Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

As Principais características da Construção Social da Realidade, em Peter Berger e Thomas Luckmann

A sociologia do conhecimento vem trazer uma nova perspectiva sobre o que de facto é o conhecimento social. Importa referir que a esta disciplina sociológica não respeita o estudo do conhecimento erudito, filosófico ou científico. Berger e Luckmann dizem-nos que «… a sociologia do conhecimento deve antes de mais ocupar-se com o que os homens “conhecem como realidade”, na sua vida quotidiano, na vida não teórica ou pré-teórica. Por outras palavras, o “conhecimento” com bom senso, mais do que as “ideias”, deve ser o foco central da sociologia do conhecimento».[1] Berger e Luckmann dizem ainda a este respeito: «…defendemos o ponto de vista de que a sociologia do conhecimento se preocupa com a análise da construção social da realidade».[2]

Para estes autores o conhecimento tem duas faces. Uma face objectiva e outra subjectiva. A face objectiva respeita à realidade que transcende os indivíduos. Ou seja, a realidade que lhes é externa. A face subjectiva é a que está no interior dos indivíduos. Isto é, aquilo que estes constroem como sendo real.

Peter Berger e Thomas Luckmann fundam a sua sociologia do conhecimento sobre o funcionalismo de Durkheim, o método compreensivo de Weber e a fenomenologia de Schultz.[3] Apesar de serem estas as referências base, da sua teoria, não deixam de relevar a importância que consideram decisiva do pensamento de Marx: «É em Marx que a sociologia do conhecimento encontra a raiz da sua proposta, que declara ser a consciência do homem determinada pelo seu ser social».[4] Temos pois que o enfoque da sociologia do conhecimento deve estar centrado naquilo que o indivíduo “comum” entende como certo ou errado, como verdadeiro ou falso. Este conhecimento é aquele que se deixa contaminar pelos juízos de valor, pelos preconceitos, pela moral e pelos costumes. É um conhecimento despreocupado com a sua legitimidade ou validade teórica.

Nogueira Dias[5] refere que à sociologia do conhecimento «…interessam, entre outros aspectos, as condições sociais da produção do conhecimento, o uso social do conhecimento, a distribuição social do conhecimento e as consequências sociais e individuais do conhecimento». Ao contrário do conhecimento científico que é construído paulatinamente e por aproximações sucessivas à realidade e que por isso é sempre provisório, o conhecimento do senso comum tem a pretensão de ser definitivo.[6]

Pode pois deduzir-se que o conhecimento humano é relativo e está condicionado por diversos factores tais como: os valores, a cultura, a religião, o momento histórico e a geografia (o espaço). Para clarificar este aspecto Berger e Luckmann utilizam uma frase de Pascal: «Aquilo que é verdade de um lado dos Pirenéus é falso do outro».[7]

Para os autores a tipificação e a institucionalização do conhecimento são factores essenciais. A tipificação não é mais do que o resultado da rotina que decorre da repetição de determinadas acções. As acções repetidas e logo tipificadas permitem que o conhecimento sobre uma determinada realidade social não tenha que ser construído sistemática e repetidamente sempre que nos confrontamos com um determinado fenómeno. Ou seja, o conhecimento torna-se objectivado. Podemos dizer que as tipificações em grande parte são como “produtos” que nos são impostos, pelos padrões culturais, religiosos e morais, através do processo de socialização. As tipificações são de certa forma representações sociais que nos permitem agir. O conhecimento tipificado tende a institucionalizar-se. Esta institucionalização implica que as rotinas se tornem em regras com um protocolo específico. As acções são executadas com determinadas regras institucionalizadas e que devem ser comuns a um conjunto alargado de indivíduos.[8]

