Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Emprego e Qualificação: Relevância do Nível de Instrução na Obtenção e Manutenção do Emprego

Agradecimento

Gostaria de agradecer a colaboração prestada pela Dra. Cristina Faro, Directora do Gabinete de Estudos e Avaliação do IEFP, sem a qual não teria sido possível obter a informação estatística que suporta este trabalho.

Será igualmente justo agradecer a tutoria proporcionada pela Dra. Fernanda Pinto.


Introdução

É recorrente sermos confrontados, em diversos contextos, com o tema da qualificação, ou da falta dela, e das suas consequências no desenvolvimento, social, económico e cultural da sociedade portuguesa.

Este tema, para além de ser debatido em fóruns especializados, é igualmente trazido ao conhecimento do público em geral, pelos órgãos de comunicação social, em particular pela televisão.

Normalmente esta questão não é abordada tanto numa perspectiva cultural e de desenvolvimento pessoal dos indivíduos, mas sim numa óptica mais economicista e relacionada com o aumento ou diminuição da produtividade e da competitividade das empresas.

É mais que sabido que Portugal, quando comparado com os restantes países que partilham o espaço da União Europeia, é dos países que mais baixos índices de qualificação apresenta, apenas secundado por Malta.

O défice de qualificações da população portuguesa, não pode ser explicado por razões de ordem genética, rácica ou étnica. Os portugueses não são diferentes dos restantes povos que habitam o espaço europeu. A verdade é que quarenta e oito longos anos, de ditadura e obscurantismo, deixaram Portugal na cauda da Europa também no que concerne às qualificações e nível de instrução.

Apenas no decurso da década de 1960, Portugal começou a dar alguns passos no sentido do desenvolvimento económico. «No inicio dos anos 60, Portugal esboça um processo de desenvolvimento onde tenta recuperar do atraso económico que acumulara.»[2]

Na época, cerca de 38% da população era analfabeta. «…a taxa de alfabetização dos adultos não ultrapassava os 62%...»[3]

Contudo, a actual situação, não pode apenas ser justificada pelo imobilismo do “estado novo” e pelo seu desinvestimento no sector da educação.

Após quase trinta e quatro anos decorridos sobre o 25 de Abril de 1974 e apesar do gigantesco salto verificado, em particular no que concerne à universalização do acesso ao ensino, Portugal continua a confrontar-se com níveis de instrução, da sua população, que muito deixam a desejar num quadro de cada vez maior competitividade à escala global e de exigência face à complexificação da actividade produtiva.

A verdade é que o nível de instrução dos indivíduos e consequentemente as suas qualificações, são um factor decisivo para a modernização tecnológica do tecido empresarial. Não é mais possível introduzir novas tecnologias nas empresas se para tal não existir mão-de-obra qualificada para a utilizar e potenciar a sua eficácia.

O nível de instrução dos indivíduos não pode estar dissociado das exigências do mercado de emprego.

Todos nós quando iniciamos a nossa vida escolar, fazemo-lo essencialmente com a expectativa de um dia mais tarde podermos aceder a uma profissão que nos realize social e profissionalmente.

Embora de forma empírica, todos temos a noção que quanto mais elevado for o nosso nível de instrução, maiores possibilidades temos de encontrar uma profissão socialmente reconhecida.

Neste contexto, este trabalho visa demonstrar a influência directa que o nível de instrução tem na obtenção e manutenção do emprego.

Importa pois perguntar: em que medida o nível de instrução influência o acesso e a manutenção dos indivíduos no mercado de emprego?

Pretende-se então: comprovar que à medida que o nível de instrução aumenta, diminui o tempo de desemprego e aumenta o tempo de permanência no emprego.


Enquadramento Conceptual

Considerando que a informação que constitui o suporte documental deste trabalho, foi cedida pelo Instituto do Emprego e Formação profissional, IP (IEFP), importa definir os conceitos chave:

1. Desempregado

«Considera-se desempregado o candidato inscrito num centro de emprego, que não tem trabalho, procura um emprego como trabalhador por conta de outrem, está imediatamente disponível e tem capacidade para o trabalho».[4]

2. Candidato

«É o utente que se inscreve num centro de emprego para obter uma colocação por conta de outrem».[5]

3. Pedido de Emprego

«É o registo num centro de emprego de uma pessoa com idade igual ou superior a 16 anos (salvaguardadas as reservas previstas na lei) como candidata a uma colocação no mercado de emprego».[6]

4. Disponibilidade

«Para os candidatos desempregados a disponibilidade deve ser total e imediata, isto é, devem possuir capacidade para, nos 15 dias imediatos à data de inscrição, ocupar um posto de trabalho».[7]

5. Capacidade

«A capacidade para ocupar um posto de trabalho traduz-se na aptidão demonstrada pelo candidato para o exercício de uma actividade profissional e pode verificar-se pela inexistência de incapacidade por doença»[8].


Metodologia

O tempo disponível para a realização do trabalho, bem como outros constrangimentos, tais como a escassez de recursos, condicionaram a escolha da metodologia.

A análise baseou-se no paradigma positivista, tendo sido utilizados dados de carácter quantitativo, resultantes da recolha de informação estatística.

Para se alcançar o objectivo deste trabalho, procedeu-se à definição do período temporal que se pretendia analisar e à identificação das diversas variáveis. Assim, foi seleccionado o ano de 2006, para analisar os fluxos de saída e de reentrada de desempregados do ficheiro de pedidos de emprego dos 86 centros de emprego do IEFP.

Foram pois recolhidos os registos correspondentes à totalidade de desempregados que obtiveram emprego por conta de outrem em 2006 e comunicaram esse facto ao IEFP, bem como daqueles que após terem obtido emprego regressaram à situação de desemprego e voltaram a registar-se nos centros de emprego do IEFP, também em 2006. Importa referir que as saídas e as reentradas foram observadas para grupos distintos de desempregados, ou seja, os desempregados que obtiveram emprego, não são necessariamente os mesmos que regressaram à situação de desemprego.

As variáveis seleccionadas são o nível de instrução o género e a região. Por dificuldades na obtenção da informação, não foi possível introduzir a variável idade.

São utilizados os seguintes níveis de instrução:

Não sabe ler/escrever - Pessoa que não detém qualquer competência de leitura ou de escrita (analfabeto).

Ler e escrever sem grau de ensino - Pessoa que detém algumas competências de leitura e/ou de escrita mas não detém nenhum grau de ensino.

4 anos a 12 anos - Pessoas que completaram o nível de instrução correspondente (4º ano, 6º ano, 9º ano, 11º ano, 12º ano).

Bacharelato - Pessoa que detém o grau de bacharel atribuído por instituição do ensino superior.
Licenciatura - Pessoa que detém o grau de licenciado atribuído por instituição do ensino superior.
Foram igualmente recolhidos dados, relativos ao mesmo período, que permitem analisar o tempo médio de desemprego dos desempregados que permaneciam na situação de desemprego em 2006.
Apresentação de Resultados
Considerando que a informação recolhida e que serve de base para a apresentação e interpretação dos resultados, está disponibilizada em tabelas e gráficos e dada a dificuldades da sua transposição para o blogue, optou-se pela não inclusão desta informação.

Conclusão

O ponto de partida deste trabalho era demonstrar que o nível de instrução tem interferência directa na diminuição do tempo de desemprego e no aumento do tempo de permanência no emprego.

O primeiro aspecto parece ter sido claramente demonstrado.

É evidente que quanto maior o nível de instrução menor o tempo de desemprego.

Esta evidência mantém-se para os desempregados que obtêm emprego, registando-se contudo, pequenas oscilações nos níveis de instrução mais baixos.

Constatou-se igualmente que os 3 primeiros níveis de instrução: não sabe ler/escreve, ler e escrever sem grau de ensino e 4 anos de escolaridade, têm pouca interferência na diminuição do tempo de desemprego e na obtenção de emprego.

A região Norte é a mais penalizada em termos de tempo médio de desemprego e tempo médio para obtenção de emprego.

A esta situação não será certamente alheio o facto de ser esta a região com taxa de desemprego mais elevada[12] e onde se registam maiores despedimentos, em particular, em industrias tradicionais, designadamente do sector têxtil e confecções[13].

Verificou-se ainda que o desemprego feminino é penalizado pelos baixos níveis de instrução.

Também na obtenção de emprego o desemprego feminino é penalizado. Neste caso, apenas nos níveis de instrução mais elevados – Bacharelato e Licenciatura - a situação se inverte ligeiramente.

Na manutenção do emprego, o nível de instrução não apresenta uma interferência tão evidente, embora a tendência se mantenha.
Esta situação deverá em parte ser explicada pelo facto do emprego precário, consubstanciado em contratações a termo, ser um fenómeno transversal a todas as actividades económicas e como tal afectar indistintamente todos os níveis de instrução.

Contudo, é evidente que os desempregados com níveis de instrução mais elevados, conseguem uma rotatividade maior entre desemprego e emprego, ou seja, apesar de o tempo de permanência no emprego não ser significativamente diferente, a possibilidade de obter um novo emprego é bem mais elevada.

Apesar de não se enquadrar directamente no objecto de estudo deste trabalho, crê-se que o mesmo teria sido mais rico, caso se tivessem considerado outras variáveis, tais como: actividades económicas em que os desempregados obtiveram emprego; tipo de contrato e respectiva duração.

Apesar destes constrangimentos, os objectivos centrais que presidiam à elaboração deste trabalho foram alcançados.

Bibliografia

Pinto, Conceição Alves «Sociologia da Escola», Mcgraw-Hill, Alfragide, 1995
Citações



[2] In Pinto, Conceição Alves, «Sociologia da Escola», McGRAW-HILL, Alfragide, 1995, p. 1
[3] Idem
[4] In «Manual de Normas da Colocação», IEFP, Lisboa, p. 77
[5] Idem
[6] Idem
[7] Idem, p. 89
[8] Idem, p. 90
[9] O IEFP está territorialmente dividido regionalmente, sendo 5 as regiões: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve. Esta divisão territorial corresponde à NUTS 2 - As NUTS (Nomenclaturas de Unidades Territoriais - para fins Estatísticos) designam as sub-regiões estatísticas em que se divide o território dos países da União Europeia.
[10] O IEFP apenas tem competência operacional no âmbito do território Continental.
[11] Longa duração – desempregados há 12 ou mais meses, Muto longa duração – desempregados há 24 ou mais meses.
[12] In, «Jornal de Noticias» http://jn.sapo.pt/2007/11/17/economia_e_trabalho/desemprego_continua_a_fustigar_a_pop.html, 2007
[13] In http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?article=299903&visual=26, 2008 e
http://www.maraoonline.com/MARAO/MARAO_online_Novembro/1024DB0F-30FD-4BC5-8318-74FBFFDD49BC.html, 2007

A Religião e o Medo

Introdução

É recorrente proceder-se de forma sistemática a um erro de avaliação sobre aqueles que nos antecederam: os nossos antepassados. Consideramos com demasiada frequência e simplicidade, que somos superiores àqueles que cá estiveram antes de nós.

Temos tendência a analisar o presente e o passado, com os “óculos” que nos deram. Esses “óculos” estão impregnados com os preconceitos resultantes do nosso processo de socialização, ou seja, a forma como fomos ensinados a ver o mundo e tudo o que nele se passa.

A nossa capacidade de discernimento fica toldada e prisioneira dos preconceitos próprios da nossa época.

