

Embora o propósito deste memorando não seja resumir a “estória” do filme, mas sim fazer a sua leitura à luz da Sociologia, importa contudo, fazer um pequeno resumo.
O filme retrata a vida de um inquisidor espanhol, Irmão Lorenzo, que após infringir algumas regras impostas pela instituição que servia – a Inquisição – resolve fugir para França de onde regressa ao fim de 15 anos e na condição de “revolucionário”. Durante o período em que esteve em França aderiu, mais por oportunismo do que por convicção, aos ideais que nortearam a revolução francesa.
Ao regressar a Espanha, mostra-se um feroz opositor à Inquisição e prende os seus principais membros nos quais constam os seus antigos “chefes”.
Figura igualmente central do filme, para além de Goya, é a jovem e “musa” inspiradora do pintor espanhol: Inês.
Inês acaba presa pela Inquisição, acusada de heresia, em parte devido ao seu passado judaico, e acaba por se envolver com o irmão Lorenzo, enquanto está encarcerada nas masmorras da Inquisição.
É pois à volta deste triângulo: Lorenzo, Goya e Inês, que a acção do filme decorre.
Enquadramento Histórico:
Previamente à análise sociológica do conteúdo do filme, importa fazer um pequeno enquadramento ao período histórico em que se desenvolve a acção do mesmo e apresentar alguns dados biográficos relativos ao pintor espanhol que surge como pivô de toda a acção: Goya.
A acção do firme decorre entre os anos de 1792 e 1809. Este espaço temporal corresponde a um período histórico bastante conturbado para a Europa.
Importa ter presente que a França tinha entrado num período revolucionário em 1789, o qual se desenvolveu durante uma década e viria a marcar toda a Europa, contribuindo para uma nova etapa na História da Humanidade.
Com a revolução francesa iniciou-se a idade contemporânea. «A Revolução é considerada como o acontecimento que deu início à Idade Contemporânea. Aboliu a servidão e os direitos feudais e proclamou os princípios universais de "Liberdade, Igualdade e Fraternidade"…[2]».
Esta revolução foi fortemente influenciada pelos ideais iluministas e pela independência dos Estados Unidos da América.
Por seu lado, a Espanha vivia num período de obscurantismo fortemente marcado pela influência da igreja católica. O santo ofício, mais correctamente a Inquisição, foi criado em Espanha em 1478 e extinto em 1834. «…prolonga-se de 1478 até 1834, datas do estabelecimento e da abolição definitiva da Inquisição espanhola[3]»
É pois neste contexto, entre a modernidade impulsionada pela revolução francesa e o antigo regime (período compreendido entre o renascimento e as revoluções liberais em particular a francesa), marcado pela inquisição, que se desenvolve a acção do filme.
Francisco José de Goya Y Lucientes (1746-1828)[4] é um dos principias vultos da cultura espanhola, em particular da pintura, marcou a sua época e gerações futuras. Goya teve como principal mestre Velázquez (1599-1660)[5], outro ícone da cultura espanhola.
Análise Sociológica
O filme retrata de forma bastante vincada a diferenciação e estratificação social que estava presente na sociedade espanhola de então.
É perceptível que o poder está na mão do rei, o qual detém o controlo político do estado, e da igreja católica que através do instrumento da Inquisição pretende garantir a manutenção do status quo e consequentemente a coesão social.
Coesão social, alicerçada na consciência social, induz nos indivíduos a noção de controlo social. Controlo que se manifesta muitas das vezes como auto-controlo. No caso do filme, todos os indivíduos tinham perfeita noção das consequências dos seus actos[6].
Atitudes que não estejam na norma e que se configurem como desviantes são fortemente penalizadas.
Existe pois um sistema de sanções bem claro e do qual sobressai a punição[7].
A punição é de carácter físico e psicológico e fundado em aspectos sobrenaturais – neste caso a crença na justiça divina[8].
A punição, de forma a inculcar nos indivíduos comportamentos de acordo com a ordem vigente, é muitas das vezes apresentada publicamente através dos autos de fé.
Apesar deste controlo social e da hierarquização da sociedade: Nobreza (neste caso a família real), clero (Inquisição), Povo (representado por Goya, Inês, Família da Inês e diversos figurantes - ex: Prostitutas), é visível a existência de redes de influências e de troca de favores.
Esta ordem social é posta em causa por influência exterior e neste caso pela revolução francesa. Embora não seja o exemplo mais adequado, contudo, pode dizer-se que o principio Marxista de obtenção da mudança através da revolução, está de alguma forma presente.
O equilíbrio deriva em desequilíbrio e encontra em seguida um novo equilíbrio[9]. Este princípio pode ser facilmente identificado no filme: primeiro temos o equilíbrio, proporcionado pela ordem vigente, em seguida é introduzido um elemento que induz entropia na sociedade e logo o seu desequilíbrio – invasão francesa – em seguida a instalação de uma nova ordem baseada em novos princípios e finalmente o regresso à ordem anterior.
Citações
[3] Francisco Bethencourt, História das Inquisições, Portugal, Espanha e Itália, Circulo de Leitores, Lisboa, edição 3653, 1994, p. 9.
[4] vários, Nova Enciclopédia Larousse, Circulo de Leitores, Lisboa, edição 3896, 1997, Volume XI, p. 3385.


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