Para que serve este blogue?

Este blogue foi criado para servir de suporte à divulgação de trabalhos académicos que realizei ao longo da minha licenciatura em Sociologia, do meu mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais e do meu Doutoramento, que estou a frequentar, em Sociologia.

Sem pretender atribuir aos trabalhos uma importância que provavelmente não têm, creio, contudo, que estes podem servir de referência a estudantes e/ou pessoas em geral que tenham interesse pelas temáticas relacionadas com a Sociologia e logo relacionadas com todos nós.

Apesar do objetivo central do Blogue ser aquele que atrás se menciona, por vezes sou tentado a apresentar a minha opinião sobre algum tema que julgue sociologicamente relevante.

A minha opinião sobre temas actuais não está prisioneira do rigor metodológico e conceptual a que estão obrigados os trabalhos académicos.

C.Santana

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Prémio da Educação: O Tempo de Desemprego

  1. Introdução

É recorrente sermos confrontados, em diversos contextos, com o tema da educação e da sua relevância no desenvolvimento social, económico e cultural da sociedade portuguesa.

Este tema, para além de ser debatido em fóruns especializados, é igualmente trazido ao conhecimento dos indivíduos pelos órgãos de comunicação social, em particular pela televisão.

É consensual dizer que Portugal, quando comparado com os restantes países que partilham o espaço da União Europeia, é daqueles que mais baixos índices de escolarização apresenta. Apenas secundado por Malta.

O défice de qualificação, da população portuguesa, não pode ser explicado por razões de ordem genética, étnica ou simplesmente por ser fado. A verdade é que quarenta e oito longos anos de ditadura deixaram Portugal na cauda da Europa também no que concerne às qualificações.

Após trinta e seis anos decorridos sobre o 25 de Abril de 1974 e apesar do gigantesco salto verificado, em particular no que concerne à universalização do acesso ao ensino, Portugal continua a confrontar-se com níveis de qualificação, da população, que muito deixam a desejar num quadro de cada vez maior competitividade à escala global e de exigência face à complexificação da actividade produtiva.

A verdade é que o nível de qualificação dos indivíduos é um factor decisivo para a modernização tecnológica do tecido empresarial. Não é mais possível introduzir novas tecnologias nas empresas se para tal não existir mão-de-obra devidamente qualificada.

Artigos elaborados por diversos autores, designadamente por Pedro Portugal (2004), salientam o facto de se verificar uma relação directa entre escolarização e remuneração. Isto é, indivíduos mais escolarizados tendem a beneficiar de uma remuneração do trabalho mais elevada. Com o presente trabalho, pretendemos apresentar alguns contributos que permitam constatar que a escolaridade, para além de poder ser um meio para obter uma melhor remuneração, é um mecanismo protector dos indivíduos relativamente ao desemprego. Ou seja, os indivíduos mais escolarizados tendem a estar sujeitos a períodos menos prolongados de desemprego. Pretendemos ainda demonstrar que o tempo de escolaridade não é o único protector contra o desemprego prolongado e que importa conciliar tempo de escolaridade com área de formação.

  1. A Importância da Educação: O Capital Humano

A relevância da educação enquanto mecanismo diferenciador dos indivíduos, no mercado de trabalho, encontra suporte, designadamente, na teoria do capital humano.

Tal como nos diz Fátima Suleman (2007, p. 64) a teoria do capital humano explica algumas questões que ficaram por clarificar pela teoria neoclássica. Explica, designadamente, as razões que estão na base da diferenciação salarial que se verifica entre os indivíduos que estão empregados.

Para os teóricos, que arquitectaram a teoria do capital humano, a diferenciação salarial explica-se pelo facto dos salários estarem directamente ligados ao nível de escolarização dos indivíduos. Quanto mais anos de escolarização mais elevado o salário. Existe uma proporcionalidade directa entre anos de escolarização e salário. Esta relação, entre escolarização e salário, é designada por prémio da educação (Suleman, 2007, p.61).

A teoria do capital humano vem romper com a ideia neoclássica da homogeneidade da força de trabalho. Vem introduzir o princípio da heterogeneidade. Isto é, dá relevância à influência que as características específicas do indivíduo têm no trabalho produtivo (Suleman, 2007, p. 64).

Para a teoria do capital humano, tal como para o pensamento neoclássico em geral, o indivíduo é um ser racional. Como tal, cada indivíduo decide racionalmente quanto tempo pretende gastar em educação. O tempo que gasta em educação permitir-lhe-á, no futuro, auferir um rendimento que se adeqúe às suas expectativas (Saul, 2004, p. 232).

Se a teoria do capital humano dá destaque ao facto dos indivíduos mais escolarizados auferirem um salário mais elevado, a verdade é que são igualmente invocadas outras vantagens. Vantagens como a diminuição do desemprego, o status social mais elevado e a satisfação pessoal por se ter acesso ao conhecimento (Suleman, 2010).