A visão que temos do passado e em particular do tempo primordial e longínquo, em grande medida está distorcida e fortemente condicionada pelo pensamento Iluminista.

O pensamento Iluminista, criou a ideia de que o desenvolvimento Humano se faz de forma progressiva e continua, pelo que, por esta lógica, quem nos precede é sempre, necessariamente, menos dotado intelectual e tecnologicamente do que aqueles que nos sucedem.

Esta linha de pensamento está igualmente presente na concepção que se tem da origem da religião e do divino.

Tendemos a crer que a religião nas sociedades primitivas surge como necessidade do Homem encontrar uma explicação para os diversos fenómenos naturais que se passavam à sua volta e de certa forma como mecanismo propiciador de acalmia e de tranquilidade.

Resumindo, a religião teria surgido como meio de defesa dos medos de que o Homem padecia.

Encontramos pois uma relação entre medo e religião.

Este pequeno trabalho que proponho desenvolver, visa de forma humilde e titubeante, apresentar uma perspectiva, pessoal, embora suportada por algum lastro de conhecimento científico, sobre a religião e a sua estreita relação com o medo.

Sendo a visão de um ateu sobre a religião, reconheço que à partida dificilmente conseguirei ser isento.


O Primórdios - Religião e Divino como resposta ao Medo

O Homem receia e tem medo essencialmente do desconhecido, como tal e desde os primórdios dos tempos que procura o seu semelhante e vive em comunidade. «Se a natureza faz juntar os indivíduos, tal como um grupo de animais para se sentirem seguros, formando um colectivo, estes quando desamparados da colectividade, confrontam-se com o pânico e o medo do seu isolamento»[1].

Tal como o Homem sentiu necessidade de viver em comunidade, para se defender dos diversos medos que o assaltavam, também a religião e a ideia de divino surgem como resposta à necessidade de explicar o que para Ele era inexplicável.

A ideia de divino e de religião nasceu por volta do período Neolítico já na presença do Homo sapiens.

Os primeiros ritos, que sugerem uma perspectiva religiosa, terão ocorrido como resposta do Homem a um dos seus principais medos: o medo da morte.

Estes ritos estão relacionados com as cerimónias fúnebres e de enterramento dos mortos. «Ao mesmo tempo que o túmulo nos assinala a presença e a força do mito, os funerais assinalam-nos a presença e a força da magia»[2]

A ideia do religioso é aqui expressa como forma de explicar fenómenos incompreensíveis para o Homem e ao mesmo tempo como elemento anestesiador e apaziguador da sua consciência.

Temos pois uma religião em sintonia com as necessidades do Homem. Uma religião que permite ao Homem encontrar as respostas para as suas inquietações.

A Institucionalização da Religião e o Medo como Instrumento de Poder

A Institucionalização, em particular da religião fundada na figura de Jesus Cristo, traz para o seu interior um conjunto de comportamentos que desvirtuam a ideia original de religião.

A religião deixa de ser um elemento apaziguador e passa a ser um instrumento de poder e de exercício desse mesmo poder.

Não é alheio a este princípio, o facto da igreja cristã ter sido institucionalizada pelo Império Romano. Império esse que se constituía historicamente como um dos seus principais opositores e um dos responsáveis pela morte do seu fundador: Jesus Cristo.

A institucionalização do cristianismo como religião oficial de Roma, não foi mais do que uma forma de ajustar a religião aos interesses do estado.

A partir de então, estado e religião passaram a confundir-se e a zelar mutuamente pelos seus interesses.

O cristianismo defende que os Homens devem ser corajosos e como tal recrimina aqueles que se deixam influenciar pelo medo. De alguma forma apresenta o medo como um pecado. «No amor não há medo. Antes o perfeito amor lança fora o medo, porque o medo produz tormento. Aquele que teme não é aperfeiçoado em amor»[3]

Contudo, paradoxalmente, é o próprio cristianismo, em particular a Igreja Católica, que utiliza o medo, materializado na figura dos pecados mortais ou do inferno, como mecanismo de controlo dos comportamentos humanos.

Seria fácil e fastidioso, enumerar as inúmeras barbaridades praticadas pela igreja católica ao longo dos muitos séculos da sua história.

Contudo, é importante referir alguns dos episódios mais marcantes em que o medo é um elemento primordial.

Desde logo, no seu começo enquanto religião oficial do Império Romano, a igreja Católica, para além de não contribuir para a eliminação de uma sociedade marcadamente esclavagista, não demorou a encetar uma perseguição desenfreada aos seguidores dos cultos pagãos.

«O massacre de Tessalônica devido a uma rebelião pagã deixa clara esta posição do imperador. Um dos conflitos entre a nova religião do Império e a tradição pagã consistiu na condenação da homossexualidade, uma prática comum na Grécia antes e durante o domínio romano»[4].

Pode dizer-se que no que concerne à religião católica, o período da sua institucionalização enquanto religião oficial de Roma, constitui o inicio do processo de desmontagem e deturpação do conceito inicial de religião. Se religião significa religar o Homem a Deus, o que a igreja católica fez foi exactamente o inverso, ou seja, desligar o Homem de Deus.

A religião deixou de ser celebração e passou a ser medo. A religião deixou de ser um acto de exaltação da vida e transformou-se num instrumento de poder e de imposição de vontades.

Todos os restantes episódios trágicos da prática do catolicismo, não são mais do que o resultado de um processo, tragicamente, evolutivo, que resulta no aumento do seu poder destruidor. Não nos esqueçamos das cruzadas, supostos actos de fé de propagação do cristianismo que originaram a perda de milhares de vidas Humanas e de civilizações milenares; a santa inquisição que espalhava o terror e a morte por todos aqueles que ousassem contrariar os princípios sacro santos da santa madre igreja; culminando no século XX com uma vergonhosa atitude de fechar os olhos ao holocausto nazi que dizimou cerca de seis milhões de Judeus.

Outros episódios poderiam ser descritos para documentar a atitude pouco “cristã” da igreja católica, mas estes certamente que são suficientes para ligar o medo à prática religiosa.


Conclusão

Pode pois resumir-se dizendo que as religiões em geral e a católica em particular, estão suportadas no medo como elemento basilar da sua existência. «Eu gosto de Deus, mas tenho medo d’Ele. Deus gosta de mim, mas abomina o que eu faço, caso lhe desagrade»[5]

As religiões, que não apenas a católica (exemplo disso são as ameaças diárias e actos de terrorismo praticado em nome da religião Islâmica que resultam em verdadeiros actos de pura barbárie), são uma fonte que propaga o medo, de carácter ontológico e social, e dele se alimenta como forma de sobreviver e de expandir o seu poder.

A religião transformou-se em arma de arremesso e instrumento político.

Posto isto importa finalizar com uma interrogação: terá sido Deus a criar o Homem à sua imagem, ou antes o Homem a criar Deus como forma de impor a sua vontade a outros homens?
«O Criador confunde-se com a criatura».


Bibliografia

DIAS, Fernando Nogueira, «O Medo Social e os Vigilantes da Ordem Emocional», Instituto Piaget, Lisboa, 2007

MORIN, Edgar, «O Paradigma Perdido e a Natureza Humana», Publicações Europa-América, Mem Martins, 6ª edição, 2000

[1] In, Dias, Fernando Nogueira, «O Medo Social e os Vigilantes da Ordem Emocional», Instituto Piaget, Lisboa, 2007, p. 8.

[2] In, Morin, Edgar, «O Paradigma Perdido e a Natureza Humana», Publicações Europa-América, Mem-Martins, 6ª edição, 2000, p.95.

[3] In, João, São «Biblia» 1 jo 4, 18

[5] In, Dias, Fernando Nogueira, Idem, p. 120.

«Entre a casa e a barraca»

Introdução

O mundo rural funcionou durante largos milhares de anos como uma referência para o Homem. Era neste mundo que tudo de importante se passava, era ele que determinava a subsistência da Humanidade através da produção de alimentos e que funcionava como referência social e cultural.

Pode pois dizer-se que desde que o Homem começou a trabalhar de forma sistemática a terra como fonte de produção regular de alimento, o que ocorreu há cerca de doze mil anos, que o espaço rural se constituiu como um referencial de modernidade e de salvaguarda da satisfação das necessidades básicas do ser Humano. «A agricultura, a base necessária à fixação de aglomerados, tem apenas doze mil anos[1]».

Durante todo este período e até há cerca de dois séculos, era igualmente a agricultura a principal actividade humana responsável pela ocupação da mão-de-obra. A quase inexistência de mecanização na agricultura obrigava ao emprego de trabalho intensivo. Este factor implicava que a mão-de-obra disponível para o desenvolvimento de outras actividades fosse bastante escassa.

De “repente” esta ordem estabelecida ao longo de diversos séculos foi abalada pelo advento da revolução industrial e primeiramente pela revolução operada na própria exploração da terra.

De facto a revolução industrial desenvolve-se, em particular no Reino Unido, graças à revolução agrícola operada durante o inicio do século XVIII e que proporcionou, designadamente, a libertação de mão-de-obra necessária para o trabalho na indústria. «O segundo factor que facilitou o desenvolvimento da economia inglesa foi a disponibilidade de uma mão-de-obra muito numerosa, resultante do êxodo rural provocado pelo movimento das enclosures. Trata-se, no fundo, de estabelecer uma relação entre a chamada revolução agrícola e a Revolução Industrial[2]».

Este factor vem criar um novo paradigma de modernidade. A civilização rural passa à condição de pré-moderna e o papel de vanguarda é assumido e desempenhado pela cidade. «A revolução industrial iniciada no século XVIII veio alterar a situação anterior. Na realidade, a emergência de uma nova sociedade urbano-industrial acarretou duas consequências principais para as áreas rurais. Por um lado, inicia-se um acentuado processo de perda de centralidade económica, social e simbólica por parte do mundo rural.

Por outro lado, este tende a ser globalmente identificado com realidades arcaicas, enquanto as aglomerações urbano-industriais são vistas como o palco, por excelência, do progresso[3]».

Um dos aspectos que continua a marcar a diferença entre mundo rural e mundo urbano centra-se na divisão e na tipologia do trabalho. No mundo rural continua presente uma actividade central, a agricultura, enquanto que a cidade disponibiliza uma panóplia infindável de actividades económicas e consequentemente de profissões.

Também a família apresenta características diferentes. A família rural caracterizava-se por ser alargada, abarcando no mesmo espaço físico diversas gerações e constituía-se como uma autêntica “unidade de produção”. Ou seja, a família tendia para a auto-suficiência. Os elementos da família proporcionavam a força de trabalho necessária à produção agrícola e à venda de excedentes.

Em oposição a família urbana tende a ser mais reduzida e normalmente trabalha em actividades industriais ou de serviços e depende de um salário como meio de subsistência.

Esta caracterização, sumária, do mundo rural e da transformação potenciada pela revolução industrial no aparecimento das grandes cidades e consequentemente da modernidade e urbanidade que hoje se constituem como o motor do desenvolvimento económico, social e cultural, visa enquadrar o texto que a seguir se passa a comentar e a compreender mais facilmente a realidade que este pretende transmitir.

Resumo do Texto

O texto Migrações sazonais de seareiros produtores de melão - «entre a casa e a barraca»[4] relata aspectos relacionados com a vida de famílias de seareiros da região do Ribatejo. O período a que respeita o estudo situa-se entre os anos de 1960 e meados da década de 1970.

