
Introdução
O objectivo central deste trabalho é caracterizar sumariamente duas teorias de governação empresarial: Teoria da Agência e Teoria dos Interessados.
Para além desta caracterização serão analisados os estatutos de uma empresa cooperativa com o intuito de identificar qual das teorias está mais próxima do seu modelo organizacional.
Previamente a esta caracterização e análise estatutária será apresentada uma breve panorâmica sobre o movimento cooperativo e sobre a história da empresa cooperativa escolhida como objecto do trabalho: Cooperativa de Consumo Piedense, CRL.
A escolha desta cooperativa resulta essencialmente de dois factores: em primeiro lugar por se tratar de uma das cooperativas mais antigas de Portugal e por outro por se tratar de uma instituição da cidade de Almada. Cidade em que nasci por destino e resido por opção.
Almada é uma cidade e um concelho com fortes referências associativas em que algumas das suas instituições têm mais de cem anos de existência.
Por outro lado a Cooperativa de Consumo Piedense, para além da sua actividade como prestadora de serviços e fornecedora de bens de consumo, foi um importante baluarte na luta antifascista.
Enquadramento Geral
Contributos para o Surgimento do Movimento Cooperativo
O movimento cooperativo tal como muitos outros fenómenos de cariz social tem como catalisador do seu desenvolvimento, as mudanças radicais vividas, em particular, no século XIX.
Estas mudanças que tiveram como principal êmbolo impulsionador o processo de transformação de todo o aparelho económico e produtivo, correntemente conhecido por revolução industrial, trouxeram alterações estruturais ao modo de vida dos indivíduos e consequentemente às sociedades que os acolhiam.
Os indivíduos deixaram de ser eminentemente rurais e passaram a viver em imensos aglomerados populacionais que em muitos casos não tinham as condições mínimas para uma vida humanamente aceitável.
A revolução industrial resultou de um processo contínuo e massivo de migração de trabalhadores rurais para a cidade para servirem de mão-de-obra para uma actividade produtiva que se iniciou por volta do século XVIII e que terá conhecido o seu apogeu no século XIX.
Este acontecimento originou profundas alterações nas estruturas sociais e potenciou, inclusive, o aparecimento de uma ciência dedicada ao estudo dos fenómenos da sociedade, até então explicados de uma forma meramente especulativa: fundou-se a Sociologia.
Surgiram duas classes emergentes, operariado (proletariado) e burguesia industrial. Do confronto de interesses entre estes dois protagonistas, nascem diversas tensões que estão na base do surgimento de ideologias de carácter político que se formam neste caldeirão, tais como o socialismo científico “criado” por Karl Marx e F. Engels. Nascem conceitos como luta de classes e criam-se condições para fracturas sociais, surge o desemprego como consequência da mecanização crescente da indústria e instala-se a miséria entre os operários. «Os operários lançados na miséria têm a dupla consolação de dizerem a si mesmos que os sofrimentos são apenas passageiros e que a maquinização só progressivamente invade todo o campo de produção, o que quebra toda a extensão e a intensidade dos seus esforços destruidores».
[1]Pode pois dizer-se que o emprego como elemento integrador dos indivíduos e simultaneamente como algo que lhes criou como que uma espécie de dependência terá nascido no século XIX.
Com a revolução industrial, para além de surgir em grande escala o fenómeno do desemprego, surge igualmente outro fenómeno até então praticamente inexistente. Nasce a massificação da divisão do trabalho.
A divisão do trabalho, em parte, consequência da crescente mecanização do processo produtivo, originou diversas leituras, segundo Marx e Engels: «O trabalho dos proletários perdeu, com a extensão da maquinaria e a divisão do trabalho, todo o carácter autónomo e, portanto, todos os atractivos para os operários. Ele torna-se um mero acessório da máquina ao qual se exige apenas o manejo mais simples, mais monótono mais fácil de aprender. (…) não são apenas servos da classe burguesa, do Estado burguês, dia a dia, hora a hora, são feitos servos da máquina (…)».