Para se clarificar este aspecto poderemos recorrer a um exemplo. Anibal Ponce[9] refere que inicialmente, nas comunidades primitivas, a educação era um processo espontâneo que decorria da interacção que os indivíduos estabeleciam quotidianamente. Não existia nesta fase uma institucionalização desta rotina. Ou seja, não existiam regras específicas nem um corpo especializado para educar as crianças. Com a evolução e complexificação das regras sociais a educação institucionalizou-se tendo surgido o sistema de ensino. O propósito da institucionalização do conhecimento é em primeiro lugar permitir a sua transferência, através do processo de socialização, para as gerações mais novas e por outro permitir que esse conhecimento seja alvo de um controlo social efectivo em que o sistema de sanções serve como mecanismo de salvaguarda da integridade desse mesmo conhecimento. Contudo, a objectivação do conhecimento, como nos diz Nogueira Dias[10], necessita de um meio de comunicação eficaz e que permita a sua reprodução. Ou seja, a objectivação do conhecimento está dependente da linguagem. Temos assim que o conhecimento apenas existe enquanto fenómeno comunicacional que se difunde através da linguagem (oral e escrita). «Apetece dizer que quando pensamos, pensamos com as palavras».[11]

[1] Peter L Berger e Thomas Luckmann, Construção Social da Realidade, Dinalivro, Lisboa, 2ª edição, 2004, p. 26-27.

[2] Peter L Berger e Thomas Luckmann, Op. Cit p.15.

[3] Ibidem, p. 11-12.

[4] Ibidem, p. 17.

[5] Fernando Nogueira Dias, A Manipulação do Conhecimento, Vega, Lisboa, 2005, p.22.

[6] Ibidem, p. 19.

[7] Pascal in Peter L Berger e Thomas Luckmann, Op. Cit., p. 17.

[8] Idem.

[9] Anibal Ponce, Educação e Luta de Classes, Vega, Lisboa, 1979, p. 14.

[10] Fernando Nogueira Dias, Op. Cit. p.30.

[11] Ibidem, p. 31.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Está Tudo Mal...

Pois é. Sabemos que está tudo mal. Estamos num tempo de encruzilhada em que temos consciência que vivemos num sistema social completamente desequilibrado e cheio de contradições. Contudo, não conseguimos descortinar o novo caminho para nos transportarmos para uma dimensão mais elevada.

Mais uma vez Marx. É verdade. Deixemo-nos de constrangimentos ideológico políticos e mergulhemos no raciocínio cientifico-filosófico de Marx.

É verdade que compete ao homem escolher o caminho. Contudo escutemos (lendo) o que Marx diz a este respeito: «Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade, em circunstâncias escolhidas por eles próprios, mas nas circunstâncias imediatamente encontradas, dadas e transmitidas. A tradição de todas as gerações mortas pesa sobre o cérebro dos vivos como um pesadelo.» (in O 18 de Brumário de Louis de Bonaparte).

Ou seja, não nos conseguimos livrar do nosso capital social genético. Esse capital se por um lado nos permite saber quem somos e de onde viemos, não nos deixa ser algo diferente.

O sistema em que vivemos incute em nós um espírito de competitividade em que para ganharmos alguém tem que perder. Se formos mais competitivos conseguimos ficar com um melhor emprego. Isto é, para nós ficarmos com esse emprego alguém tem que ficar sem ele. Vivemos num jogo de soma nula. Para alguém ganhar outro terá forçosamente que perder.

Por vezes tende-se a considerar que Marx defende uma espécie de homem social em que desaparecem todas as características intrínsecas a cada indivíduo. Ou seja, que se elimina a individualidade. Ao contrário. Marx afirma que só se todos os indivíduos tiverem condições materiais similares, que propiciem o seu desenvolvimento pessoal, se torna possível que estes se possam diferenciar.

Isto é, para sermos diferentes necessitamos de ser iguais. Só nos podemos diferenciar de forma positiva se partirmos do mesmo patamar. Se eu nascer rico e outro nascer pobre os patamares de partida são forçosamente diferentes e assim geram indivíduos negativamente diferentes.

Contudo, a mudança é sempre dolorosa e demorada. Temos igualmente que estar alerta relativamente àqueles que nos prometem mudanças e o paraíso na terra. Não nos esqueçamos de outras palavras sábias de Marx quando este diz que aqueles que se intitulam revolucionários se transformam em reaccionários quando assumem o poder.

Finalizemos com Marx: «Diz-nos a história que os grandes homens foram sempre aqueles que se enobreceram trabalhando pelo bem universal.» (Karl Marx in Anthony Giddens, Capitalismo e Moderna Teoria Social)

Saudações Marxistas...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O Papalagui...

