta aparente inconsiliação entre pensamento filosófico e ciência, parece ser defensável que a epistemologia possa ser vista como uma “disciplina” que deve estar autonomizada. Desta forma consegue estar equidistante entre a filosofia e a ciência.
A seguinte ideia pode de alguma forma ajudar a clarificar a questão referente ao enquadramento, poder-se-ia dizer epistemológico, da epistemologia:
«…na ciência faz-se; na Filosofia da Ciência pensa-se como se faz, para quê e porquê.»
Assim, temos que para quem defende a epistemologia como um campo da filosofia o seu objecto de estudo centra-se essencialmente na forma como a ciência desenvolve a sua metodologia, com que objectivos e o que a motiva. Já para a epistemologia como ciência da ciência o seu objecto de estudo é basicamente a forma como se faz ciência.
Se já nos referimos ao estatuto e ao objecto de estudo da epistemologia, importa agora sinalizar o seu âmbito.
Autores como O. Pombo e Hilton Japiassu defendem que a epistemologia tem diversos níveis de abrangência. Abaixo apresenta-se uma arrumação do âmbito da epistemologia que de alguma forma tenta retratar o pensamento dos autores atrás citados:
- Epistemologia geral: que se debruça sobre o conhecimento visto de forma abrangente, seja este de tipo científico ou filosófico;
- Epistemologia regional (particular): que focaliza os seus estudos numa ciência ou numa área especifica do conhecimento cientifico ou especulativo (matemática, biologia, sociologia, filosofia social...);
- Epistemologia Específica: interessa-se por uma disciplina específica do saber e pelo relacionamento que esta poderá ter com outras áreas disciplinares;
- Epistemologia interna (internalista): que é a ciência que constitui uma forma de conhecimento independente das restantes actividades humanas, devendo ser “pensada em função do desenvolvimento dos seus próprios objectos, leis, métodos e processos”.
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