[2]Edgar Morin tem uma opinião algo coincidente com a acima apresentada, embora considera a divisão do trabalho um caminho inevitável: «A especialização vai fazer progredir de forma gigantesca a complexidade dos sistemas sociais, multiplicar os produtos, as riquezas, as trocas, as comunicações, estimular invenções em todos os domínios. No plano individual, no entanto, a especialização vai acarretar a degenerescência de um tipo humano polivalente e politécnico que a arqui-sociedade havia desenvolvido (…)».
[3]Sobre esta mesma matéria, Emile Durkheim tem uma posição contrária: «Mas, não será que a divisão do trabalho, ao fazer de cada um de nós um ser incompleto, implica uma diminuição da personalidade individual? É uma crítica que frequentemente se lhe dirige. Nos povos inferiores, o acto próprio do homem é assemelhar-se aos seus companheiros, é realizar nele todos os traços do tipo colectivo, que então se confundem, mais ainda do que hoje, com o tipo humano. Mas, nas sociedades mais avançadas, a sua natureza é, em grande parte, ser um órgão da sociedade, e a sua acção específica, por consequência, é desempenhar o seu papel de órgão».
[4]Independentemente da opinião que se tenha sobre esta matéria, é facto que a divisão do trabalho é uma característica marcante da sociedade industrial e pós-industrial e é algo com o qual todos nós convivemos e em particular aqueles que vivem em grandes centros urbanos. «A existência de uma divisão do trabalho extremamente complexa e diversificada constitui uma das características mais distintivas do sistema económico das sociedades modernas».
[5]Podemos pois resumir as ideias e os factos acima apresentados referindo que a revolução industrial é a mãe de diversas mudanças sentidas nas sociedades dos séculos XVIII e XIX. As mudanças operaram-se a diversos níveis: ideológico, económico, social, político e de exercício do poder.
É pela conjugação dos níveis ideológico, económico e social que o movimento cooperativo surge como uma resposta e um caminho alternativo ao modelo de capitalismo-burguês industrial então em grande ascensão.
[1] Karl Marx, O capital, Edições 70, Lisboa, 4ª edição, 1976, p.123.
[2] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista, Edições Avante, Lisboa, 4ª edição, 2004, p.43.
[3] Edgar Morin, Op. Cit., p. 176 e 177.
[4] Emile Durkheim, A Divisão do Trabalho Social, II Volume, Editorial Presença, Lisboa, p.200 e 201.
[5] Anthony Giddens, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 5ª edição, 2007, p. 381.
Cooperativismo
Como já foi referido o paradigma económico em ascensão: capitalismo-burguês industrial, não servia os interesses das classes mais desfavorecidas que viviam na maioria dos casos em situação de miséria económica e social. Como tal o cooperativismo só poderia ser encarado como uma alternativa ao status quo e como uma tábua de salvação para as classes mais desfavorecidas.
Assim, o cooperativismo «assume-se como um movimento transformador que reage contra a difícil situação de miséria da classe operária, o proletariado, surgida com a revolução industrial. Constitui-se como um modelo de empresa de rosto humano, que surge como alternativa ao capitalismo e se baseia na valorização do indivíduo, enquanto trabalhador, em busca de soluções para os problemas da sua classe social»
[1]Pode pois dizer-se que o cooperativismo resulta da tomada de consciência de classe e como forma de resistência e superação das dificuldades sentidas. As dificuldades que eram comuns aos operários foram a mola impulsionadora para a tomada de decisão.
Tal como a revolução industrial encontra o seu berço na Inglaterra, também é nesse país que se estabelece a primeira cooperativa. «A data oficial é
21 de Dezembro de
1844. Foi o dia em que foi fundada a primeira organização desse tipo. Nos arredores da cidade de
Manchester, em
Rochdale, um grupo de 28 tecelões, um deles mulher, se uniu para comprar em conjunto, ítens de primeira necessidade, como alimentos, por exemplo».