Considerando que estamos a poucos dias do Natal e pelo facto desta quadra influenciar crentes e não crentes, resolvi importuna-los com mais um texto que pode servir para reflectirmos sobre o nosso modo de vida.

Já que o Deus Capital, verdadeiro motivo da comemoração do Natal nas sociedades ditas desenvolvidas, se sobrepõe cada vez mais ao Deus Menino e como o Deus Capital gosta que lhe prestemos honras através do sacrifício do dispêndio de dinheiro em produtos de que normalmente não necessitamos, sugiro que adquiram para vós e para oferecerem um pequeno e singelo livro intitulado O Papalagui (O homem branco europeu).

Sem querer estragar a vossa leitura permito-me resumir a história.

Trata-se de uma história escrita por Erich Scheurmann, escritor e pintor alemão que viveu entre 1878 e 1957, baseada em escritos produzidos por um chefe tribal de uma ilha do arquipélago da Somoa Ocidental que se situa no Pacifico Sul, mais precisamente na polinésia.
A história desenrola-se na década de 1920 e respeita ao relato produzido por Tuiavii, chefe da tribo Tiavea. Este chefe tribal foi educado por missionários cristãos e devido a esse facto sempre teve muita curiosidade em visitar a Europa. Conseguiu concretizar o seu sonho e visitou grande parte dos países europeus.

A história que o livro relata é produzida a partir de textos escritos por Tuiavii na sua língua materna os quais foram traduzidos por Erich Scheurmann para Alemão.

Nunca foi intenção do chefe tribal publicar os seus escritos. Estes apenas tinham como objectivo informar os habitantes de Tiavea sobre o que Tuiavii vivenciou aquando da sua visita à Europa.
Os escritos mais não são do que o relato pormenorizado da forma como Tuiavii representa a sociedade europeia. A forma como vivemos em sociedade e como interagimos com os nossos semelhantes. Os nossos valores, as nossas formas de pensar sentir e de agir.

Digamos que esta história representa de certa forma uma inversão de papéis. A norma será o europeu deslocar-se a uma terra longínqua para estudar uma tribo primitiva e não o contrário.
O livro tem uma riqueza inocente. É um relato que expressa a perplexidade de um individuo que não consegue perceber porque motivo os europeus vivem da forma que vivem. Certamente coloca as questões que nós colocariamos ao visitar a sua comunidade.

Encontram-se no livro conceitos como mais valia, divisão do trabalho, sustentabilidade ambiental, etc. Conceitos que não têm a riqueza erudita de Marx, de Adam Smith ou Durkheim mas que querem dizer o mesmo.

Tuiavii refere-se à mais valia dizendo que «…muitos Brancos há que amontoam o dinheiro que para eles outros ganharam».

Refere-se à divisão do trabalho, conceito introduzido por Adam Smith e aprofundado por Dirkheim, dizendo que «É uma coisa que se deve ter muita alegria ao fazer, mas raramente isso acontece. … Significa fazer sempre a mesma coisa, uma só coisa, e tantas vezes que se consegue fazê-la de olhos fechados e sem esforço algum.

Até se dá ao luxo de se referir à sobrealimentação, de que padecem grande parte dos europeus, menconando que « Lá na Europa existem pessoas que já não podem correr, pois criam muita gordura no ventre, como os porcos, porque têm que estar sempre parados, obrigados pela profissão. É raro ver um europeu que salte, que pule como criança, depois que fica adulto. Pelo contrário, quando anda, arrasta o corpo, como se alguma coisa travasse o seu movimento. Ele disfarça, nega esta fraqueza, dizendo que correr, pular, saltar não são decentes para um homem importante. Hipocrisia: é que seus ossos estão duros, sem movimento e seus músculos não têm mais animação porque a profissão o fez sonolento e morto. Ela lhe destrói a vida, insinua-lhe bonitas coisas, mas na realidade lhe chupa o sangue.»

Digam lá se o texto supra não é a cara chapada das preocupações que deveriam estar presentes na medicina do trabalho (ou medicina ocupacional como agora é elegante dizer).