A actividade de seareiros, caracteriza-se pela sua sazonalidade, ou seja, desenvolve-se num período específico do ano, neste caso entre finais de Março inicio de Abril e decorre durante cerca de 6 meses.

A situação em análise refere-se a seareiros de melão.

Estas famílias dedicavam-se a tempo inteiro à actividade agrícola, como assalariados ou como pequenos agricultores, e desenvolviam esta actividade como forma de reforçarem o seu orçamento familiar.

Durante o período da safra do melão os seareiros tornavam-se rendeiros de pequenas parcelas de terreno. O tamanho do terreno variava proporcionalmente e em razão da dimensão das famílias e consequentemente da mão-de-obra disponível para assegurar as diversas actividades.

As terras eram-lhes subarrendadas por médios ou grandes agricultores rendeiros da Companhia das Lezírias[5]

Considerando que se tratava de uma actividade sazonal não localizada geograficamente na área de residência das famílias seareiras, era necessário que estas se deslocassem fisicamente para o local onde se desenvolvia a actividade de cultivo do melão e lá montassem uma “residência”provisória. A residência era, invariavelmente, uma barraca construída a partir de placas de madeira e com cobertura de zinco.

A mão-de-obra necessária para assegurar as diversas actividades e tarefas diárias relacionadas com a safra do melão, e demais aspectos, era quase sempre exclusivamente assegurado pela família. Raramente se recorria a mão-de-obra assalariada. Em alguns casos as famílias apoiavam-se mutuamente sempre que necessário, trabalhando nas explorações umas das outras.

A divisão do trabalho é algo bastante rígido e perfeitamente entendido pelos elementos das famílias. O homem assume o papel de “líder natural” e chama a si todas as tarefas mais complexas e de maior responsabilidade. A mulher e os restantes membros da família, quase sempre filhos, são os executantes.

A divisão do trabalho social faz-se em razão do sexo. Os rapazes começam a executar tarefas que tradicionalmente são exercidas pelo pai e as filhas auxiliam a mãe.

Existe uma relação muito rígida com o dinheiro. O esbanjamento em produtos não estritamente necessários é visto como algo quase que imoral e por isso alvo de critica por parte dos elementos da comunidade.

Normalmente os proveitos, lucro, obtidos nas searas de melão, são aplicados prioritariamente na aquisição de terreno para a construção de habitação própria. O dinheiro tem igualmente outros destinos tais como: poupança para fazer face a eventuais doenças e à velhice, período em que as pessoas são mais vulneráveis, e também para suportar as despesas inerentes à realização da cerimónia de casamento dos filhos.

Os seareiros para além de apoiarem financeiramente os seus filhos, garantindo que estes venham a ter condições de vida mais favoráveis do que eles tiveram, transmitem igualmente, às gerações futuras, os valores que são próprios da cultura e vivência rural. Um dos valores mais importantes a preservar é a prevalência dos valores da família sobre interesses individuais.

Tal como é próprio nos pequenos agricultores, também as famílias de seareiros não cultivavam exclusivamente o melão. Era sempre reservada uma parcela de terrenos para a produção de outros produtos agrícolas e criação de animais, como forma de tornar a família auto-suficiente em termos do seu sustento e assim evitar gastos adicionais com a aquisição de produtos alimentares no mercado.

Os pequenos períodos de tempo que não eram dedicados à actividade agrícola, eram destinados ao convívio com os vizinhos. Normalmente esta interacção era efectuada pelo homem – chefe de família. As mulheres dedicavam-se essencialmente às actividades da lida da casa.

No período da apanha do melão está igualmente presente a divisão das tarefas agrícolas em função do sexo. O homem dedicava-se à apanha do melão, actividade considerada “nobre” e com muita influência na qualidade final do produto e como tal no lucro que daí pudesse resultar.

Após a apanha do melão, ou concomitantemente, o homem tinha que se preocupar com os aspectos relacionados com a comercialização do produto e com a determinação do melhor momento para o colocar no mercado.

Normalmente os produtos eram vendidos a intermediários, sendo que o contrato era formalizado à boa maneira rural, ou seja, com base na palavra dada.

Com a venda do produto era tempo de voltar à casa de todos os dias e de fazer contas à vida. O seareiro rendeiro volta à sua condição de assalariado ou de pequeno agricultor e normalmente ia de imediato iniciar outra actividade também ela de carácter sazonal: a vindima.

O relato até agora apresentado, caracteriza as vivências dos seareiros de melão dos anos de 1960 e do inicio da década de 1970. A partir de 1974 por diversos aspectos a que a revolução de Abril não será necessariamente estranha, mas também a outros factores, a tipologia do seareiro sofre alterações significativas.

O seareiro deixa de ser exclusivamente trabalhador agrícola ou pequeno agricultor e é principalmente operário ou pequeno empresário.

A diminuição significativa dos custos das rendas incentiva o aparecimento de novos seareiros, muitas vezes filhos dos seareiros de que atrás falámos.

Para além das alterações ao nível da actividade profissional principal dos seareiros e dos custos da renda, existem outras alterações que se centram ao nível da introdução de novas tecnologias, tais como a mecanização e o surgimento de adubos e fertilizantes químicos, bem como a introdução das estufas de plástico.

Por outro lado o seareiro deixa de andar com a casa às costas e a velha barraca serve essencialmente para guardar os produtos agrícolas.

O seareiro trabalha na sua actividade profissional durante a semana e apenas ao fim de semana se dedica à produção do melão. A força de trabalho é essencialmente assalariada.

A mulher assume uma maior autonomia e é a ela que compete a gestão diária da actividade produtiva. É igualmente a quem compete transportar os assalariados.

Análise Sociológica

O texto que foi resumido apresenta um conjunto de características e de conceitos que estão presentes no mundo rural e mais em particular na sociedade campesina.

Desde logo é notório o facto de ser apresentada a família como motor da actividade económica, neste caso a agricultura. A família é quase sempre auto-suficiente, fornecendo a força de trabalho necessária à execução das tarefas e produzindo os produtos necessários à sua sobrevivência. «A força de trabalho reside, de base, na família, explorada e rentabilizada aos seus potenciais máximos, embora só o trabalho do homem e da mulher seja contabilizado como custo de produção[6]»

Também neste caso os produtos excedentes eram vendidos no mercado como forma de assegurarem a aquisição de bens que não obtinham através da autoprodução.

Economicamente caracterizam-se por serem pequenos agricultores, característica marcante das sociedades campesinas, embora neste caso estejam também presentes trabalhadores agrícolas assalariados.

A divisão do trabalho é feita em razão do sexo, cabendo ao homem o papel mais preponderante. «As tarefas são realizadas pelo homem, mulher e filhos na observância duma definição/ divisão sexual e etária do trabalho[7]».

Existe uma forte solidariedade mecânica, sendo esta incentivada e passada de pais para filhos, garantindo-se a coesão social e familiar. O colectivo deve prevalecer sobre o individual. Os valores são transmitidos intergeracionalmente garantindo-se a manutenção de uma cerca consciência colectiva, ou seja, a existência de valores e de princípios comuns à maioria dos indivíduos.

Está igualmente presente o respeito característico das sociedades campesinas pelo dinheiro.
Devido à escassez de recursos financeiros tudo é rentabilizado ao máximo, não são toleradas despesas que não se justifiquem. O controlo social a este nível é bastante forte. Identifica-se um sistema de sanções, recompensa ou punição consoante a situação, que visam reforçar o controlo social. «O esbanjamento só é tolerado quando é limitado pela regulação social das práticas em que se joga o bom nome da família e se luta pelo prestígio».

As relações comerciais assentam em princípios de boa fé e confiança, outra característica da cultura campesina.

Tal como se verificou na sociedade campesina, essencialmente devido aos movimentos migratórios, também neste caso a actividade agrícola passou, em muitos casos, a ser complementar à actividade operária. «…a fábrica foi também o fim da necessidade de emigrar e o complemento necessário ao orçamento familiar dos pequenos camponeses, a braços com uma propriedade extremamente dividida[8]».

O facto da actividade agrícola passar a ter um estatuto de subalternização relativamente à actividade industrial, permitiu que a mulher desempenhasse um papel social mais relevante e logo adquirisse um status mais proeminente no âmbito do desenvolvimento das tarefas agrícolas.
Processou-se portanto uma alteração significativa ao nível da divisão do trabalho em razão do sexo. «A divisão sexual do trabalho e dos lugares a que outrora deu abrigo, transmutou-se[9]».


Bibliografia

Giddens, Anthony, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 5ª Edição, 2007


Martins, José Joaquim Garrucho,http://home.utad.pt/~des/cer/CER/CONTEUDO/05D.HTM, 2008

Lourenço, Nelson, Família Rural e Industria, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1991
Citações


[1] In, Giddens, Anthony, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 5ª Edição, 2007, p. 42.

[4]In , Matins, José Joaquim Garrucho, http://home.utad.pt/~des/cer/CER/CONTEUDO/05D.HTM, 2008

[5] A Companhia das Lezírias é a maior exploração agro-pecuária e florestal existente em Portugal, compreendendo a Lezíria de Vila Franca de Xira, a Charneca do Infantado, o Catapereiro e os Pauis (Belmonte e Lavouras).

A Lezíria está compreendida entre-os-rios Tejo e Sorraia e é sub-dividida pela Recta do Cabo (E.N. 10 entre Vila Franca de Xira e Porto Alto) em Lezíria Norte e Lezíria Sul.
Lezíria Norte, constituída por cerca de 1.300 hectares explorados indirectamente (rendeiros).
Lezíria Sul constituída por cerca de 5.000 hectares, dos quais 3.000 ha são explorados indirectamente (rendeiros) e 2.000 ha estão afectos a pastagens e/ou à produção de forragens.
A seguir à área de pastagens/forragens, a cultura predominante é a do arroz num total de 650 hectares, seguida de 140 hectares de milho (sob pivot).

Nos Pauis de Belmonte e Lavouras, num total de 460 hectares, cultiva-se arroz.

A Companhia das Lezírias passou por muitas vicissitudes, sendo nacionalizada em 1975 e tendo passado, em 1989, a Sociedade Anónima de capitais maioritariamente públicos.

http://cl.terradasideias.net/htmls/pt/empresa_apresenta.html?inpg, 2008

[6] In , Matins, José Joaquim Garrucho, Idem, p. 4.

[7] In , Matins, José Joaquim Garrucho, Idem, p. 2.

[8] In, Lourenço, Nelson, Família Rural e Industria, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1991, p.32

[9] In , Matins, José Joaquim Garrucho, Idem, p. 14.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Medo do Desemprego e a Perda de Direitos Sociais

Agradecimento


Gostaria de agradecer a tutoria prestada pelo Professor Doutor Fernando Nogueira Dias, sem a qual não teria sido possível obter a informação necessária para dar algum rigor a este trabalho.

Introdução

Procurou-se com este trabalho abordar uma temática que está, infelizmente, cada vez mais presente no nosso quotidiano e como tal é algo actual e que sociologicamente se pode considerar relevante.

O tema escolhido é o medo do desemprego e a consequência deste na perda de direitos sociais.
Poderemos pois colocar como hipótese de trabalho a seguinte afirmação: os indivíduos receiam o desemprego e como tal estão na disposição de abdicar de direitos sociais como forma de manterem o emprego que detêm ou de obterem mais facilmente um novo emprego.