[2]A cooperativa dava pelo nome de «Sociedade dos Equitativos Pioneiros de Rochdale».
[3] Cada trabalhador contribuiu inicialmente com uma libra.
O cooperativismo tem uma característica marcante que o diferencia do capitalismo. Enquanto as empresas capitalistas vivem da concorrência e da competição, as empresas cooperativas colocam o foco na cooperação e na satisfação das necessidades do homem.
As cooperativas são como um híbrido «entre um agrupamento de pessoas e uma empresa».
[4] [1] Conceição S. Couvaneiro, Práticas Cooperativas – Personalização e Socialização, Instituto Piaget, Lisboa, 2004, p. 20.
[2] Retirado de
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cooperativismo, Dezembro 2008.
[3] Conceição S. Couvaneiro, Op. Cit., p.41.
[4] Ibidem, Op. Cit., p.21.
Cooperativa de Consumo Piedense – Breve História
A Cooperativa de Consumo Piedense foi fundada no dia 4 de Março de 1893 por um grupo de nove operários residentes no concelho de Almada.
«Entre a data da fundação e 1967, a Cooperativa sofreu uma forte evolução:Criação da padaria (1921)Sede social (1932)Criação de serviços médicos (1955)Aquisição da Quinta da Argena (St.ª Marta de Corroios) e abertura de secção avícola na Argena (1958) Criação do Fundo de Assistência (1959)Aquisição de terreno e edifício anexos à sede e inauguração do sistema de auto-serviço (1963)Remodelação da padaria (1965),Inauguração das actuais instalações sociais e das filiais de Corroios e do Feijó, nova aquisição de terrenos anexos à sede (1966) Criação da secção de Pastelaria (1966)»
[1]Para além da sua actividade comercial e de prestação de serviços, objectivos inerentes à sua acção enquanto estrutura empresarial, a Cooperativa de Consumo Piedense desenvolveu diversos eventos de índole cultural em que a intervenção política, no período do regime de Salazar e Caetano, era uma marca distintiva.
Participaram nestes eventos figuras destacadas da militância antifascista. A PIDE (Policia Internacional de Defesa do Estado) por diversas vezes esteve presente nos referidos acontecimentos culturais, sendo os mesmos alvos de relatórios pormenorizados sobre as ocorrências verificadas.
Abaixo apresenta-se um ofício do Posto de Observação de Setúbal da PIDE dirigido à Direcção Central dessa polícia:
Retirado de: http://www.museudascolectividades.com/index.php?page=shop.browse&option=com_virtuemart&Itemid=2, Dezembro de 2008.
Pode pois dizer-se que a Cooperativa de Consumo Piedense desempenhava duas funções de carácter social: por um lado contribuir para a prestação de serviços e comercialização de produtos a um preço justo aos seus associados e por outro contribuir para os ideais de liberdade.
Ao intervir politicamente, a Cooperativa de Consumo Piedense, colocava na prática um dos pilares do cooperativismo: «Interesse relativamente à comunidade».
[1]Presentemente a Cooperativa de Consumo Piedense não existe enquanto entidade autónoma tendo sido integrada na Pluricoop.
A Pluricoop «É a maior cooperativa em Portugal no ramo de consumo e está associada na CoopLisboa com a qual coopera em plena simbiose, optimizando todos os recursos humanos, financeiros e materiais, com a finalidade de projectar e dinamizar o sector.
Em termos numéricos a Pluricoop com os seus 417 trabalhadores em 27 lojas presta serviço a 55.000 associados tendo um volume de negócios que ultrapassa os 7.5 Milhões de Contos (37.4 Milhões de Euros)».
[2]
Modelos de Governação
Caracterização Geral
Falar de modelos de governação nada tem de político. Trata-se apenas das diversas opções organizativas e de gestão que se podem encontrar como forma de assegurar a definição estratégia e a vida quotidiana das empresas, sejam elas do sector lucrativo ou cooperativo.