Parece que o ser primitivo (como certamente o chamariamos se o vissemos nas nossas paragens) percebe o que quer dizer alegria no trabalho ao referir que «O Grande Espírito não quer certamente que fiquemos cinzentos por causa das profissões, nem que nos arrastemos feito as tartarugas e os pequenos animais rasteiros da lagoa. Ele deseja que continuemos felizes e firmes em tudo quanto fazemos; que não percamos a alegria dos nossos olhos e nem o contentamento com a simplicidade da vida.» Sem dúvida um autentico sindicalista que muito irritaria o Deus Capital.

E o que ele diz do dinheiro….Magnifico! «…a verdadeira divindade do homem branco é o metal redondo e o papel forte a que chama dinheiro.»

Pois é…quem é o primitivo?

Para Tuiavii pouco interesse terá “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, tal como “da divisão do trabalho social”, “O Capital”, “Economia e sociedade” e outras obras basilares da sociologia. Contudo, a verdade é que desprovido dos nossos “óculos do conhecimento” consegue escrutinar algo que para nós parece invisível.

Creio que este livro deveria ser lido por quem participa na conferência mundial sobre o ambiente que está a decorrer em Copenhaga. Todo ele é um apelo à ecologia, à vida em comunhão com a natureza e ao respeito pelo próximo.

Será que o nosso sistema cultural está em sintonia com aquilo que realmente somos? Não estaremos a incorrer num erro cada vez mais complicado de solucionar? Será que o nosso planeta não está a ficar doente? Não está na altura de tomarmos real consciência desse facto? É necessário que alguém de um outro “Mundo” nos venha dizer que o rei vai Nú?
Reflictam mas não desesperem.

Tuiavii in Erich Scheurmann, O Papalagui, Antigona, Lisboa, 1996.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Cibernética e a Teoria Geral dos Sistemas

A cibernética parte do pressuposto que tudo é comunicação. Constitui-se como uma ciência «…da comunicação e do controlo, nos sistemas….»[1]

Introduz igualmente o princípio da circularidade. Ou seja, o mecanismo de feedback é entendido como um meio de interactividade que permite que a informação ou energia circule e se configure como algo sistémico (holístico).[2]

Como nos diz Nogueira Dias «Paralelamente à criação da cibernética, desenvolve-se a teoria geral dos sistemas…».[3] Esta teoria, que se pretendia configurar como um paradigma transversal a diversas áreas científicas, propunha «…uma nova visão holística, como contra ponto da perspectiva simplificadora e atomizada de Descartes.».[4]

A teoria geral dos sistemas (TGS) defende, tal como a Cibernética, que a sucessiva divisão da ciência em áreas especializadas faz com que cada uma das áreas científicas fique enredada no seu casulo e a informação não flua. Isto é, cada área científica tende a funcionar como um sistema fechado e logo sujeito a processos entrópicos.

Podemos pois encontrar uma linha de intercepção e de concordância entre as perspectivas cibernética e a teoria geral dos sistemas. Quer isto dizer que ambas propõem uma visão global e integradora.

A TGS é uma “criação” de um Biólogo – Bertallanfy – e vem recuperar de alguma forma a metáfora orgânica proposta no século XIX por Herbert Spencer e por Durkheim. Esta teoria é desenvolvida em diversas fases entre os anos de 1950 e 1968.[5]

Para Bertallanfy um sistema é um todo composto por várias componentes interdependentes. Um sistema é sempre algo que está dentro de um universo (sistema) mais amplo.[6] Outra característica do sistema é o facto de este ser «qualitativamente superior à soma das partes que o compõem.»[7].

Outro princípio da TGS defende a existência de sistemas fechados que não interagem com o meio ambiente envolvente e de sistemas abertos que são permeáveis a elementos externos ao próprio sistema.

No caso dos sistemas abertos a troca de informação faz-se pela transferência de energia ou de informação.[8] Também neste aspecto existe uma relação evidente entre a TGS e a cibernética.

A troca de informação ou de energia entre os sistemas é igualmente um princípio cibernético.[9]

Tanto a cibernética como a TGS fazem parte daquilo a que Nogueira Dias refere como sendo o Paradigma Comunicacional em que os seus principais elementos são os conceitos de retroacção (de feedback) de holismo e de complexidade.[10]



[1] Fernando Nogueira Dias, Sistemas de Comunicação, de Cultura e de Conhecimento, Instituto Piaget, 2ª edição, Lisboa, 2007, p. 47.

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] Idem.

