Introdução
É recorrente proceder-se de forma sistemática a um erro de avaliação sobre aqueles que nos antecederam: os nossos antepassados. Consideramos com demasiada frequência e simplicidade, que somos superiores àqueles que cá estiveram antes de nós.
Temos tendência a analisar o presente e o passado, com os “óculos” que nos deram. Esses “óculos” estão impregnados com os preconceitos resultantes do nosso processo de socialização, ou seja, a forma como fomos ensinados a ver o mundo e tudo o que nele se passa.
A nossa capacidade de discernimento fica toldada e prisioneira dos preconceitos próprios da nossa época.
A visão que temos do passado e em particular do tempo primordial e longínquo, em grande medida está distorcida e fortemente condicionada pelo pensamento Iluminista.
O pensamento Iluminista, criou a ideia de que o desenvolvimento Humano se faz de forma progressiva e continua, pelo que, por esta lógica, quem nos precede é sempre, necessariamente, menos dotado intelectual e tecnologicamente do que aqueles que nos sucedem.
Esta linha de pensamento está igualmente presente na concepção que se tem da origem da religião e do divino.
Tendemos a crer que a religião nas sociedades primitivas surge como necessidade do Homem encontrar uma explicação para os diversos fenómenos naturais que se passavam à sua volta e de certa forma como mecanismo propiciador de acalmia e de tranquilidade.
Resumindo, a religião teria surgido como meio de defesa dos medos de que o Homem padecia.
Encontramos pois uma relação entre medo e religião.
Este pequeno trabalho que proponho desenvolver, visa de forma humilde e titubeante, apresentar uma perspectiva, pessoal, embora suportada por algum lastro de conhecimento científico, sobre a religião e a sua estreita relação com o medo.
Sendo a visão de um ateu sobre a religião, reconheço que à partida dificilmente conseguirei ser isento.
O Primórdios - Religião e Divino como resposta ao Medo
O Homem receia e tem medo essencialmente do desconhecido, como tal e desde os primórdios dos tempos que procura o seu semelhante e vive em comunidade. «Se a natureza faz juntar os indivíduos, tal como um grupo de animais para se sentirem seguros, formando um colectivo, estes quando desamparados da colectividade, confrontam-se com o pânico e o medo do seu isolamento»[1].
Tal como o Homem sentiu necessidade de viver em comunidade, para se defender dos diversos medos que o assaltavam, também a religião e a ideia de divino surgem como resposta à necessidade de explicar o que para Ele era inexplicável.
A ideia de divino e de religião nasceu por volta do período Neolítico já na presença do Homo sapiens.
Os primeiros ritos, que sugerem uma perspectiva religiosa, terão ocorrido como resposta do Homem a um dos seus principais medos: o medo da morte.
Estes ritos estão relacionados com as cerimónias fúnebres e de enterramento dos mortos. «Ao mesmo tempo que o túmulo nos assinala a presença e a força do mito, os funerais assinalam-nos a presença e a força da magia»[2]
A ideia do religioso é aqui expressa como forma de explicar fenómenos incompreensíveis para o Homem e ao mesmo tempo como elemento anestesiador e apaziguador da sua consciência.
Temos pois uma religião em sintonia com as necessidades do Homem. Uma religião que permite ao Homem encontrar as respostas para as suas inquietações.
A Institucionalização da Religião e o Medo como Instrumento de Poder
A Institucionalização, em particular da religião fundada na figura de Jesus Cristo, traz para o seu interior um conjunto de comportamentos que desvirtuam a ideia original de religião.
A religião deixa de ser um elemento apaziguador e passa a ser um instrumento de poder e de exercício desse mesmo poder.
Não é alheio a este princípio, o facto da igreja cristã ter sido institucionalizada pelo Império Romano. Império esse que se constituía historicamente como um dos seus principais opositores e um dos responsáveis pela morte do seu fundador: Jesus Cristo.
A institucionalização do cristianismo como religião oficial de Roma, não foi mais do que uma forma de ajustar a religião aos interesses do estado.
A partir de então, estado e religião passaram a confundir-se e a zelar mutuamente pelos seus interesses.