Para se poder chegar à confirmação ou infirmação desta hipótese, iremos recorrer ao longo do trabalho, e em particular no enquadramento conceptual, ao pensamento de diversos autores que já abordaram temáticas relacionadas com o medo e o mundo do trabalho.

Constituem-se como perguntas de investigação as questões colocadas no questionário (questões 1 a 15 – Questões Específicas).

O trabalho desenvolve-se ao longo de VIII capítulos.

A conclusão destaca os principais aspectos apurados ao longo, essencialmente, dos capítulos VII e VIII, Apresentação de Resultados e Análise dos Dados, respectivamente.


Enquadramento Conceptual
Capítulo I
À volta dos conceitos

Emprego e trabalho são conceitos que utilizamos no nosso dia-a-dia e sobre os quais, muitas vezes, não reflectimos sobre o que lhes está subjacente.

Tendemos a achar que emprego é um bem escasso e que constitui uma relação laboral estável e com direitos e que trabalho é algo que abunda e que se caracteriza por viver, essencialmente, de desregulação laboral e por isso com poucos direitos e pouca estabilidade.

Na prática e resumindo, tendemos a achar que emprego todos queremos e poucos conseguem encontrar, sendo que ao trabalho apenas se recorre em caso de necessidade e por inexistência de emprego.

Importa pois saber até que ponto esta percepção, que muitas pessoas têm, é de facto correcta.

De acordo com Ilona Kovács [1] não existe um consenso quanto à definição do que se entende por trabalho e emprego, embora se possa falar da existência de uma corrente maioritária que tende a equiparar, a equivaler, trabalho e emprego, em particular na sociedade industrial e pós-industrial.

Para o contexto do trabalho que estamos a desenvolver, não parece, salvo melhor opinião, ser necessário entrar em grandes especulações conceptuais, sobre se emprego e trabalho são ou não sinónimos, pelo que julgamos que a definição ou melhor a perspectiva de Ilona Kovács é suficiente. Partamos então do princípio que emprego e trabalho são a mesma coisa.

Outro aspecto que importa clarificar, prende-se com o antónimo de emprego. Ou seja, desemprego. De facto só poderemos falar de desemprego depois de falarmos de emprego.

Também para definir desemprego existem diversos conceitos. Conceitos esses que se aplicam em função do âmbito e do contexto.

O Instituto Nacional de Estatística (INE)[2] apresenta múltiplos conceitos relacionados com o desemprego, conheçamos alguns:

Desempregado:

«Indivíduo, com idade mínima de 15 anos que, no período de referência, se encontrava simultaneamente nas situações seguintes: a) não tinha trabalho remunerado nem qualquer outro; b) estava disponível para trabalhar num trabalho remunerado ou não; c) tinha procurado um trabalho, isto é, tinha feito diligências no período especificado (período de referência ou nas três semanas anteriores) para encontrar um emprego remunerado ou não. Consideram-se como diligências: a) contacto com um centro de emprego público ou agências privadas de colocações; b) contacto com empregadores; c) contactos pessoais ou com associações sindicais; d) colocação, resposta ou análise de anúncios; e) realização de provas ou entrevistas para selecção; f) procura de terrenos, imóveis ou equipamentos; g) solicitação de licenças ou recursos financeiros para a criação de empresa própria. O critério de disponibilidade para aceitar um emprego é fundamentado no seguinte: a) no desejo de trabalhar; b) na vontade de ter actualmente um emprego remunerado ou uma actividade por conta própria caso consiga obter os recursos necessários; c) na possibilidade de começar a trabalhar no período de referência ou pelo menos nas duas semanas seguintes. Inclui o indivíduo que, embora tendo um emprego, só vai começar a trabalhar em data posterior à do período de referência (nos próximos três meses)».

Desemprego Interno:

«Número de horas em que se verifica a inexistência de prestação de trabalho, provocado pela situação económica e/ou tecnológica da empresa ou situações de catástrofe, que colocam trabalhadores na situação de temporariamente não terem trabalho a realizar, estando contudo disponíveis para o trabalho, sem que esta situação decorra da redução legal da actividade».

Desemprego Involuntário:

«Situação que ocorre sempre que a cessação do contrato de trabalho decorra de: a) decisão unilateral da entidade empregadora; b) caducidade do contrato não determinado por atribuição de pensão; c) rescisão com justa causa por iniciativa do trabalhador; d) mútuo acordo que se integre em projecto de redução de efectivos, determinada por restruturação de sectores de actividade, por recuperação ou viabilização de empresas ou por outras situações que permitam o recurso ao despedimento colectivo. Considera-se ainda como desemprego involuntário a situação dos reformados por invalidez, que, em posterior exame de revisão da incapacidade por invalidez, foram declarados aptos para o trabalho».

Por sua vez o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) define pessoa desempregada da seguinte forma:

«Candidato inscrito num Centro de Emprego, que não tem trabalho, procura um emprego como trabalhador por conta de outrem, está imediatamente disponível e tem capacidade para o trabalho».[3]

O conceito do IEFP adequa-se melhor ao objectivo do presente trabalho, considerando que nos interessa conhecer a forma como o medo do desemprego influi na perda de direitos sociais.
Entenda-se pois o trabalho como uma relação subordinada. Ou seja, trabalho por conta de outrem.

Consideremos pois desemprego: a inexistência de trabalho e consequentemente a não existência de uma relação subordinada, regulada por um contrato de trabalho dependente, com uma entidade empregadora (organização publica ou privada com ou sem fins lucrativos) que remunera, com um salário, o trabalhador pelo trabalho por este exercido.

O conceito de salário é igualmente importante, pois o trabalho pode também ser de carácter não remunerado. Contudo, centremo-nos no que diz João Freire sobre a questão do salário: «…uma quantia paga em dinheiro pelo empregador ao empregado, em contrapartida do cumprimento de determinadas tarefas profissionais deste, sob a autoridade do primeiro».[4]

O salário é na sociedade actual um dos principais factores diferenciadores da classe social a que o individuo pertence ou se preferirmos um dos elementos centrais na estratificação social. «O salário será a única (ou pelo menos a mais importante) fonte de rendimento económico auferida pelo trabalhador: que é, portanto, a sua fonte de subsistência».[5]

Considerando que para a esmagadora maioria dos trabalhadores, o salário constitui-se como o único meio económico que estes detêm para fazer face às necessidades do quotidiano e como elemento central para a sua própria existência enquanto actores socialmente activos, não será de estranhar que a perda deste rendimento seja um dos principais focos de propagação do medo do desemprego.

De facto o medo do desemprego radica essencialmente na perda de rendimento e nas consequências que dai advêm para os indivíduos que se encontram nesta situação.

O medo de que falamos é de carácter social e para entendermos melhor o que este encerra, recorramos ao pensamento de Nogueira Dias: «Podemos definir o medo como um fenómeno psíquico, de carácter afectivo. O medo é um estado emocional que resulta da tomada de consciência de que algo real, imaginário ou provocado pode ameaçar os indivíduos».[6]

Contextualizando, poderemos dizer que os indivíduos têm consciência que algo real, no caso o desemprego, pode ameaçar o seu único meio de subsistência e assim colocar em causa o seu modo de vida.

É este medo que poderá condicionar os trabalhadores a lutarem pela manutenção dos direitos sociais. Ou seja, utilizando uma expressão corrente: é melhor ter um mau emprego do que não ter nenhum.

Quando se fala de direitos sociais é necessário restringir o âmbito e centrá-los no que concerne ao emprego. Desde logo o direito a um emprego. Direito que de forma genérica está presente em quase todas as Constituições, em particular dos estados ocidentais.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) definiu, na conferência de Filadélfia em 1944, os seguintes direitos sociais como base da sua orientação e aos quais se encontram vinculados os países que integram esta organização das Nações Unidas (ONU):

«A Conferência reconhece a obrigação solene de a Organização Internacional do Trabalho secundar a execução, entre as diferentes nações do mundo, de programas próprios à realização:
a) do pleno emprego e da elevação do nível de vida;
b) do emprego dos trabalhadores em ocupações nas quais tenham a satisfação de aplicar toda a sua habilidade e os seus conhecimentos e de contribuir da melhor forma para o bem-estar comum;
c) para atingir esse objectivo, da concretização, mediante garantias adequadas para todos os interessados, de possibilidades de formação e meios próprios para facilitar as transferências de trabalhadores, incluindo as migrações de mão-de-obra e de colonos;
d) da possibilidade para todos de uma participação justa nos frutos do progresso
em termos de salários e de ganhos, de duração do trabalho e outras condições de trabalho, e um salário mínimo vital para todos os que têm um emprego e necessitam dessa protecção;
e) do reconhecimento efectivo do direito de negociação colectiva e da cooperação entre empregadores e os trabalhadores para a melhoria contínua da organização e da produção, assim como da colaboração dos trabalhadores e dos empregadores para a elaboração e aplicação da política social e económica;
f) da extensão das medidas de segurança social com vista a assegurar um rendimento de base a todos os que precisem de tal protecção, assim como uma assistência médica completa;
g) de uma protecção adequada da vida e da saúde dos trabalhadores em todas as ocupações;
h) da protecção da infância e da maternidade;
i) de um nível adequado de alimentação, de alojamento e de meios recreativos e culturais;
j) da garantia de igualdade de oportunidades no domínio educativo e profissional[7]».

Certamente que este elenco de direitos inclui as principais preocupações dos trabalhadores dos dias de hoje. Contudo, temos que reconhecer que apesar de estes princípios terem sido redigidos há mais de 60 anos, o facto é que em muitas latitudes ainda não foram cumpridos e nas latitudes em que se tornaram prática estão a ser postos em causa por imperativos da “nova ordem” e que assentam essencialmente num novo paradigma de desenvolvimento que ainda não foi encontrado.

Capítulo II
Um Pouco de História do Trabalho

Parece não haver dúvidas de que o Homem, desde os tempos mais remotos, sempre trabalhou. Quando começou a trabalhar a terra, quando construía objectos, por mais rudimentares que fossem, estava a exercer uma actividade física – manual – ou intelectual com o objectivo de produzir algo e assim de satisfazer uma ou várias necessidades.

O trabalho ganhou uma maior relevância a partir da sociedade Histórica e com a emergência da complexidade social, em particular, pelo aparecimento das cidades e com o advento da escrita. «A partir de então, instituem-se as divisões radicais entre trabalho de execução e de decisão, trabalho de força e trabalho de inteligência, trabalho mecânico e trabalho de arte».[8]

No que concerne ao trabalho por conta de outrem e ao aparecimento de uma classe de assalariados, em grande escala, capaz de se configurar como uma verdadeira referência social, é um facto que ocorre com o advento da revolução industrial.

A revolução industrial resultou de um processo contínuo e massivo de migração de trabalhadores rurais para a cidade para servirem de mão-de-obra para uma actividade produtiva que se iniciou por volta do século XVIII e que terá conhecido o seu apogeu no século XIX.

Este acontecimento originou profundas alterações nas estruturas sociais e potenciou, inclusive, o aparecimento de uma ciência dedicada ao estudo dos fenómenos da sociedade, até então explicados de uma forma meramente especulativa: fundou-se a Sociologia.