[7] Fernando Nogueira Dias, Op. Cit., p. 47.

[8] Retirado de http://www.lyfreitas.com/pdf/tgs.pdf, Novembro de 2009.

[10] Fernando Nogueira Dias, Op. Cit., p.52.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sociologia - Micro & Macro Teorias...


A Sociologia, apesar da multiplicidade de teorias existentes, acaba por se encontrar de alguma forma parametrizada entre uma abordagem positivista e uma abordagem compreensiva. Continuam a ser referências inquestionáveis as abordagens herdadas de Durkheim e de Weber. A este respeito Nogueira Dias[1] refere que «Na Sociologia podemos opor ao positivismo de Comte e Durkheim a compreensão empática de Max Weber.». Refere ainda este autor que «…A primeira perspectiva é identificada como paradigma positivista, o qual se preocupa com a extensão dos fenómenos…» «A segunda perspectiva é identificada como paradigma compreensivo…Como resultado destas preocupações, podemos nelas incluir as chamadas microssociologias…».

Durkheim tem uma frase extremamente esclarecedora sobre a sua visão da Sociologia e que serve para se entender a sua perspectiva Macro do social: «Para compreender a maneira como a sociedade se representa a si própria e ao mundo que a rodeia, é a natureza da sociedade, e não a dos particulares que devemos considerar.»[2]. Também Weber defende a sua perspectiva: «Sociologia (na acepção aqui aceite desta palavra empregue com tão diversos significados) designará: uma ciência que pretende compreender, interpretando-a, a acção social e, deste modo, explicá-la casualmente no decurso e nos seus efeitos.»[3].

Obviamente que a divisão entre micro e macro é um artificialismo metodológico e cientifico. A realidade não é Micro nem Macro é um todo indivisível. O que importa reter é que ambas as perspectivas são válidas em Sociologia desde que sejam cumpridas as regras inerentes à utilização dos métodos e das técnicas de investigação.

Existe igualmente a tendência de considerar a abordagem macro mais objectiva por se sustentar numa perspectiva “matemática” (método quantitativo) e a abordagem micro mais subjectiva por ter uma metodologia que assenta na compreensão das representações sociais dos indivíduos (método qualitativo). A este respeito Berger e Luckmann dizem que «Estas duas afirmações [perspectiva de Durkheim e de Weber] não são contraditórias. A sociedade possui, na verdade, uma factualidade objectiva. E a sociedade é, de facto, também constituída por actividades que exprimem um significado subjectivo. Durkheim, aliás, tinha conhecimento deste último enunciado, assim como Weber conhecia o primeiro.»[4].

Nenhuma abordagem se pode considerar mais correcta do que a outra. Tudo depende daquilo que o investigador pretenda estudar. Os grandes problemas sistémicos e de dimensão global não podem ter como ferramenta de descodificação da realidade social as abordagens qualitativas, tal como o estudo do que se passa num pequeno grupo social não deverá ser operacionalizado com ferramentas que não permitam apreender as representações sociais do grupo. Isto é, as ferramentas devem adequar-se à tipologia do “trabalho” que o investigador pretende realizar.

As microssocioligias partem do que é “mini” para as estruturas e sistemas sociais e as macrossociologias percorrem um caminho oposto. Existem autores mais defensores, por uma questão de abordagem do objecto de estudo, de um ou de outro modelo. Outros há que tanto usam as micro como as macrossociologias e por isso não gostam de ser rotulados. Abaixo indicam-se alguns autores e a respectiva abordagem:

Talcott Parsons, Robert Merton[5] (era essencialmente defensor de uma perspectiva mesossociológica), Norbert Elias, Pierre Bourdieu e Anthony Giddens – Macro

Peter Berger, Thomas Luckman, Aaron Cicourel - Micro


[1] Retirado de http://www.sociuslogia.com/artigos/fudam01.htm, Outubro de 2009.
[2] Émile Durkheim, As Regras do Método Sociológico, Editorial Presença, Lisboa, 10ª edição, 2007, p. 26.
[3] Max Weber, Conceitos Sociológicos Fundamentais, Edições 70, Lisboa, 2ª edição, 2005, p. 21.
[4] Peter Berger e Thomas Luckmann, A construção Social da Realidade, Dinalivro, Lisboa, 2ª edição, 2004.p. 29.
[5] Retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Merton, Outubro de 2009.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

José Saramago...o Anti Cristo?

