Sou Almadense dos sete costados e vou pronunciar-me sobre uma polémica que desde que o Metro de superfície entrou em funcionamento no eixo central da Cidade tem sido tema de muitas discussões.
Quem conhece Almada sabe que a sua zona central é constituída por um eixo viário que se desenvolve entre a rotunda do Centro Sul e a zona de Cacilhas.Este eixo central é constituído por várias avenidas: Bento Gonçalves, Nuno Álvares Pereira, Afonso Henriques e 25 de Abril).
Acontece que inserido no Plano de Mobilidade de Almada e aproveitando as potencialidades que o Metro trouxe em termos de acessibilidades e conforto para os Almadenses e não só, a Câmara Municipal decidiu interditar ao transito parte do eixo central da cidade.
O eixo central terá em toda a sua extensão cerca de 2 km de comprimento sendo que a parte interdita ao trânsito não terá mais de 200 metros, ou seja, cerca de 10% da totalidade do eixo central.
Esta decisão Camarária que visava descongestionar a zona central da Cidade e assim restituir a rua aos Almadenses e visitantes, foi mal recebida por parte dos comerciantes da zona.
Estes comerciantes argumentam que esta decisão, da Câmara Municipal, contribui decididamente para a ruína do comércio local.
Em traços largos é este o retrato da polémica que está instalada em Almada e que começa a dominar a campanha eleitoral autárquica que está a dar os primeiros passos.
Importa pois saber até que ponto os comerciantes têm razão para protestar e em que medida o Município Almadense terá tomado uma decisão correcta.Como em todos os aspectos da vida em sociedade, também neste caso, a razão não está toda do mesmo lado. Pode argumentar-se que a Câmara Municipal poderia ter sido mais sensível e deveria ter percebido que esta decisão iria contribuir para o agravamento de uma situação que já era séria em termos da diminuição da procura do comércio tradicional instalado na zona central da cidade. Por outro lado, os cidadãos residentes na área vêem com agrado a inexistência de trânsito.
Ou seja, estamos numa posição em que existem interesses conflituantes.Voltando à opinião dos comerciantes, creio que a mesma acontece por um acto de desespero. A verdade é que a realidade pela qual passa o comércio tradicional é similar em todas as áreas da cidade e é de carácter estrutural.
Este fenómeno de crise generalizada do comércio tradicional não é uma realidade Almadense. Está presente em todas as cidades do Pais (veja-se a discussão sobre a baixa Lisboeta) e diria mesmo que está na agenda das principais cidades Europeias.
A verdade é que se alteraram os hábitos sociais.
Quem tem o privilégio de ter nascido na época pré-centros comerciais, sabe que então todos tínhamos o hábito de passear na rua com os nossos pais. O passeio consistia nada mais, nada menos do que na observação das montras das lojas que existiam um pouco por toda a parte. Costumava-se dizer que íamos ver as “montras”.
A verdade é que esse hábito social se mantém. Na prática continuamos a ver as “montras”. Acontece que as “montras” não estão directamente na rua mas sim dentro de um centro comercial. Ocorreu pois um fenómeno de deslocação do comércio de rua para os centros comerciais.
Os centros comerciais de grande dimensão funcionam como estruturas agregadoras que permitem que os indivíduos consigam satisfazer todas as suas necessidades de consumo no mesmo espaço.
Esta nova forma de fazer compras disponibiliza aos consumidores um conjunto de produtos e de serviços que o comércio tradicional não poderá proporcionar. Para além da gama de produtos e de serviços que funcionam de forma complementar, os centros comerciais proporcionam conforto e bem-estar. No inverno são locais acolhedores e no verão são frescos. Para além de serem locais climatizados proporcionam estacionamento automóvel (no caso do Almada Fórum gratuito).
É impensável nos dias de hoje ver pessoas carregadas com compras no meio da rua ao frio ou ao calor. Os indivíduos tornaram-se mais exigentes e comodistas e pouco se importam com a realidade do comércio tradicional.Os centros comercias, para além das “virtudes" acima descritas, perceberam igualmente que a vida moderna, essencialmente urbana, está condicionada pelos horários. Os indivíduos em muitos casos praticam horários de trabalho que coincidem com o horário do comércio tradicional. Ou seja, não têm disponibilidade para fazer compras a não ser nos centros comerciais ou noutras grandes superfícies.