Surgiram duas classes emergentes, operariado (proletariado) e burguesia industrial. Do confronto de interesses entre estes dois protagonistas, nascem diversas tensões que estão na base do surgimento de ideologias de carácter político que se formam neste caldeirão, tais como o socialismo “criado” por Karl Marx e F. Engels. Nascem conceitos como luta de classes e criam-se condições para fracturas sociais, surge o desemprego como consequência da mecanização crescente da indústria e instala-se a miséria entre os operários. «Os operários lançados na miséria têm a dupla consolação de dizerem a si mesmos que os sofrimentos são apenas passageiros e que a maquinização só progressivamente invade todo o campo de produção, o que quebra toda a extensão e a intensidade dos seus esforços destruidores».[9]

Pode pois dizer-se que o emprego como elemento integrador dos indivíduos e simultaneamente como algo que lhes criou como que uma espécie de dependência terá nascido no século XIX.

Com o emprego como elemento fundamental para a vida em sociedade, nasceu igualmente, e por consequência, o medo de perder esse elo que permite aos indivíduos fazerem parte de um colectivo: nasce o medo do desemprego.

Com a revolução industrial, para além de surgir em grande escala o fenómeno do desemprego, surge igualmente outro fenómeno até então praticamente inexistente. Nasce a massificação da divisão do trabalho.

A divisão do trabalho, em parte, consequência da crescente mecanização do processo produtivo, originou diversas leituras, segundo Marx e Engels: «O trabalho dos proletários perdeu, com a extensão da maquinaria e a divisão do trabalho, todo o carácter autónomo e, portanto, todos os atractivos para os operários. Ele torna-se um mero acessório da máquina ao qual se exige apenas o manejo mais simples, mais monótono mais fácil de aprender. …não são apenas servos da classe burguesa, do Estado burguês, dia a dia, hora a hora, são feitos servos da máquina…».[10]

Edgar Morin tem uma opinião algo coincidente com a acima apresentada, embora considera a divisão do trabalho um caminho inevitável: «A especialização vai fazer progredir de forma gigantesca a complexidade dos sistemas sociais, multiplicar os produtos, as riquezas, as trocas, as comunicações, estimular invenções em todos os domínios. No plano individual, no entanto, a especialização vai acarretar a degenerescência de um tipo humano polivalente e politécnico que a arqui-sociedade havia desenvolvido…».[11]

Sobre esta mesma matéria, Emile Durkheim tem uma posição contrária: «Mas, não será que a divisão do trabalho, ao fazer de cada um de nós um ser incompleto, implica uma diminuição da personalidade individual? É uma crítica que frequentemente se lhe dirige. Nos povos inferiores, o acto próprio do homem é assemelhar-se aos seus companheiros, é realizar nele todos os traços do tipo colectivo, que então se confundem, mais ainda do que hoje, com o tipo humano. Mas, nas sociedades mais avançadas, a sua natureza é, em grande parte, ser um órgão da sociedade, e a sua acção específica, por consequência, é desempenhar o seu papel de órgão».[12]

Independentemente da opinião que se tenha sobre esta matéria, é facto que a divisão do trabalho é uma característica marcante da sociedade industrial e pós-industrial e é algo com o qual todos nós convivemos e em particular aqueles que vivem em grandes centros urbanos. «A existência de uma divisão do trabalho extremamente complexa e diversificada constitui uma das características mais distintivas do sistema económico das sociedades modernas».[13]

É com a revolução industrial e devido às suas consequências, funestas, ao nível da degradação das condições de vida dos trabalhadores e como resposta a uma insatisfação crescente no seio da sociedade que, já no século XX, nasce a legislação do trabalho, a qual institui alguns direitos dos trabalhadores. «Por isso, entende-se que os direitos sociais foram aceites nos ordenamentos jurídicos por uma questão política, isto é, para evitar que o socialismo acabasse por derrubar o capitalismo vigente».[14]

Pode pois dizer-se que os direitos que presentemente os trabalhadores possuem, em particular nos países ocidentais, foram resultado de uma luta difícil e persistente que os nossos antepassados travaram durante muitas décadas. Devemos, contudo, ter consciência que nem sempre os direitos conquistados nos dão certezas de perpetuação.
Capítulo III
A Centralidade do Emprego no Processo de Socialização

Existem vários ditados populares que servem perfeitamente para retratar a importância e a centralidade que o emprego tem na vida das sociedades modernas. Todos nós já ouvimos, entre outras, expressões do género: “ Tens que trabalhar para seres um homem”; “quem não trabuca não manduca” (quem não trabalha não come), “ O trabalho dá saúde”, “quem não é bom para comer não é bom para trabalhar”.

Por outro lado também proliferam contos populares que exaltam a importância do trabalho como, por exemplo, a história da formiga e da cigarra[15].

Apesar de toda esta importância conferida ao trabalho, seria importante perguntar: Será que o homem foi desenhado, tem no seu código genético inscrita a necessidade de trabalhar como forma de garantir a sua existência e de se realizar enquanto indivíduo? Será que os outros animais trabalham? Será este um dos factos para nos termos tornado, como diz Edgar Morin, Homo Demens? Foi o trabalho que nos tornou loucos? Todas estas reflexões são extremamente interessantes mas extravasam o objecto de estudo da Sociologia, pelo que é importante não perdermos o foco e deixarmos estas questões para Antropólogos e sobretudo para Filósofos.

A verdade é que desde pequenos somos confrontados com a importância do emprego. Não nos podemos esquecer que todo o sistema educativo se desenvolveu tendo como pressuposto a integração dos indivíduos no mercado de trabalho.

Não é certamente por acaso que diariamente ouvimos falar da falta de ajustamento do sistema de ensino às realidades do mercado de emprego, na falta de qualificações e o seu reflexo na baixa produtividade.

O trabalho passou a ser como que uma missão para todo o ser humano. Algo que todos devem e têm que experienciar.

O trabalho passou a ser algo que faz parte de nós e que nos distingue dos demais animais.

Raras não são as vezes em que os indivíduos se identificam com a sua profissão: “eu sou isto ou eu sou aquilo”, como se a profissão estivesse plasmada em nós, nos moldasse o carácter e a maneira de pensar, sentir e agir.

Por outro lado temos um sentimento de que a organização onde trabalhamos também é nossa, o que cria uma falsa relação de pertença. «Para mim aquilo era como se fosse meu! Era a minha fábrica…».[16]

O emprego é pois um elo essencial de ligação do Homem à sociedade. Sem emprego os indivíduos são vistos por diversos sectores da sociedade, e vêem-se a eles próprios, como alguém que vive à margem e por isso desintegrados socialmente e sem poder contribuir e partilhar o bem comum.
«Nas sociedades modernas ter um emprego é importante para se preservar o respeito por si próprio. Mesmo quando as condições de trabalho são relativamente desagradáveis e as tarefas a realizar monótonas, o trabalho tende a ser um elemento estruturante na constituição psicológica das pessoas e no ciclo das suas actividades diárias».[17]

O mundo do trabalho tornou-se num dos agentes mais relevantes para a socialização dos indivíduos. «…a grande presença de pessoas no trabalho tornou-o fonte essencial de socialização. O trabalho é espaço de socialização, com troca de experiências e de vivências. … se produzem e cimentam hábitos de vida que se repercutem nos comportamentos e na acção geral dos indivíduos».[18]

O Homem é socializado, em particular, no mundo ocidental, tendo por base a importância do trabalho como forma de valorização pessoal e acima de tudo social.

O trabalho é pois um valor base da sociedade moderna. A inexistência de emprego significa uma forma de exclusão, de marginalização, de perda de capacidade económica e de perda de identidade.

Capítulo IV
O Medo

Com toda esta ênfase colocada na questão do emprego, com os principais agentes socializadores a prepararem os indivíduos para o mundo do trabalho e a exaltarem a importância de todos termos um emprego, parece evidente que apenas resta aos indivíduos encontrarem no emprego uma das razões da sua existência. Contudo, importa não esquecer que o emprego tem um lado obscuro e indesejado que é a falta de emprego ou se quisermos o desemprego.

Se o emprego se configura como uma das razões para a nossa existência, quem não encontra um emprego ou quem perde o emprego que tem, fica numa situação de desfavorecimento social e não parece estranho que tal situação origine medo, angústia e frustração. «O medo de perder o lugar ou a posição na empresa ou na organização, conquistado muitas vezes com labor de muitos anos de esforço, faz recear muita gente pela segurança e pela estabilidade a que estavam habituados».[19]

É óbvio que quem perde o emprego não fica apenas apavorado pelo facto de ter deixado de trabalhar. O medo, o pavor, decorre igualmente do facto do emprego ser a sua fonte de subsistência. Enquanto há emprego os indivíduos conseguem, melhor ou pior, fazer face às exigências da vida moderna e em particular da vida urbana. Quando o espectro do desemprego se manifesta, para além de se evidenciar uma pressão, um controlo social, sobre os indivíduos desempregados, o facto é que os indivíduos nesta situação ficam sem recursos financeiros para enfrentarem as necessidades básicas diárias e outras socialmente construídas. «O medo de não poder pagar as prestações do carro ou do apartamento, por perda do emprego…».[20]

De facto o emprego é o suporte financeiro que assegura a existência, mais ou menos digna, da esmagadora maioria dos indivíduos do mundo dito civilizado, «A falta de trabalho é outra das principais causas de mobilidade descendente».[21]

O desemprego não é um medo «ilha». Ou seja, não se esgota em si mesmo. O medo do desemprego interage, relaciona-se directamente com outros medos, tais como: o medo da rejeição, o medo de não pertencer a um grupo, o medo de não poder cumprir os seus compromissos para com terceiros, o medo da exclusão social e familiar, o medo de não ser compreendido e o medo de ter deixado de ser útil.

O medo do desemprego está muitas vezes, também, relacionado com a não adaptação a mudanças rápidas que ocorrem no mercado de emprego, designadamente, decorrentes de processos de reestruturação tecnológica, de processos de deslocalização de empresas, de fenómenos relacionados com a globalização, etc. «O computador penetra nas mais diversas actividades económicas com a potencialidade de aumentar a produtividade e, por essa via, reduzir o número de empregos».[22]

Sobre a questão da influência que os aspectos relacionados com a introdução de inovações tecnológicas, tendentes à automação ou mecanização do processo produtivo, têm no aumento do desemprego, Marx dizia: «Mas a maquinização não actua apenas como um concorrente omnipotente e sempre alerta para tornar o assalariado «supérfluo». É em voz alta que o capitalista declara que a máquina é o inimigo do operário, e é deliberadamente que dela se serve nesse sentido».[23]

O medo do desemprego representa igualmente o medo do presente e do futuro. Quem está desempregado ou estando empregado se encontra numa situação de vulnerabilidade, não pode perspectivar o seu futuro, não tem o direito de fazer planos, de prever o que lhe irá acontecer no dia seguinte. «A insegurança do emprego está a tornar impossível fazer planos. Tem que se viver para o dia de hoje, senão mesmo para o dia de ontem».[24]

Para além do desemprego ser uma realidade suficientemente ameaçadora para quem está desempregado e para quem tem um emprego, a verdade é que existe, por vezes, um alarme social, decorrente da amplificação do fenómeno, designadamente por parte dos órgãos de comunicação social.