A polémica do momento tem novamente como protagonista José Saramago e a Religião. Tudo isto porque o Sr. Nobel da Literatura não gosta da Biblia.

Não se excitem tanto que não vale a pena. Afinal a bíblia não passa de um livro. Aliás é exactamente isso que quer dizer BIBLIA. Se as pessoas criticam os livros de Saramago por que carga de água o Saramago não pode criticar os livros dos outros.

Os católicos que sosseguem. O Saramago critica o Deus do velho testamento. Esse é que era má pessoa. O do novo testamento era filho do mau mas parece que era bonzinho. O problema é que parece que era o mesmo. Grande confusão. Pois é a santíssima trindade tem destas coisas. São três entidades diferentes. No fim vai-se a ver são a mesma coisa. Parece que o senhor Deus tem 3 trabalhos diferentes. Uma vez é pai, outra é filho e de vez em quando é espírito santo. Com o desemprego que aí há creio que de facto é mesmo má pessoa.

Não deixa de ser curioso que todos nos insurgimos contra a censura violenta que a religião islâmica faz a todos aqueles que criticam o Corão ou os seus Profetas. Quando alguém critica a Bíblia, seja o velho ou o novo testamento, parece que a reacção muda de sentido e assumimos nós o papel dos que censuram.

Felizmente já não condenamos ninguém à morte. Certamente com muita pena da Santa Madre igreja.

Será que não se percebe que a Bíblia é uma obra semelhante a algumas mitologias, como a Grega. O que se pretende é retratar de forma alegórica a vida do homem na terra.

O velho testamento foi escrito num período em que a única justificação para a nossa existência era encontrada no sobrenatural. O Homem não dispunha de conhecimento suficiente para encontrar outras respostas.

A resposta encontrada funciona como meio de controlo e de paz social. A Bíblia, em particular o velho testamento – não esquecer que o velho testamento é comum às três religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – mais não é do que um conjunto de normas sociais que os indivíduos deviam cumprir para que fosse possível a vida em sociedade.

Vejamos os Dez Mandamentos:


Como se pode observar, os Dez Mandamentos variam consoante a religião. Logo este facto não deixa de ser interessante. Ou seja, só terá existido um Moisés, logo os mandamentos deviam ser apenas Dez e não Dez e qualquer coisa. Vamos basear-nos nos mandamentos Judaicos. Supostamente são os que estão mais próximo do original:
Eu Sou o SENHOR, o teu Deus – Obviamente não devemos ter diversos deuses. Estamos na presença do princípio da ditadura. Ou seja, devemos apenas obediência a um líder.
Não terás outros Deus para além de mim e não farás para ti nenhum ídolo – A primeira parte já está respondida. Não fazer nenhum ídolo é uma questão de respeito pelo líder. Ele é impossível de retratar. Qualquer cópia que seja feita não é suficientemente fiel à sua grandiosidade.
Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus – Obviamente que quem invocar o nome do Líder tem que ter cuidado. Normalmente quando falamos dos nossos líderes é para dizer mal. No regime Salazarista por exemplo quem invocasse o nome de Salazar era preso, não importando se estava a dizer bem ou mal da criatura.
Lembra-te do dia de Sábado para santificá-lo – todos os líderes em particular os ditadores gostam de ser bajulados.
Honra teu pai e tua mãe – importância da família como estrutura social.
Não matarás – princípio universalmente aceite e norma básica para a vivência em sociedade.
Não adulterarás – mais um princípio básico para a convivência social. Não nos esqueçamos que a tribo de Moisés terá vivido no deserto vários anos. Segundo a bíblia 40 anos. Resta saber qual era a medida utilizada. Como sabem o calendário Juliano data de 46 A.C e foi instituído por Júlio César. O calendário que presentemente utilizamos – Gregoriano – é apenas de 1582. Como tal seria impossível conviver numa tribo em que todos estivessem a dormir com os homens ou as mulheres dos outros. Certamente que a chapada e o pontapé seriam insuportáveis.
Não furtarás – Idem aspas aspas.
Não darás falso testemunho contra o teu próximo – Idem aspas aspas.
Não cobiçarás (a mulher do teu próximo e casa do teu próximo) – reparem o machismo. Não existe nada que diga não cobiçarás o homem do próximo. Sociedade eminentemente machista. Ainda por cima comparam a mulher a uma mercadoria (casa).
Como se pode ver os mandamentos são meros códigos de conduta social. Se quiserem ver a bíblia como algo mais do que uma cosmogonia que tenta explicar o universo e um conjunto de normas sociais estejam à vontade que eu não vos critico….agora que são CROMOS lá isso são.
Agora um pouco mais a sério. A Biblia é um documento magnifico e merece ser olhado com olhos de ver e sem hipocrisias.
A Biblia é muito mais do que um documento religioso. É sobretudo um testemunho da passagem do Homem por este planeta. É uma tentativa grandiosa de contar a nossa História. É um exemplo da nossa capacidade criadora. É tudo isto e muito mais. Contudo, é apenas um documento pensado e escrito por humanos e para os humanos. Quem achar que é algo mais tem todo o direito de o fazer. Nunca terá o direito de impedir os outros de terem uma opinião contrária.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Métodos e Técnicas em Sociologia