Na prática, apenas se trata de estabelecer «o meio através do qual uma organização é dirigida, controlada e regulada».
[3]De entre os diversos modelos de governação existentes, apenas iremos, de forma sintetizada, referir-nos a dois: Teoria da Agência e Teoria dos Interessados.
Teoria da Agência
Esta teoria de governação caracteriza-se pela delegação de poderes e de competências, por parte dos accionistas, em gestores nomeados para assegurarem a governação operacional das empresas.
Os gestores funcionam como “procuradores” dos accionistas. São eles na prática que têm o poder decisório e executivo.
Para evitar que os gestores assumam na integra a governação das empresas, os accionistas vêem-se obrigados a criar mecanismos de controlo e a “brindar” os gestores com aliciantes incentivos financeiros.
Neste sistema de governação existe uma clara separação entre a posse da propriedade e a sua gestão.
Os accionistas são ”donos” das empresas sendo que os gestores são quem assegura a sua governação.
Esta dupla vertente cria alguns constrangimentos às empresas, pois nem sempre é líquido que quem gere o faça no melhor interesse dos proprietários e consequentemente da própria empresa.
Pode pois dizer-se que os gestores estão ligados aos accionistas através de um contrato que prevê as regras do “jogo”.
A não sintonia de interesses e de perspectivas entre gestores e accionistas pode trazer consequências negativas para as empresas, designadamente para a sua competitividade.
Teoria dos Interessados
Esta teoria surge como resposta às teorias gestionária e da agência.
Caracteriza-se essencialmente por apresentar uma visão holística sobre o conceito de interessados.
Para além dos gestores e dos accionistas, existem outros “agentes” que concorrem para o sucesso ou insucesso das empresas e como tal devem estar representados na sua governação.
São identificados, pelo menos, seis grandes grupos de interessados: accionistas, empregados, clientes, fornecedores, comunidade local e a gestão.
Neste modelo de governação está presente o conceito de democracia empresarial.
Para que este conceito se possa operacionalizar é necessário em primeiro lugar que o conselho de administração das empresas seja constituído por representantes dos diferentes grupos de interessados.
Devem igualmente existir departamentos que se dediquem a auscultar quer clientes como fornecedores, para que a empresa conheça as suas expectativas e anseios.
Devem ser criados canais internos de comunicação que permitam que os empregados possam colocar as suas questões e apresentar as suas queixas ao mais alto nível.
Deve ainda existir uma unidade orgânica responsável pela articulação com os actores sociais mais relevantes da comunidade local.
Pode pois dizer-se que esta teoria de governação encara a empresa como um elemento importante da sociedade e não a vê apenas como pertença dos seus accionistas. Assim, a governação das empresas deve ser perspectivada de forma a envolver um leque alargado de interessados que directa ou indirectamente participam na sua gestão e contribuem para o seu sucesso.
Modelo de Governação da Cooperativa de Consumo Piedense
Análise dos Estatutos
Como já foi referido a Cooperativa de Consumo Piedense já não existe autonomamente tendo sido integrada na Pluricoop. Contudo, pela importância histórica que a mesma tem para o movimento cooperativo Português, decidiu-se pela análise dos seus estatutos datados de 1985 e que vieram substituir os estatutos que foram criados aquando da sua constituição enquanto cooperativa em 1893.
A partir dos estatutos iremos identificar o modelo de gestão utilizado e seguidamente analisar se o referido modelo se adequa, da melhor forma, aos princípios do cooperativismo.
Abaixo são transcritos alguns dos artigos mais relevantes dos estatutos:
«Artº 3º § 1º - A Cooperativa tem por objectivos e fins:
a) Adquirir para fornecer aos seus membros, nas melhores condições de qualidade, informação e preço, bens e serviços destinados ao seu consumo e uso directo;
b) Prestar serviços para a promoção cultural, social e profissional dos seus membros, dos seus trabalhadores e respectivos familiares;
c) Concorrer para a difusão da doutrina e dos princípios do cooperativismo como forma de desenvolver a solidariedade entre os consumidores;
d) Difundir informação de ordem económica e social com vista à defesa da economia familiar e a educação e orientação dos consumidores».