De facto, as cidades deslocaram o seu eixo comercial para outras áreas e em particular para a periferia. Esta alteração deve-se, entre outros motivos, ao facto dos terrenos serem mais baratos na periferia, por serem mais abundantes e por ser mais fácil edificar edifícios com grande volumetria em zonas não construídas. Por outro lado, estas estruturas requerem vias de acesso rápidas e que garantam o escoamento célere do tráfego automóvel o que dificilmente se consegue numa zona da cidade mais antiga e menos adequada à circulação intensa de automóveis.
Estamos pois confrontados com um novo paradigma ao nível dos hábitos de consumo e da oferta que é proporcionada aos consumidores.
Os comerciantes não podem insistir em “velhas fórmulas” que já não funcionam. O comércio tradicional para funcionar com algum sucesso tem que se modernizar e tem que diferenciar a sua oferta. Não faz sentido oferecer produtos e serviços iguais ou de inferior qualidade aos que podemos encontrar num centro comercial.
O comércio tradicional tem que ser capaz de eleger públicos alvo que devido a diversos factores não gostem ou não possam utilizar os centros comerciais.
O comércio tradicional tem que apostar em produtos e em serviços que tenham valor acrescentado e que não estejam disponíveis nas grandes superfícies, como é o caso de artigos exclusivos, destinados a faixas de mercado de estratos sociais mais altos ou na comercialização de produtos e de serviços que sirvam, por exemplo, camadas da população com maiores dificuldades de mobilidade como os idosos e que não se deslocam a centros comerciais.Os comerciantes são os primeiros interessados em que o seu negócio prospere ao invés de entrar num processo de estagnação e de agonia. Os comerciantes devem contudo perceber que interesses corporativos e sectários não podem impedir o desenvolvimento da Cidade.
Almada necessita, quanto a mim, de alguns serviços na sua zona central. Serviços que sirvam de pólo de atracção e que assim acabem por catalisar sinergias e por consequência beneficiar as actividades económicas que ai se estabelecem.A ideia de localizar no centro da Cidade a Loja do Cidadão é um exemplo.
A loja do Munícipe que está quase a ser inaugurada poderá ser o embrião em termos de mudança de uso da zona central da Cidade. Outros serviços, em particular os serviços públicos deveriam mudar-se para esta zona da Cidade.
Provavelmente o centro da Cidade terá que ser mais vocacionado para os serviços do que para o comércio. São os sinais dos tempos.
A economia capitalista funciona como um mecanismo de selecção natural. Ou seja, os mais fortes e preparados sobrevivem os restantes são extintos.
Cabe aos comerciantes isoladamente ou em grupo, com o apoio sempre necessário do Município, encontrarem a resposta mais adequada para os desafios e para os obstáculos que vão surgindo pelo caminho.Contudo, não creio que a reivindicação da abertura de uma parte, ínfima, do centro da Cidade à circulação automóvel seja a solução para um doente que está em estado vegetativo.
Esta medida que está a ser utilizada como arma eleitoral pela oposição contra a actual força política que gere os destinos do Concelho de Almada, não passa de um placebo que apenas dá ao doente a sensação que está a contribuir para a sua recuperação.
Fica pois o apelo para que o problema do comércio tradicional em Almada seja tratado de uma forma séria e que não se utilizem argumentos pouco fundamentados apenas como arma de arremesso político.
C.Santana


1 comentário:
boas, sou estudante de engenharia civil da universidade nova no monte de caparica, e estou a participar no concurso de ideias para o centro de almada. será que me podes dar uma ajudinha? O que se costumava comercializar, comércio tipico preponderante, industria, tradições da população.
Verifiquei que a cidade tem uma grande ligação com a lisnave e a industria corticeira.
deixo o meu mail para o caso de te lembrares de algo. heisilva@hotmail.com
abraço,
hugo silva
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