Existem diversas classificações no que concerne à definição de método. O mesmo ocorre relativamente às técnicas de investigação. Escolhemos uma abordagem de entre outras possíveis.

«Um método é um procedimento regular, explícito e passível de ser repetido para conseguir-se alguma coisa, seja material ou conceitual.»[1]

«Importa acima de tudo que o investigador seja capaz de conceber e de pôr em prática um dispositivo para a elucidação do real, isto é, no seu sentido mais lato, um método…»[2]

Em sociologia os métodos estão de alguma forma identificados com dois grandes modelos ou paradigmas conceptuais: positivismo – aponta essencialmente para preocupações sistémicas e de grande abrangência e que por isso recorre à utilização de métodos quantitativos com recursos a técnicas de tratamento estatístico. Compreensão Empática – que se centra essencialmente no estudo da acção social dos indivíduos e nas suas representações sociais. Neste contexto recorre-se a métodos eminentemente qualitativos, sendo a escala de observação de média e pequena dimensão.

«Em sociologia, investigadores quantitativos usam um conjunto de análises estatísticas e em certas situações, generalizações, para determinar o padrão dos dados e o seu significado, enquanto que investigadores qualitativos usam técnicas de fenomenologia e a sua visão do mundo para extrair significado.»[3]

Em termos gerais pode-se identificar o paradigma positivista com o método de observação indirecta e o paradigma da compreensão empática com o método de observação directa.

Pode pois dizer-se que os métodos utilizados na realização de um estudo dependem do modelo teórico que o investigador selecciona. Em sociologia existem diversos métodos, designadamente:

Etnográfico[4] – este método é de carácter eminentemente qualitativo e serve para apreender a vivência social dos indivíduos inseridos num determinado grupo. Obriga o investigador a viver a realidade que está a estudar por um período longo. Igualmente qualitativo é o método biográfico ou de histórias de vida[5] e que visa recolher o conhecimento que um ou mais indivíduos têm sobre um tema ou uma situação em que foram protagonistas. Experimental[6] – igualmente qualitativo visa o estudo de pequenos grupos de pessoas, por exemplo no âmbito das organizações. Inquéritos[7] – destina-se a abranger um número de pessoas mais alargado e é em muitos casos um dos métodos mais utilizados em estudos quantitativos.

Como forma de operacionalização dos métodos a Sociologia dispõe de diversas técnicas, tais como:

Entrevistas, questionários, observação participante, observação directa, sóciodrama, psicodrama, pesquisa documental, estatística, análise de conteúdo, etc.

[1] Mário Bunge, Epistemologia, T.A. Queiroz Editor, São Paulo, 2ª Edição, 1987, p. 19.
[2] Raymond Quivy, Manual de Investigação em Ciências Sociais, Gradiva, Lisboa, 5ª edição, 2008, p. 15.
[3] Retirado de http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/346.pdf
[4] Anthony Giddens, Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, 5ª Edição, 2007, Lisboa, p.648.
[5] Ibidem, p. 652.
[6] Idem.
[7] Ibidem, p. 649-650.

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