[5]«Artº 15º § 1º - Os Órgãos Sociais da Cooperativa são:
a) Assembleia Geral;
b) Direcção;
c) Conselho Fiscal.
§ 2º - A Direcção poderá constituir comissões especiais, que serão eleitas em Assembleia Geral».
[6]
Pode pois verificar-se que os órgãos sociais, da Cooperativa de Consumo Piedense, obedecem a uma estrutura clássica. Ou seja, existe uma Assembleia Geral como órgão máximo, a Direcção é eleita em Assembleia Geral, é a quem compete conduzir os destinos da organização, e o Conselho Fiscal que fiscaliza a actividade exercida pela Direcção.
Esquematicamente poderá representar-se a estrutura orgânica da Cooperativa de Consumo Piedense da seguinte forma:

Modelo de Governação
Parece claro que os estatutos da Cooperativa de Consumo Piedense apontam para um modelo de governação próximo da teoria da agência.
Na prática a Assembleia Geral elege a Direcção, tal como a Assembleia de Accionistas elege os gestores responsáveis pela governação das empresas de tipo capitalista.
É facto que no caso da Cooperativa de Consumo Piedense a Direcção é eleita de forma democrática, ou seja, cada membro contribui com um voto, ao contrário do que acontece numa Assembleia de Accionistas em que o peso dos votos depende do capital detido por cada accionista. Contudo, no caso da Cooperativa de Consumo Piedense, na prática existe um delegar de competências na Direcção tal como os accionistas delegam poderes nos gestores.
Por outro lado não é perceptível a existência de órgãos que representem outros interessados para além dos associados. Ou seja, os princípios definidos na teoria dos interessados que prevêem a existência de uma estrutura que represente outros grupos de interessados tais como: «empregados, clientes (…), a comunidade local (…)»
[7], não existe.
Conclusão
Os princípios básicos do cooperativismo são:
«Adesão voluntária e livre, gestão democrática exercida pelos seus membros, participação económica dos membros, autonomia e independência, educação, formação e informação, cooperação entre cooperativas, interesse relativo à comunidade».
[8]
Estes princípios não estão propriamente em contradição com os princípios da teoria da agência, contudo, parecem estar melhor defendidos pela teoria dos interessados.
No caso da Cooperativa de Consumo Piedense, o facto dos membros da Direcção serem eleitos de forma democrática, parece vir ao encontro de um dos princípios cooperativos supra enumerados. Contudo, importa ter presente que muitas das vezes o nível de informação que os associados, com poder de voto, detêm dos assuntos é disparo pelo que o princípio democrático acaba por ser colocado em causa.
Se nas empresas capitalistas o capital financeiro é quem dita as regras, numa cooperativa em que o modelo de organização seja próximo da teoria da agência, acaba por ser, usando as palavras de Pierre Bourdieu, o capital social e o capital cultural detido pelos associados a marcar a diferença.
Se nos quisermos socorrer do pensamento de outro grande sociólogo – Max Weber – poderemos dizer que o status social de que os indivíduos gozam os coloca em estratos sociais diferenciados e como tal com níveis de poder distintos.
Neste contexto, os Directores apesar de serem igualmente “donos da cooperativa”, ao contrário do que acontece com os gestores das empresas capitalistas, devido ao alto grau de autonomia de que gozam e devido à inexistência de estruturas orgânicas que representem outros interesses, podem, tal como ocorre com os gestores capitalistas, ser tentados a conduzir a Organização de uma forma pouco consentânea com os desejos e anseios dos seus associados e com os objectivos para que foi criada.