A banalização e a forma excessiva como são tratadas as questões do desemprego, cria nos indivíduos uma sensação algo contraditória. Por um lado faz crescer o medo do desemprego e por outro funciona como um mecanismo de anestesia, pelo facto do desemprego ser tratado como algo perfeitamente banal. «Destacada a dimensão humana da tragédia, a jornalista termina com a frieza dos números: percentagem de desempregados que irão ampliar as estatísticas do desemprego, o número de fábricas e empresas que até à data fecharam as portas, a extinção de postos de trabalho para aquela região. Por detrás dos números: vidas em suspenso. Perante estes: o medo».[25]

O medo do desemprego não é uma característica, exclusiva, de quem está desempregado, também quem está empregado receia incorrer numa situação de desemprego. Aliás o medo do desemprego contribui em grande escala para as situações de angústia e de incerteza em que vivem as pessoas que ainda detêm um posto de trabalho. «Mas o aumento do desemprego estrutural e a propagação de suas consequências devastadoras amplificam o medo no ambiente de trabalho, deixando o trabalhador muito mais vulnerável, e em situação muito mais fragilizada».[26]

Relativamente aos empregados, estes encontram-se igualmente confrontados com um “exército” de desempregados que anseiam ocupar os seus postos de trabalho. Este “stock” de mão-de-obra disponível, é muitas vezes utilizado pelas organizações como um mecanismo que visa aumentar a própria produtividade dos trabalhadores. «…os trabalhadores vêem-se em situação de não poder parar de trabalhar, mesmo que já tenham cumprido suas tarefas. Eles alegam que a chefia percebe que estão parados, interpreta que estão fazendo “corpo mole”, que estão com pouco trabalho, ou ainda, que querem ser demitidos».[27]

Sobre esta questão, Giddens enfatiza: «A precarização do trabalho consiste em muito mais do que no medo do desemprego. Engloba também ansiedades quanto às transformações do próprio trabalho e quanto aos efeitos desta transformação na saúde dos empregados e na sua vida pessoal».[28]

Esta situação de tensão entre quem está desempregado e anseia em obter um emprego e quem detém um emprego e teme que este venha a ser ocupado por quem está desempregado, cria como que uma guerra entre os indivíduos que em nada beneficia a defesa dos seus interesses.

Raras não são as vezes em que quem está empregado se levanta contra as modalidades de protecção social institucionalizadas.

O sistema de protecção social no desemprego é muitas vezes alvo de várias críticas, contudo, independentemente de situações, eventualmente, menos bem conseguidas, é um suporte essencial para a coesão social e para funcionar como almofada que amortece as crises decorrentes de situações severas de desemprego.

Capítulo V
Direitos Sociais um Bem que Começa a Escassear

Como já foi referido, no Capítulo II, os direitos sociais foram algo conquistado ao longo de várias décadas e a sua obtenção decorre de um processo dialéctico que é por isso dinâmico e consequentemente em construção permanente.

O mundo do trabalho consubstancia-se, constitui-se, como um sistema no qual interagem diversos actores. Desde logo os detentores dos meios de produção (patronato, organizações) e os trabalhadores.

Esta interacção evidência uma relação desigual. Esta relação, de poder, resulta muitas vezes em tensão e conflitos. «…a arma de guerra mais poderosa para reprimir as revoltas periódicas e as greves operárias dirigidas contra a autocracia do capital».[29]

Estes conflitos resultam da confrontação de interesses muitas vezes inconciliáveis. Por um lado os detentores do capital pretendem ver reforçados os seus ganhos e para tal utilizam, operacionalizam, diversas estratégias e engenharias financeiras, tais como: congelamento de salários, deslocalização de empresas para mercados em que os direitos sociais são menos desenvolvidos, despedimentos. Estratégias que conflituam com os interesses de quem tem como principal recurso a venda da sua força de trabalho, quer ela seja braçal ou intelectual. «Na execução da sua estratégia, elas movem-se (deslocalizam-se ou dispersam actividades com toda a liberdade), deslocalizam tarefas da produção ou dos serviços…»[30]

Considerando, que estamos na presença de uma relação desigual, será de esperar que, na generalidade das situações, as perdas sejam de maior vulto para os trabalhadores.

As consequências negativas para os trabalhadores acentuam-se num cenário de desemprego agudo.

Onde é igualmente notória a diferença de poder entre capital e trabalhadores, é no vínculo laboral utilizado para formalizar a relação de trabalho. Particularmente em Portugal, é utilizado de forma transversal, e por isso nem sempre com respeito pelas regras definidas na legislação laboral, a contratação a termo certo[31].

Outro expediente que graça ao nível da vinculação laboral, é o uso do recibo verde em substituição de um contrato de trabalho subordinado.

Quanto mais instável for uma relação de trabalho, à partida, mais possibilidades existem dos trabalhadores terem dificuldades acrescidas na defesa dos seus direitos, mesmo que estes estejam devidamente consignados na legislação laboral.

A contratação a termo certo – vulgarmente designada por contratação a prazo –, bem como outras formas de precariedade do vínculo laboral, podem acentuar, se não houver uma certa parcimónia e adequabilidade na sua utilização, desequilíbrios ainda mais visíveis na relação entre trabalhadores e capital. «A difusão de empregos atípicos e precários insere-se no movimento de diversificação das formas de emprego e da flexibilização do mercado de trabalho e está ligada à procura da flexibilização quantitativa e à redução de custos pelo recurso a vínculos contratuais instáveis e à substituição de contratos de trabalho por contratos comerciais». [32]

Esta situação poderá ser um dos factores que mais influenciam o comportamento dos trabalhadores quando o espectro do desemprego está mais presente.

Devido à precariedade do vínculo laboral, os trabalhadores nesta situação, são os mais vulneráveis face a um eventual processo de despedimento que seja despoletado pela entidade empregadora. Daí os trabalhadores poderem, por medo, abdicar de algumas condições sociais em troca da manutenção do seu posto de trabalho. «A incorporação do medo (…) dá lugar à aceitação ou resignação, isto é, à auto-negação da luta pelos direitos».[33]

Uma outra consequência da precariedade do vínculo laboral, e da sua utilização massiva pelo capital, é a diminuição da influência do movimento sindical como elemento mediador na defesa dos direitos dos trabalhadores. Nem sempre ser sindicalizado é um bom cartão-de-visita para um trabalhador precário. «Observámos também que a quebra do movimento sindical em Portugal – e no geral da Europa – resulta de múltiplos factores (…) os novos tipos de emprego, uma parte resultante da aplicação de novas tecnologias, outra da emergência de novos serviços e actividades, e todos marcados pelo aumento generalizado da precariedade do trabalho».[34]

Também a sucessiva eliminação de instrumentos de regulamentação colectiva como meio privilegiado de negociação das condições laborais, em substituição de uma negociação directa entre empregador e trabalhador, contribui para a fragilização das condições sociais. Numa negociação directa com o empregador, o trabalhador encontra-se numa situação fragilizada e não tem condições para impor o seu ponto de vista em defesa de melhores direitos. «A precariedade do trabalho surge sustentada numa elevada inevitabilidade de liberalização estrutural e organizacional da economia e do trabalho, a que é associado uma espécie de «novo paradigma» que dá como velha e caduca a regulamentação colectiva e o próprio direito do trabalho».[35]

Face a este quadro de alguma desregulação ao nível da formalização do contrato de trabalho e dos instrumentos de negociação colectiva, os trabalhadores vêem aumentada a sua inquietude e o medo de perderem o seu posto de trabalho e de não disporem de meios suficientes para fazerem prevalecer os seus direitos. «O medo torna-se um poderoso instrumento de manipulação. (…) se a demissão é vista como um ato de punição, o medo é a garantia da sujeição do sujeito».[36]

A perda de direitos, como forma de garantir um emprego, verifica-se quer no caso das pessoas que ainda estão empregadas e por maior ordem de razão naquelas que estando em situação de desemprego pretendem rapidamente regressar ao mercado de trabalho. Esta situação produz o efeito de bola de neve.

O regresso ao emprego faz-se muitas vezes pelo recurso ao emprego precário, pouco qualificado, mal remunerado, pelo que o horizonte do desemprego não andará, em muitos casos, de novo, muito longe. «Nestas condições, parte substancial das formas atípicas do emprego tende a ser precária: pouco qualificado, mal remunerado, carecendo, ao mesmo tempo, de protecção social, de possibilidade de aprendizagem e, por conseguinte, de progresso profissional».[37]

Capítulo VI
Metodologia

O tempo disponível para a realização do trabalho, bem como outros constrangimentos, condicionaram a escolha da metodologia.

Como instrumento de suporte à obtenção de informação que permitisse tirar conclusões minimamente sustentadas sobre a problemática em análise, procedeu-se à elaboração de um questionário.

O questionário foi distribuído a um grupo de indivíduos. Todos os indivíduos deveriam ter tido, pelo menos, uma experiência de trabalho por conta de outrem, sendo que presentemente poderiam estar numa situação de emprego ou desemprego.

No total foram recolhidos 32 questionários. Destes, 10 respeitavam a indivíduos desempregados e 22 a empregados.

No sentido de se obter um número igual de empregados e desempregados, foram eliminados 12 questionários de indivíduos empregados.

No grupo dos empregados, foram seleccionados 5 questionários de indivíduos que trabalham no sector Estado e 5 que trabalham no sector Privado.

No final chegou-se ao número de 20 questionários (10 de desempregados e 10 de empregados).
O questionário encerra um total de 16 questões, de resposta fechada, com escalas diferenciadas consoante a tipologia da questão colocada.

As questões colocadas no questionário pretendem reflectir a problemática equacionada na fase de enquadramento conceptual.

Para além destas 16 questões, as quais se constituem como perguntas de investigação, foram contempladas outras que se referem a variáveis de categorização geral.

Foi ainda colocado à disposição dos indivíduos que preencheram o questionário, um conjunto de afirmações que visavam caracterizar o perfil ideal de um trabalhador na óptica das entidades empregadoras. Competia aos indivíduos, seleccionar 3 características mais relevantes e 3 características menos relevantes.

Previamente à elaboração do questionário, procedeu-se ao levantamento da bibliografia, disponível, que se ajustasse ao tema deste trabalho.

A bibliografia seleccionada não se resume apenas a uma linha de pensamento ou se quisermos a um paradigma em concreto. Optou-se por visões diferenciadas sobre a mesma temática.

Para apresentar os dados resultantes da aplicação dos questionários, optou-se pela criação de diversos quadros que retratam as respostas obtidas a partir de diversas variáveis de caracterização geral, tais como: sexo, idade, concelho de residência, nível de instrução e vencimento.

São igualmente apresentados os resultados, globais, relativos às perguntas de investigação deste trabalho. Nestes resultados é apresentada a escala utilizada para a questão em concreto e sinalizado na mesma o parâmetro que corresponde à resposta mais frequente.
É igualmente apresentado um quadro geral com referência ao índice calculado para o total das respostas.

Este índice é obtido a partir da aplicação da técnica de operacionalização da variável.

A forma como se chegou à construção desta tabela será devidamente referenciada aquando da apresentação dos dados.

Capítulo VII
Apresentação de Resultados

Caracterização Geral

A apresentação de resultados inicia-se pela identificação dos aspectos de carácter geral e que permitem caracterizar socialmente os indivíduos que constituem o universo de estudo.

SEXO

Dos indivíduos que responderam ao questionário, 12 são do sexo feminino e 8 do masculino. Ou seja, 60% são do sexo feminino e 40% do masculino.

IDADE

O indivíduo mais novo tem 20 anos e o mais velho 60.
A média de idades é de 37 anos.
CONCELHO DE RESIDÊNCIA

O concelho de residência em que reside a maioria dos indivíduos é Setúbal: 9 (45%) indivíduos. Seguem-se os concelhos de Lisboa com 6 (30%) indivíduos, o Seixal com 2 (10%) indivíduos.
Restam 3 indivíduos que residem em concelhos distintos: Almada, Sesimbra e Loures.


