Introdução
O mundo rural funcionou durante largos milhares de anos como uma referência para o Homem. Era neste mundo que tudo de importante se passava, era ele que determinava a subsistência da Humanidade através da produção de alimentos e que funcionava como referência social e cultural.
Pode pois dizer-se que desde que o Homem começou a trabalhar de forma sistemática a terra como fonte de produção regular de alimento, o que ocorreu há cerca de doze mil anos, que o espaço rural se constituiu como um referencial de modernidade e de salvaguarda da satisfação das necessidades básicas do ser Humano. «A agricultura, a base necessária à fixação de aglomerados, tem apenas doze mil anos[1]».
Durante todo este período e até há cerca de dois séculos, era igualmente a agricultura a principal actividade humana responsável pela ocupação da mão-de-obra. A quase inexistência de mecanização na agricultura obrigava ao emprego de trabalho intensivo. Este factor implicava que a mão-de-obra disponível para o desenvolvimento de outras actividades fosse bastante escassa.
De “repente” esta ordem estabelecida ao longo de diversos séculos foi abalada pelo advento da revolução industrial e primeiramente pela revolução operada na própria exploração da terra.
De facto a revolução industrial desenvolve-se, em particular no Reino Unido, graças à revolução agrícola operada durante o inicio do século XVIII e que proporcionou, designadamente, a libertação de mão-de-obra necessária para o trabalho na indústria. «O segundo factor que facilitou o desenvolvimento da economia inglesa foi a disponibilidade de uma mão-de-obra muito numerosa, resultante do êxodo rural provocado pelo movimento das enclosures. Trata-se, no fundo, de estabelecer uma relação entre a chamada revolução agrícola e a Revolução Industrial[2]».
Este factor vem criar um novo paradigma de modernidade. A civilização rural passa à condição de pré-moderna e o papel de vanguarda é assumido e desempenhado pela cidade. «A revolução industrial iniciada no século XVIII veio alterar a situação anterior. Na realidade, a emergência de uma nova sociedade urbano-industrial acarretou duas consequências principais para as áreas rurais. Por um lado, inicia-se um acentuado processo de perda de centralidade económica, social e simbólica por parte do mundo rural.
Por outro lado, este tende a ser globalmente identificado com realidades arcaicas, enquanto as aglomerações urbano-industriais são vistas como o palco, por excelência, do progresso[3]».
Um dos aspectos que continua a marcar a diferença entre mundo rural e mundo urbano centra-se na divisão e na tipologia do trabalho. No mundo rural continua presente uma actividade central, a agricultura, enquanto que a cidade disponibiliza uma panóplia infindável de actividades económicas e consequentemente de profissões.
Também a família apresenta características diferentes. A família rural caracterizava-se por ser alargada, abarcando no mesmo espaço físico diversas gerações e constituía-se como uma autêntica “unidade de produção”. Ou seja, a família tendia para a auto-suficiência. Os elementos da família proporcionavam a força de trabalho necessária à produção agrícola e à venda de excedentes.
Em oposição a família urbana tende a ser mais reduzida e normalmente trabalha em actividades industriais ou de serviços e depende de um salário como meio de subsistência.
Esta caracterização, sumária, do mundo rural e da transformação potenciada pela revolução industrial no aparecimento das grandes cidades e consequentemente da modernidade e urbanidade que hoje se constituem como o motor do desenvolvimento económico, social e cultural, visa enquadrar o texto que a seguir se passa a comentar e a compreender mais facilmente a realidade que este pretende transmitir.
Resumo do Texto
O texto Migrações sazonais de seareiros produtores de melão - «entre a casa e a barraca»[4] relata aspectos relacionados com a vida de famílias de seareiros da região do Ribatejo. O período a que respeita o estudo situa-se entre os anos de 1960 e meados da década de 1970.
A actividade de seareiros, caracteriza-se pela sua sazonalidade, ou seja, desenvolve-se num período específico do ano, neste caso entre finais de Março inicio de Abril e decorre durante cerca de 6 meses.
A situação em análise refere-se a seareiros de melão.
Estas famílias dedicavam-se a tempo inteiro à actividade agrícola, como assalariados ou como pequenos agricultores, e desenvolviam esta actividade como forma de reforçarem o seu orçamento familiar.
Durante o período da safra do melão os seareiros tornavam-se rendeiros de pequenas parcelas de terreno. O tamanho do terreno variava proporcionalmente e em razão da dimensão das famílias e consequentemente da mão-de-obra disponível para assegurar as diversas actividades.
As terras eram-lhes subarrendadas por médios ou grandes agricultores rendeiros da Companhia das Lezírias[5]
Considerando que se tratava de uma actividade sazonal não localizada geograficamente na área de residência das famílias seareiras, era necessário que estas se deslocassem fisicamente para o local onde se desenvolvia a actividade de cultivo do melão e lá montassem uma “residência”provisória. A residência era, invariavelmente, uma barraca construída a partir de placas de madeira e com cobertura de zinco.
