Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

domingo, 1 de abril de 2012

A Marmita...

A marmita. 
Existem marmitas de várias cores, feitios e materiais.
A marmita é por excelência um símbolo do operariado. Se preferirmos do proletariado.
Os proletários, devido à falta de locais próprios para a preparação das refeições, eram obrigados a levar a sua refeição de casa em recipientes que fossem apropriados ao transporte das mesmas. 
As marmitas em alumínio e de formato cilíndrico eram das mais utilizadas no século passado. Eu próprio, durante a curta experiência que tive de trabalho na construção civil, levava a minha marmita de alumínio para a “obra”.
Se a marmita era utilizada pelos proletários, devido à falta de condições existentes nas empresas para a preparação das refeições, a verdade é que as questões financeiras, devido aos baixos salários, eram sem dúvida o principal motivo.
A marmita era de facto um símbolo identitário da classe proletária. Quase que se poderia dizer: proletários de todos os países usem a marmita.
Se a marmita era um símbolo do proletariado o que se passa nos dias de hoje?
Tenho observado nos últimos tempos que cada vez mais a marmita passou a ser uma opção para outros estratos da população. No local onde trabalho vários são os colegas que aderiram à marmita.
Quem utiliza os transportes públicos ou observa o que se passa nas ruas das nossas cidades pode verificar o número crescente de indivíduos que “carregam” a sua marmita.
Se a marmita era de alguma forma estigmatizante para quem trabalhava no sector dos serviços e utilizava fato e gravata, parece que o estigma está a desaparecer.
Importa pois perguntar por que motivo os “engravatados” aderiram à marmita? 
A resposta não será apenas uma. Contudo, creio que as questões financeiras serão um dos motivos mais decisivos. Outras respostas surgirão, tais como: a necessidade de fazer uma alimentação mais equilibrada; não haver tempo para tomar uma refeição em restaurantes; etc.
Contudo, penso que deveríamos ponderar se não existirá uma razão mais profunda que justifique esta alteração de comportamento.
Marx falava da proletarização de todas as áreas de actividade. Ou seja, os proletários não são apenas os que trabalham na indústria mas todos os trabalhadores que têm uma relação salarial dependente. Isto é, os trabalhadores por conta de outrem.
Obviamente que o proletariado tradicional não se caracterizava apenas pelo facto da relação laboral se basear no salariato. Caracterizava-se pelas más condições de trabalho, pela remuneração baixa, pela precariedade, pela jornada de trabalho longa. Isto ocorria com o proletariado do século XIX e parte significativa do século XX.
Se a distinção entre “colarinhos brancos” e “colarinhos azuis” era algo característico dos chamados anos dourados do capitalismo (década de 1950 até finais da década de 1970), a verdade é que presentemente parece cada vez fazer menos sentido essa distinção. Os “colarinhos brancos” estão a ficar encardidos e os “colarinhos azuis” são uma espécie em vias de extinção.
Como tal, assumamos todos, os que se dão ao luxo de ter um trabalho, a condição de proletários. Somos de facto proletários. Quem usa fato e gravata ou quem usa fato de macaco está confrontado com a mesma realidade: desemprego, precariedade, baixos salários, prolongamento do tempo de trabalho. Só se ganharmos consciência que estamos todos no mesmo barco poderemos unir esforços em busca de algo melhor.
Parece que a principal razão do sucesso da marmita radica na proletarização da esmagadora maioria das actividades profissionais.

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