NÍVEL DE INSTRUÇÃO

Dos vinte indivíduos, 5 (25%) possuem o 9º ano como nível de instrução, 5 (25%) o ensino secundário, 3 (15%) frequência universitária e o grupo maioritário: 7 (35%) licenciatura.
VENCIMENTO

No que concerne ao vencimento mensal auferido pelos indivíduos, verifica-se que 8 (40%) aufere um vencimento entre os 500 e os 100 euros, 6 (30%) até 500 Euros, 3 (15%) entre os 1000 e os 1500 Euros, 2 (10%) entre os 1500 e os 2000 Euros e apenas 1 (5%) aufere um vencimento mensal superior a 2000 Euros.

Respostas às Perguntas de Investigação

Concorda que o trabalho é muito importante para valorizar as pessoas?

A esta pergunta 14 (70%) indivíduos responderam concordar totalmente com a afirmação e 6 (30%) responderam concordar.
Importa referir que a totalidade das respostas, ou seja, 20 (100%) se situam apenas em dois parâmetros da escala: CONCORDO TOTALMENTE e CONCORDO.

Acha que os sindicatos são importantes para a defesa dos interesses dos trabalhadores?

Os sindicatos são importantes para 13 (65%) indivíduos, muito importantes para, 3 (15%), pouco importantes para 2 (10%) e nada importantes igualmente para 2 (10%).

As respostas estão distribuídas por todos os parâmetros da escala. Contudo, verifica-se uma concentração de respostas nos parâmetros mais elevados (MUITO IMPORTANTES e IMPORTANTES). Estes dois parâmetros representam 80% das respostas.
Concorda que os trabalhadores são prejudicados, pelas empresas, por serem sindicalizados?

As respostas situam-se apenas em dois parâmetros da escala: CONCORDO e DISCORDO. Dos 20 indivíduos, 8 (40%) respondem concordar e 12 (60%) discordar.

Pensa que as empresas escolhem primeiro os trabalhadores sindicalizados quando fazem despedimentos?

As respostas distribuem-se por todos os parâmetros da escala. Das 20 respostas, 11 (55%) respeitam ao parâmetro ÀS VEZES, 7 (35%) RARAMENTE. Os parâmetros MUITAS VEZES e NUNCA, apenas obtiveram 1 (10%) resposta cada.

Concorda que há trabalhadores não sindicalizados por recearem perder o emprego?

Das 20 respostas obtidas, 13 (65%) situam-se nos parâmetros CONCORDO TOTALMENTE e CONCORDO, 5 (25%) e 8 (40%), respectivamente.
As restantes 7 (35%), correspondem ao parâmetro DISCORDO TOTALMENTE.

Concorda que os trabalhadores defendem pouco os seus direitos por terem medo de ser despedidos?

A esmagadora maioria das respostas concentram-se no parâmetro CONCORDO – 12 (60%). Outro parâmetro com uma percentagem elevada de respostas é o CONCORDO TOTALMENTE com 6 (30%) respostas.
Apenas 2 (10%) respostas se situam no parâmetro DISCORDO.
Concorda que as empresas tratam pior os trabalhadores que exigem os seus direitos do que os trabalhadores menos exigentes?

Tal como na pergunta anterior, 12 (60%) indivíduos responde CONCORDO, apenas 2 (10%) respondem CONCORDO TOTALMENTE e 6 (30%) respondem DISCORDO.

Contudo, importa salientar que 14 (70%) das respostas se concentram nos parâmetros CONCORDO TOTALMENTE e CONCORDO.
Já receou perder o seu emprego por haver desempregados na sua profissão?

Das 20 respostas, 9 (56%) respeitam ao parâmetro ÀS VEZES, 5 (25%) referem-se ao parâmetro RARAMENTE, 3 (15%) ao parâmetro NUNCA e os restantes 3 (15%) ao parâmetro MUITAS VEZES.

Já pensou em trabalhar no estrangeiro caso fique desempregado(a)?

A esta pergunta responderam 8 (40%) indivíduos ÀS VEZES, 8 (40%) NUNCA, 3 (15%) MUITAS VEZES, 1 (5%) RARAMENTE.

Das respostas obtidas, 11 (55%), correspondem aos parâmetros MUITAS VEZES e ÀS VEZES.
Concorda que as pessoas que não são efectivas têm mais dificuldade em defender os seus direitos?

Das 20 respostas, 18 (90%), respeitam aos parâmetros CONCORDO TOTALMENTE e CONCORDO, 7 (35%) e 11 (55%), respectivamente.

As duas restantes respostas distribuem-se igualitariamente pelos parâmetros DISCORDO e DISCORDO TOTALMENTE.

Concorda que os desempregados são mal vistos pela sociedade em geral?

Das 20 respostas, 14 (70%) indivíduos responderam: 1 (5%) CONCORDO TOTALMENTE e 13 (65%) CONCORDO. Ou seja, estas respostas concentram-se em apenas 2 parâmetros.
As restantes 6 (30%) respostas respeitam ao parâmetro DISCORDO.
Concorda que quem está desempregado tem que se sujeitar a ter piores condições para obter mais facilmente um emprego?

Como se pode verificar pelo quadro abaixo, 17 (85%) das respostas respeitam ao parâmetro CONCORDO, 2 (10%) ao parâmetro DISCORDO e 1 (5%) ao parâmetro CONCORDO TOTALMENTE.

Sente que no seu emprego não lhe dão toda a informação sobre os seus direitos?

A esta pergunta responderam 10 (50%) indivíduos ÀS VEZES, 5 (25%), MUITAS VEZES, 3 (15%) RARAMENTE e 2 (10%) NUNCA.
Verifica-se ainda que 15 (75%) das respostas se concentram nos parâmetros MUITAS VEZES e ÀS VEZES.
Concorda que presentemente as pessoas sentem o emprego mais em risco do que no passado?

Esta pergunta apenas obteve respostas em dois parâmetros: CONCORDO TOTALMENTE e CONCORDO.
Responderam CONCORDO TOTALMENTE 14 (70%) e CONCORDO 6 (30%).

Concorda que a vinda de estrangeiros para Portugal está a provocar muito desemprego?

A esta resposta responderam 13 (65%) indivíduos com os parâmetros CONCORDO TOTALMENTE e CONCORDO. 8 (40%) CONCORDO e 5 (25%) CONCORDO TOTALMENTE, respectivamente.

Os restantes 7 (35%) indivíduos responderam DISCORDO.
Considerando as escalas utilizadas e os valores respeitantes às respostas mais frequentes, obtém-se o seguinte resultado global, utilizando a técnica de operacionalização da variável.

Neste caso optou-se por apresentar apenas os indicadores, uma vez que estes coincidem com as perguntas de investigação, dispensou-se assim a apresentação das diversas dimensões.

O valor proporcional foi calculado tendo por base o número de parâmetros de cada escala. Todas as escalas apresentam 4 parâmetros.
Por outro lado, a cada indicador (pergunta de investigação), foi atribuído um valor referente ao grau de importância.
O valor total obtém-se pela multiplicação do VALOR PROPORCIONAL pelo GRAU DE IMPORTÂNCIA.

Finalmente para calcular o índice divide-se o somatório do TOTAL pelo somatório do GRAU DE IMPORTÂNCIA.

Índice = 12108/161

75%

Para além das perguntas de investigação, importa ainda dar alguma atenção ao conjunto de 8 afirmações que visam identificar a perspectiva dos indivíduos, alvo do inquérito por questionário, no que concerne aos aspectos mais e menos valorizados pelas entidades empregadoras no que respeita ao perfil do trabalhador.

Os indivíduos deveriam identificar os 3 critérios mais relevantes e os 3 menos relevantes.
Os resultados obtidos são os seguintes:

Aspectos Mais e Menos Importantes para as Entidades Empregadoras na óptica dos Indivíduos Questionados

Afirmações

Pessoas competentes.

Pessoas com disponibilidade para trabalhar fora do horário de trabalho sem receber o pagamento de horas extra.

Pessoas que sabem trabalhar com novas tecnologias.

Pessoas que recebem ordens sem fazer perguntas.

Pessoas que gostam de dar a sua opinião.

Pessoas que gostam de se valorizar (exemplo: trabalhadores que decidem voltar a estudar).

Pessoas que nunca faltam.

Pessoas que gostam de defender os seus direitos.

Pessoas que informam os seus superiores sobre tudo o que se passa no local de trabalho.

Pessoas mais novas e que por isso se sujeitam a receber salários mais baixos.

As afirmações mais vezes escolhidas (3 mais e 3 menos) foram:

Aspectos Mais Valorizados pelas entidades Empregadoras

Pessoas competentes.

Pessoas com disponibilidade para trabalhar fora do horário de trabalho sem receber o pagamento de horas extra.

Pessoas que nunca faltam.

Aspectos Menos Valorizados pelas entidades Empregadoras

Pessoas que gostam de dar a sua opinião.

Pessoas que gostam de se valorizar (exemplo: trabalhadores que decidem voltar a estudar).
Pessoas que gostam de defender os seus direitos.


Capítulo VIII
Análise dos Dados

Os resultados obtidos com base na aplicação dos questionários, aos 20 indivíduos que constituem a população utilizada neste trabalho, revelam que a esmagadora maioria das respostas vão ao encontro das problemáticas levantadas na fase de enquadramento conceptual. Ou seja, as respostas indiciam da parte dos indivíduos uma preocupação acentuada com as questões da manutenção do emprego e da manutenção/perda de direitos sociais.

De facto, das respostas obtidas, apenas a respeitante à questão: Concorda que os trabalhadores são prejudicados, pelas empresas, por serem sindicalizados? Obtém uma resposta que se situa num parâmetro da escala – DISCORDO – que revela uma menor preocupação sobre as consequências que este direito poderá ter para a manutenção do emprego.

Contudo, se esta questão for articulada com outras de conteúdo similar, verifica-se que as respostas se concentram num parâmetro em que as preocupações sobre as consequências que podem advir para a manutenção do emprego, pelo facto de se ser sindicalizado, vêm ao de cima.
Por outro lado, importa ainda realçar as respostas obtidas às perguntas:

Concorda que o trabalho é muito importante para valorizar as pessoas?

Concorda que presentemente as pessoas sentem o emprego mais em risco do que no passado?

As respostas situam-se no parâmetro mais elevado, indiciando por um lado que o emprego é de facto algo central para os indivíduos e que «o trabalho é habitualmente valorizado pelo sentido da identidade social estável que oferece».[39]

Os artigos de jornal, abaixo apresentados, servem igualmente para documentar a insegurança vivida nos dias que correm por quem detém um emprego e receia poder vir a perdê-lo:

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?article=299903&visual=26, Janeiro 2008.


http://jn.sapo.pt/2007/11/17/economia_e_trabalho/desemprego_continua_a_fustigar_a_pop.html, Novembro 2007.

http://www.maraoonline.com/MARAO/MARAO_online_Novembro/1024DB0F-30FD-4BC5-8318-74FBFFDD49BC.html, Novembro de 2007.

A concordância por parte dos indivíduos é evidente quando são questionados sobre a perda de direitos como condição para se regressar mais rapidamente ao mercado de trabalho, bem como o facto dos desempregados serem mal vistos socialmente.