A mão-de-obra necessária para assegurar as diversas actividades e tarefas diárias relacionadas com a safra do melão, e demais aspectos, era quase sempre exclusivamente assegurado pela família. Raramente se recorria a mão-de-obra assalariada. Em alguns casos as famílias apoiavam-se mutuamente sempre que necessário, trabalhando nas explorações umas das outras.
A divisão do trabalho é algo bastante rígido e perfeitamente entendido pelos elementos das famílias. O homem assume o papel de “líder natural” e chama a si todas as tarefas mais complexas e de maior responsabilidade. A mulher e os restantes membros da família, quase sempre filhos, são os executantes.
A divisão do trabalho social faz-se em razão do sexo. Os rapazes começam a executar tarefas que tradicionalmente são exercidas pelo pai e as filhas auxiliam a mãe.
Existe uma relação muito rígida com o dinheiro. O esbanjamento em produtos não estritamente necessários é visto como algo quase que imoral e por isso alvo de critica por parte dos elementos da comunidade.
Normalmente os proveitos, lucro, obtidos nas searas de melão, são aplicados prioritariamente na aquisição de terreno para a construção de habitação própria. O dinheiro tem igualmente outros destinos tais como: poupança para fazer face a eventuais doenças e à velhice, período em que as pessoas são mais vulneráveis, e também para suportar as despesas inerentes à realização da cerimónia de casamento dos filhos.
Os seareiros para além de apoiarem financeiramente os seus filhos, garantindo que estes venham a ter condições de vida mais favoráveis do que eles tiveram, transmitem igualmente, às gerações futuras, os valores que são próprios da cultura e vivência rural. Um dos valores mais importantes a preservar é a prevalência dos valores da família sobre interesses individuais.
Tal como é próprio nos pequenos agricultores, também as famílias de seareiros não cultivavam exclusivamente o melão. Era sempre reservada uma parcela de terrenos para a produção de outros produtos agrícolas e criação de animais, como forma de tornar a família auto-suficiente em termos do seu sustento e assim evitar gastos adicionais com a aquisição de produtos alimentares no mercado.
Os pequenos períodos de tempo que não eram dedicados à actividade agrícola, eram destinados ao convívio com os vizinhos. Normalmente esta interacção era efectuada pelo homem – chefe de família. As mulheres dedicavam-se essencialmente às actividades da lida da casa.
No período da apanha do melão está igualmente presente a divisão das tarefas agrícolas em função do sexo. O homem dedicava-se à apanha do melão, actividade considerada “nobre” e com muita influência na qualidade final do produto e como tal no lucro que daí pudesse resultar.
Após a apanha do melão, ou concomitantemente, o homem tinha que se preocupar com os aspectos relacionados com a comercialização do produto e com a determinação do melhor momento para o colocar no mercado.
Normalmente os produtos eram vendidos a intermediários, sendo que o contrato era formalizado à boa maneira rural, ou seja, com base na palavra dada.
Com a venda do produto era tempo de voltar à casa de todos os dias e de fazer contas à vida. O seareiro rendeiro volta à sua condição de assalariado ou de pequeno agricultor e normalmente ia de imediato iniciar outra actividade também ela de carácter sazonal: a vindima.
O relato até agora apresentado, caracteriza as vivências dos seareiros de melão dos anos de 1960 e do inicio da década de 1970. A partir de 1974 por diversos aspectos a que a revolução de Abril não será necessariamente estranha, mas também a outros factores, a tipologia do seareiro sofre alterações significativas.
O seareiro deixa de ser exclusivamente trabalhador agrícola ou pequeno agricultor e é principalmente operário ou pequeno empresário.
A diminuição significativa dos custos das rendas incentiva o aparecimento de novos seareiros, muitas vezes filhos dos seareiros de que atrás falámos.
Para além das alterações ao nível da actividade profissional principal dos seareiros e dos custos da renda, existem outras alterações que se centram ao nível da introdução de novas tecnologias, tais como a mecanização e o surgimento de adubos e fertilizantes químicos, bem como a introdução das estufas de plástico.
Por outro lado o seareiro deixa de andar com a casa às costas e a velha barraca serve essencialmente para guardar os produtos agrícolas.
O seareiro trabalha na sua actividade profissional durante a semana e apenas ao fim de semana se dedica à produção do melão. A força de trabalho é essencialmente assalariada.
A mulher assume uma maior autonomia e é a ela que compete a gestão diária da actividade produtiva. É igualmente a quem compete transportar os assalariados.
Análise Sociológica
O texto que foi resumido apresenta um conjunto de características e de conceitos que estão presentes no mundo rural e mais em particular na sociedade campesina.