O cristianismo defende que os Homens devem ser corajosos e como tal recrimina aqueles que se deixam influenciar pelo medo. De alguma forma apresenta o medo como um pecado. «No amor não há medo. Antes o perfeito amor lança fora o medo, porque o medo produz tormento. Aquele que teme não é aperfeiçoado em amor»[3]
Contudo, paradoxalmente, é o próprio cristianismo, em particular a Igreja Católica, que utiliza o medo, materializado na figura dos pecados mortais ou do inferno, como mecanismo de controlo dos comportamentos humanos.
Seria fácil e fastidioso, enumerar as inúmeras barbaridades praticadas pela igreja católica ao longo dos muitos séculos da sua história.
Contudo, é importante referir alguns dos episódios mais marcantes em que o medo é um elemento primordial.
Desde logo, no seu começo enquanto religião oficial do Império Romano, a igreja Católica, para além de não contribuir para a eliminação de uma sociedade marcadamente esclavagista, não demorou a encetar uma perseguição desenfreada aos seguidores dos cultos pagãos.
«O massacre de Tessalônica devido a uma rebelião pagã deixa clara esta posição do imperador. Um dos conflitos entre a nova religião do Império e a tradição pagã consistiu na condenação da homossexualidade, uma prática comum na Grécia antes e durante o domínio romano»[4].
Pode dizer-se que no que concerne à religião católica, o período da sua institucionalização enquanto religião oficial de Roma, constitui o inicio do processo de desmontagem e deturpação do conceito inicial de religião. Se religião significa religar o Homem a Deus, o que a igreja católica fez foi exactamente o inverso, ou seja, desligar o Homem de Deus.
A religião deixou de ser celebração e passou a ser medo. A religião deixou de ser um acto de exaltação da vida e transformou-se num instrumento de poder e de imposição de vontades.
Todos os restantes episódios trágicos da prática do catolicismo, não são mais do que o resultado de um processo, tragicamente, evolutivo, que resulta no aumento do seu poder destruidor. Não nos esqueçamos das cruzadas, supostos actos de fé de propagação do cristianismo que originaram a perda de milhares de vidas Humanas e de civilizações milenares; a santa inquisição que espalhava o terror e a morte por todos aqueles que ousassem contrariar os princípios sacro santos da santa madre igreja; culminando no século XX com uma vergonhosa atitude de fechar os olhos ao holocausto nazi que dizimou cerca de seis milhões de Judeus.
Outros episódios poderiam ser descritos para documentar a atitude pouco “cristã” da igreja católica, mas estes certamente que são suficientes para ligar o medo à prática religiosa.
Conclusão
Pode pois resumir-se dizendo que as religiões em geral e a católica em particular, estão suportadas no medo como elemento basilar da sua existência. «Eu gosto de Deus, mas tenho medo d’Ele. Deus gosta de mim, mas abomina o que eu faço, caso lhe desagrade»[5]
As religiões, que não apenas a católica (exemplo disso são as ameaças diárias e actos de terrorismo praticado em nome da religião Islâmica que resultam em verdadeiros actos de pura barbárie), são uma fonte que propaga o medo, de carácter ontológico e social, e dele se alimenta como forma de sobreviver e de expandir o seu poder.
A religião transformou-se em arma de arremesso e instrumento político.
Posto isto importa finalizar com uma interrogação: terá sido Deus a criar o Homem à sua imagem, ou antes o Homem a criar Deus como forma de impor a sua vontade a outros homens?
«O Criador confunde-se com a criatura».
Bibliografia
DIAS, Fernando Nogueira, «O Medo Social e os Vigilantes da Ordem Emocional», Instituto Piaget, Lisboa, 2007
MORIN, Edgar, «O Paradigma Perdido e a Natureza Humana», Publicações Europa-América, Mem Martins, 6ª edição, 2000
[1] In, Dias, Fernando Nogueira, «O Medo Social e os Vigilantes da Ordem Emocional», Instituto Piaget, Lisboa, 2007, p. 8.
[2] In, Morin, Edgar, «O Paradigma Perdido e a Natureza Humana», Publicações Europa-América, Mem-Martins, 6ª edição, 2000, p.95.
[3] In, João, São «Biblia» 1 jo 4, 18
[4] In, Wikipédia, http://pt.wikipedia.org/wiki/Imp%C3%A9rio_Romano#O_Imp.C3.A9rio_crist.C3.A3o, 2008.
[5] In, Dias, Fernando Nogueira, Idem, p. 120.


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