Estas situações conduzem à quase inevitabilidade da degradação dos direitos sociais para que se possa rapidamente regressar ao mercado de emprego. «A probabilidade dos indivíduos se verem enredados na armadilha do desemprego (desemprego-emprego precário-desemprego) aumenta à medida que aumenta o período de desemprego e se agudiza a urgência em regressar ao mercado de trabalho que se acentua com a pressão financeira e a pressão exercida, pelo estado social ou pela família, para que os desempregados retornem ao mercado de trabalho independentemente das condições de reentrada».[40]

Deve igualmente evidenciar-se as razões mais vezes identificadas pelos indivíduos como características menos valorizadas pelas entidades empregadoras no perfil de um trabalhador. Destas características, destacam-se a defesa dos direitos como elemento menos valorizado pelos empregadores, bem como o direito dos trabalhadores produzirem opinião.

Resumindo, parece claro que a esmagadora maioria das respostas aponta para a preocupação, para o medo, que decorre da possibilidade de perda do emprego e para os constrangimentos que a ameaça do desemprego ou a precariedade do emprego constituem para a defesa dos direitos adquiridos. «Diversos autores se referem à inibição dos trabalhadores na manifestação da sua inconformidade por medo de perder o emprego…». [41]

Conclusões

O ponto de partida era verificar se o medo do desemprego condiciona, determina e influência a perda de direitos sociais.

Pela informação produzida ao longo deste trabalho, tanto ao nível do enquadramento conceptual, como nas fases de apresentação de resultados e de análise dos dados, parece que fica, minimamente, demonstrado que estes dois factores estão correlacionados – medo do desemprego e perda de direitos sociais – constituindo-se como foco de preocupação para os indivíduos em geral e em particular para quem tem condições laborais mais precárias ou para quem já perdeu o emprego e pretende rapidamente regressar ao mercado de trabalho. «…a precarização do trabalho consiste em muito mais do que o medo do desemprego. Engloba também ansiedades quanto às transformações do próprio trabalho e quanto aos efeitos desta transformação na saúde dos empregados e na sua vida pessoal».[42]

Parece igualmente ser uma realidade, pelo menos para os indivíduos que responderam ao questionário e para os autores de algumas das obras que constituem a bibliografia deste trabalho, que os direitos sociais são um elemento pouco valorizado pelo capital, sendo mesmo um factor que pode condicionar a manutenção do emprego ou a obtenção de um novo emprego. «Nós produzimos a questão social é problema dos governos, não nossa.»[43]

Importa ainda destacar a relevância do emprego como elemento central na vida de muitos indivíduos, funcionando como uma fonte de rendimento para que estes possam fazer face às necessidades do dia-a-dia, mas igualmente como elemento integrador na sociedade e valorizador da sua dimensão pessoal. «…qualquer cidadão, para se sentir realizado, tem de se sentir útil, mas ainda portador de direitos sociais».[44]

Por outro lado a conjuntura actual de crescente crise a diversos níveis, faz com que os indivíduos desenvolvam «…Um sentimento de receio a respeito da estabilidade futura da sua posição e do seu papel no local de trabalho».[45]

Esta temática é suficientemente rica e complexa para merecer uma abordagem mais aprofundada, designadamente através da utilização de uma metodologia mais qualitativa e que proporcionasse um conhecimento mais aprofundado sobre a opinião dos indivíduos relativamente à temática e permitisse assim a obtenção de resultados mais enriquecedores.
Seria igualmente interessante obter e analisar a opinião dos detentores do capital sobre os temas aqui abordados.

Contudo, crê-se que os objectivos desenhados à partida foram, se não na totalidade, grandemente atingidos.

Importa ainda, não terminar este trabalho sem um sinal de esperança, referindo que o desemprego pode ser abordado como um novo ciclo e uma nova oportunidade e lembrar que «estar desempregado é um emprego a tempo inteiro».

Bibliografia

Livros

Kovács, Ilona, As Metamorfoses do Emprego, Celta, Oeiras, 2002;

Freire, João, Sociologia do Trabalho Uma Introdução, Edições Afrontamento, Porto, 3ª edição, 2002;

Dias, Fernando Nogueira, O Medo Social e os Vigilantes da Ordem Emocional, Instituto Piaget, Lisboa, 2007;

MORIN, Edgar, O Paradigma Perdido e a Natureza Humana, Publicações Europa-América, Mem Martins, 6ª edição, 2000;

Marx, Karl, O capital, Edições 70, Lisboa, 4ª edição, 1976;

Marx, Karl e Engels, F., O manifesto do Partido Comunista, Edições Avante, Lisboa, 4ª edição, 1997;

Durkheim, Emile, A Divisão do Trabalho Social, II Volume, Editorial Presença, Lisboa

Giddens, Anthony, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 5ª edição, 2007;

Pedro Araújo, A Tirania do Presente do Trabalho Para a Vida às Incertezas do Desemprego, Quarteto, Coimbra, 2008;

Silva, Manuel Carvalho da, Trabalho e Sindicalismo em Tempo de Globalização, Circulo de Leitores, Lisboa, 2007;

Dumont, René e Paquet, Charlotte, Miséria e Desemprego Liberalismo ou Democracia, Instituto Piaget, Lisboa.

Páginas Web

Castelhano, Laura Marques, O Medo do Desemprego e As Novas Organizações do Trabalho, www.scielo.br/pdf/psoc/v17n1/a03v17n1.pdf, p. 15. Junho de 2008;

Imagens referentes a processos de desemprego



Citações


[1] Ilona Kovács, As Metamorfoses do Emprego, Celta, Oeiras, 2002, p. 1.
[2]Retirado de http://metaweb.ine.pt/sim/conceitos/conceitos.aspx?ID=PT, Junho de 2008.
[3] Retirado de http://www.iefp.pt/estatisticas/Documents/GLOSSARIO_VERSAOFINAL.pdf, Junho de 2008.
[4] João Freire, Sociologia do Trabalho Uma Introdução, Edições Afrontamento, Porto, 3ª edição, 2002, p. 195.
[5] João Freire, Op. Cit.,, p. 197.
[6] Fernando Nogueira Dias, O Medo Social e os Vigilantes da Ordem Emocional, Instituto Piaget, Lisboa, 2007, p. 33.
[7] Retirado de http://www.ilo.org/public/portugue/region/eurpro/lisbon/pdf/constitucao.pdf, Junho de 2008.
[8]Edgar Morin, O Paradigma Perdido a Natureza Humana, Europa-América, Mem Martins, 6ª edição, 2000, p. 176.
[9] Karl Marx, O capital, Edições 70, Lisboa, 4ª edição, 1976, p.123.
[10] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, Edições Avante, Lisboa, 4ª edição, 2004, p.43.
[11] Edgar Morin, Op. Cit., p. 176 e 177.
[12] Emile Durkheim, A Divisão do Trabalho Social, II Volume, Editorial Presença, Lisboa, p.200 e 201.
[13] Anthony Giddens, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 5ª edição, p. 381.
[14] Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Direitos_sociais, Junho de 2008.
[15] Fábula de Jean de La Fontaine.
[16] Pedro Araújo, A Tirania do Presente do Trabalho Para a Vida às Incertezas do Desemprego, Quarteto, Coimbra, 2008, p. 84.
[17] Anthony Giddens, Op. Cit., p. 377.
[18] Manuel Carvalho da Silva, Trabalho e Sindicalismo em Tempo de Globalização, Circulo de Leitores, Lisboa, 2007, p. 458.
[19] Fernando Nogueira Dias, Op. Cit.., p.107.
[20] Ibidem, P. 107.
[21] Anthony Giddens, Op. Cit., p. 303.
[22] Ilona Kovács, Op. Cit., p. 2.
[23] Karl Marx, Op. Cit., p. 125.
[24] Pedro Araújo, Op. Cit., p.35.
[25] Ibidem, p.24.
[26] Laura Marques Castelhano, O Medo do Desemprego e As Novas Organizações do Trabalho, retirado de www.scielo.br/pdf/psoc/v17n1/a03v17n1.pdf, p. 15. Junho de 2008.
[27] Ibidem, p. 16.
[28] Anthony Giddens, Op. Cit., p. 415.
[29] Karl Marx, Op. Cit., p. 125.
[30] Manuel Carvalho da Silva, Op. Cit. p. 44.
[31] A contratação a termo certo apenas é permitida nas seguintes situações:
1 - O contrato de trabalho a termo só pode ser celebrado para a satisfação de necessidades temporárias da empresa e pelo período estritamente necessário à satisfação dessas necessidades.
2 - Consideram-se, nomeadamente, necessidades temporárias da empresa as seguintes:
a) Substituição directa ou indirecta de trabalhador ausente ou que, por qualquer razão, se encontre temporariamente impedido de prestar serviço;
b) Substituição directa ou indirecta de trabalhador em relação ao qual esteja pendente em juízo acção de apreciação da licitude do despedimento;
c) Substituição directa ou indirecta de trabalhador em situação de licença sem retribuição;
d) Substituição de trabalhador a tempo completo que passe a prestar trabalho a tempo parcial por período determinado;
e) Actividades sazonais ou outras actividades cujo ciclo anual de produção apresente irregularidades decorrentes da natureza estrutural do respectivo mercado, incluindo o abastecimento de matérias-primas;
f) Acréscimo excepcional de actividade da empresa;
g) Execução de tarefa ocasional ou serviço determinado precisamente definido e não duradouro;
h) Execução de uma obra, projecto ou outra actividade definida e temporária, incluindo a execução, direcção e fiscalização de trabalhos de construção civil, obras públicas, montagens e reparações industriais, em regime de empreitada ou em administração directa, incluindo os respectivos projectos e outras actividades complementares de controlo e acompanhamento.
3 - Além das situações previstas no n.º 1, pode ser celebrado um contrato a termo nos seguintes casos:
a) Lançamento de uma nova actividade de duração incerta, bem como início de laboração de uma empresa ou estabelecimento;
b) Contratação de trabalhadores à procura de primeiro emprego ou de desempregados de longa duração ou noutras situações previstas em legislação especial de política de emprego.
Retirado de http://www.mtss.gov.pt/docs/Cod_Trabalho.pdf, Junho 2008.
De acordo com o EUROSTAT, Portugal é o terceiro país na UE a 27 com uma percentagem de contratos a termo certo mais elevada: Portugal 22.9%, Polónia, 28.4%, Espanha, 30.9%. A média da UE é de 14.4%.
Retirado de http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITY_OFFPUB/KS-QA-08-014/EN/KS-QA-08-014-EN.PDF, Junho de 2008.
[32] Ilona Kovács, Op. Cit., p. 83.
[33] Pedro Araújo, Op. Cit. p. 25.
[34] Manuel Carvalho da Silva, Op. Cit. p. 461.
[35] Ibidem, p. 59.
[36] Laura Marques Castelhano, Op. Cit., p. 15.
[37] Ilona Kovács, Op. Cit., p. 84.
[39] Anthony Giddens, Op. Cit., p. 377.
[40] Pedro Araújo, Op. CIt., p. 116.
[41] Laura Marques Castelhano, Op. Cit., p. 18.
[42] Anthony Giddens, Op. Cit., p. 415.
[43] René Dumont e Charlotte Paquet, Miséria e Desemprego Liberalismo ou Democracia, Instituto Piaget, Lisboa, 1994, p. 96.
[44] Manuel Carvalho da Silva, Op. Cit., 458.
[45] Ibidem, p. 413.

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