Desde logo é notório o facto de ser apresentada a família como motor da actividade económica, neste caso a agricultura. A família é quase sempre auto-suficiente, fornecendo a força de trabalho necessária à execução das tarefas e produzindo os produtos necessários à sua sobrevivência. «A força de trabalho reside, de base, na família, explorada e rentabilizada aos seus potenciais máximos, embora só o trabalho do homem e da mulher seja contabilizado como custo de produção[6]»
Também neste caso os produtos excedentes eram vendidos no mercado como forma de assegurarem a aquisição de bens que não obtinham através da autoprodução.
Economicamente caracterizam-se por serem pequenos agricultores, característica marcante das sociedades campesinas, embora neste caso estejam também presentes trabalhadores agrícolas assalariados.
A divisão do trabalho é feita em razão do sexo, cabendo ao homem o papel mais preponderante. «As tarefas são realizadas pelo homem, mulher e filhos na observância duma definição/ divisão sexual e etária do trabalho[7]».
Existe uma forte solidariedade mecânica, sendo esta incentivada e passada de pais para filhos, garantindo-se a coesão social e familiar. O colectivo deve prevalecer sobre o individual. Os valores são transmitidos intergeracionalmente garantindo-se a manutenção de uma cerca consciência colectiva, ou seja, a existência de valores e de princípios comuns à maioria dos indivíduos.
Está igualmente presente o respeito característico das sociedades campesinas pelo dinheiro.
Devido à escassez de recursos financeiros tudo é rentabilizado ao máximo, não são toleradas despesas que não se justifiquem. O controlo social a este nível é bastante forte. Identifica-se um sistema de sanções, recompensa ou punição consoante a situação, que visam reforçar o controlo social. «O esbanjamento só é tolerado quando é limitado pela regulação social das práticas em que se joga o bom nome da família e se luta pelo prestígio».
As relações comerciais assentam em princípios de boa fé e confiança, outra característica da cultura campesina.
Tal como se verificou na sociedade campesina, essencialmente devido aos movimentos migratórios, também neste caso a actividade agrícola passou, em muitos casos, a ser complementar à actividade operária. «…a fábrica foi também o fim da necessidade de emigrar e o complemento necessário ao orçamento familiar dos pequenos camponeses, a braços com uma propriedade extremamente dividida[8]».
O facto da actividade agrícola passar a ter um estatuto de subalternização relativamente à actividade industrial, permitiu que a mulher desempenhasse um papel social mais relevante e logo adquirisse um status mais proeminente no âmbito do desenvolvimento das tarefas agrícolas.
Processou-se portanto uma alteração significativa ao nível da divisão do trabalho em razão do sexo. «A divisão sexual do trabalho e dos lugares a que outrora deu abrigo, transmutou-se[9]».
Bibliografia
Giddens, Anthony, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 5ª Edição, 2007
Ferrão, João, http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0250-71612000007800006, 2008
Martins, José Joaquim Garrucho,http://home.utad.pt/~des/cer/CER/CONTEUDO/05D.HTM, 2008
Lourenço, Nelson, Família Rural e Industria, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1991
Citações
[3] In, Ferrão, João, http://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0250-71612000007800006, 2008
[5] A Companhia das Lezírias é a maior exploração agro-pecuária e florestal existente em Portugal, compreendendo a Lezíria de Vila Franca de Xira, a Charneca do Infantado, o Catapereiro e os Pauis (Belmonte e Lavouras).
A Lezíria está compreendida entre-os-rios Tejo e Sorraia e é sub-dividida pela Recta do Cabo (E.N. 10 entre Vila Franca de Xira e Porto Alto) em Lezíria Norte e Lezíria Sul.
Lezíria Norte, constituída por cerca de 1.300 hectares explorados indirectamente (rendeiros).
Lezíria Sul constituída por cerca de 5.000 hectares, dos quais 3.000 ha são explorados indirectamente (rendeiros) e 2.000 ha estão afectos a pastagens e/ou à produção de forragens.
A seguir à área de pastagens/forragens, a cultura predominante é a do arroz num total de 650 hectares, seguida de 140 hectares de milho (sob pivot).
Nos Pauis de Belmonte e Lavouras, num total de 460 hectares, cultiva-se arroz.
A Companhia das Lezírias passou por muitas vicissitudes, sendo nacionalizada em 1975 e tendo passado, em 1989, a Sociedade Anónima de capitais maioritariamente públicos.
http://cl.terradasideias.net/htmls/pt/empresa_apresenta.html?inpg, 2008
[6] In , Matins, José Joaquim Garrucho, Idem, p. 4.
[7] In , Matins, José Joaquim Garrucho, Idem, p. 2.
[8] In, Lourenço, Nelson, Família Rural e Industria, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1991, p.32
[9] In , Matins, José Joaquim Garrucho, Idem, p. 14.


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