Resta referir que a Cooperativa de Consumo Piedense ao optar pela sua integração numa cooperativa que é o resultado da fusão de diversas outras cooperativas, enveredou por um caminho que se aproxima do modelo preconizado pela teoria dos interessados. Ou seja, a Pluricoop apresenta uma estruturação próxima da seguida por exemplo pela Mondragon Corporacion Cooperativa
[9] que também é na prática, apesar da desproporção no que concerne à dimensão, o resultado da fusão de diversas cooperativas.
Pode pois concluir-se dizendo que «(…) parece não restarem duvidas de que a forma bicéfala de governação, correspondente ao modelo que assegura a representação dos interessados é mais conforme com os princípios e os ideais do cooperativismo do que actualmente existe e que dificilmente assegura que esses fins sejam alcançados».
[10]
Um Exemplo nos Serviços Públicos
Em Portugal o Instituto do emprego e Formação Profissional, IP (IEFP, IP) foi um dos organismos pioneiros em termos da criação de uma estrutura de gestão bicéfala e portanto na linha do preconizado pela teoria dos interessados.
O IEFP, IP, criado em 1979 e a quem compete operacionalizar as políticas públicas em matérias de emprego e formação profissional, apresenta um modelo de gestão que preconiza a existência de um Conselho Directivo (Direcção) e de um Conselho de Administração.
No Conselho de Administração têm assento para além do representante do estado - conselho directivo e elementos do ministério da educação – os representantes dos trabalhadores – centrais sindicais – e os representantes das entidades empregadoras – associações empresariais.
«O IEFP tem uma gestão tripartida, contando com a representação dos Parceiros Sociais, com assento efectivo na Comissão Permanente de Concertação Social do Conselho Económico e Social, no Conselho de Administração, na Comissão de Fiscalização, nos Conselhos Consultivos Regionais e nos Conselhos Consultivos dos Centros de Formação Profissional».
[11]Bibliografia
Livros
MARX, Karl, O capital, Edições 70, Lisboa, 4ª edição, 1976;
MARX, Karl e ENGELS, F., O manifesto do Partido Comunista, Edições Avante, Lisboa, 4ª edição, 1997;
MORIN, Edgar, O Paradigma Perdido e a Natureza Humana, Publicações Europa-América, Mem Martins, 6ª edição, 2000;
DURKHEIM, Emile, A Divisão do Trabalho Social, II Volume, Editorial Presença, Lisboa, 1984;
GIDDENS, Anthony, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 5ª edição, 2007;
COUVANEIRO, Conceição S., Práticas Cooperativas – Personalização e Socialização, Instituto Piaget, Lisboa, 2004;
Cooperativismo e Economia Social.
Páginas Web
page=shop.browse&option=com_virtuemart&Itemid=2, Dezembro de 2008;
Outros Documentos
Estatutos da Cooperativa de Consumo Piedense de 1985
Fotos da Capa
[1] Conceição S. Couvaneiro, Op. Cit., p.43.
[2] Retirado de
http://www.consumo-pt.coop/pluricoop/index.php, Dezembro de 2008.
[3] Cooperativismo e Economia Social, p. 53.
[4] Os estatutos da Cooperativa de Consumo Piedense são um apêndice deste trabalho.
[5] Estatutos da Cooperativa de Consumo Piedense de 1985, p. 8.
[6] Estatutos da Cooperativa de Consumo Piedense de 1985, p. 14 e 15.
[7] Cooperativismo e Economia Social, p. 57.
[8] Conceição S. Couvaneiro, Op. Cit., p.43.
[9] Trata-se de uma das maiores cooperativas do mundo que tem sede em Espanha e estabelecimentos espalhados por diversos países.
[10] Cooperativismo e Economia Social, p. 68.
[11] Retirado de
http://www.iefp.pt/iefp/sobre/Paginas/UmaIntervencaoParticipada.aspx, Dezembro de 2008.
[1] Retirado de
http://www.almadadigital.pt/portal/page/portal/ACD/ACD/?d_id4=2189707&cboui=2189707, Dezembro de 2008.