Uma (re)inserção mais célere no mercado de trabalho contribui para uma diminuição do tempo de protecção social (i.e. diminuição dos custos com prestações de desemprego) e permite que mais rapidamente os indivíduos se tornem contribuintes através do pagamento de impostos e de contribuições para o sistema de segurança social.

Contudo, para a teoria do capital humano, a única métrica relevante é o número de anos que os indivíduos frequentam a escola, não sendo importante, designadamente, a área de formação escolar (Suleman, 2010). Assim, para a teoria do capital humano, todos os indivíduos com o mesmo tempo de escolaridade estão nas mesmas condições de acesso ao mercado de trabalho. O facto é que outros factores, como a área de formação, têm influência, não só na diferenciação salarial, que se verifica entre os indivíduos com o mesmo tempo de escolaridade (Portugal, 2004), mas também na maior ou menor facilidade que esses mesmos indivíduos têm no acesso ao mercado de trabalho.

  1. O Prémio da Educação: O Tempo de Desemprego

Com base nos dados disponíveis, apresentados no quadro I, podemos constatar que o mercado de trabalho, relativamente aos níveis de qualificação mais elevados, prefere claramente os indivíduos licenciados ou mestres. O mercado de trabalho prefere em primeiro lugar os mestres. Este grau de ensino poderá ter ganho relevância com a reformulação dos cursos de ensino superior no âmbito do acordo de Bolonha.

Verifica-se que os indivíduos com grau de bacharel viram o tempo de desemprego aumentar de forma sensível entre 2008 e 2010. Cerca de 12 meses de tempo médio de desemprego em 2008, para quase 15 meses em 2010. Apesar de todos os restantes graus de ensino superior seguirem uma tendência de subida, do tempo médio de desemprego, entre 2008 e 2010, essa subida é muito menos acentuada.

Quadro I – Tempo médio, em meses, de desemprego de candidatos a emprego diplomados

2008/10

2009/10

2010/10

BACHARELATO

12,2

12,8

14,6

LICENCIATURA

7,3

7,5

8,3

MESTRADO

6,6

5,6

6,7

DOUTORAMENTO

11,2

11,8

12,5

Média

7,8

7,9

8,7

No que concerne aos graus de ensino até ao ensino secundário, quadro II, verifica-se que os indivíduos com o ensino secundário (12º ano) são os preferidos pelo mercado de trabalho. Seguem-se os indivíduos com o 3º ciclo (9º ano). Contudo, a diferença entre o tempo médio de desemprego dos indivíduos com o 9º ano e os que apenas possuem o 2º ciclo (6º ano) não é significativo. Um dado curioso, que carece de uma justificação, é o facto do mercado de emprego absorver de forma mais rápida os indivíduos sem escolaridade (menos que o 1º ciclo), do que aqueles que possuem o 1º ciclo (4ª classe).

Regista-se uma diferença substancial entre o tempo de desemprego dos indivíduos que possuem o nível habilitacional mais elevado (secundário) e aqueles que apenas detêm o primeiro ciclo. Ou seja, os indivíduos que possuem o ensino secundário estiveram em média menos 10 meses desempregados em 2008 do que os que possuem o 1º ciclo e em 2010 menos 8 meses.

Quadro II – Tempo médio, em meses, de desemprego de candidatos a emprego com habilitação até ao secundário

200810

200910

201010

< 1º CICLO

19,5

16,9

18,4

1º CICLO

20,2

17,9

19,9

2º CICLO

11,9

11,1

13,6

3º CICLO

11,3

10,6

12,2

SECUNDÁRIO

9,4

9,0

10,3

Média:

14,5

13,0

14,7

Se analisarmos a informação em conjunto, quadro III, isto é, se considerarmos na mesma análise todos os níveis habilitacionais, verificamos que os indivíduos detentores de um bacharelato ou de um doutoramento permanecem mais tempo desempregados do que os indivíduos com o ensino secundário. Verifica-se ainda, que os bacharéis permanecem igualmente mais tempo desempregados do que os indivíduos com o 2º ou 3º ciclos. Os doutorados têm um tempo de desemprego muito similar ao dos indivíduos com o 3º ciclo.

Resulta da análise deste quadro que a licenciatura e o mestrado são os níveis habilitacionais que garantem aos indivíduos uma colocação mais rápida no mercado de trabalho. Segue-se o ensino secundário.

Quadro III– Tempo médio, em meses, de desemprego de candidatos a emprego, por nível habilitacional

2008/10

2009/10

2010/10

< 1º CICLO

19,5

16,9

18,4

1º CICLO

20,2

17,9

19,9

2º CICLO

11,9

11,1

13,6

3º CICLO

11,3

10,6

12,2

SECUNDÁRIO

9,4

9,0

10,3

BACHARELATO

12,2

12,8

14,6

LICENCIATURA

7,3

7,5

8,3

MESTRADO

6,6

5,6

6,7

DOUTORAMENTO

11,2

11,8

12,5


O tempo médio de desemprego dos diplomados situa-se entre aproximadamente 8 meses em 2008 e os 9 meses em 2010. Por seu lado, o tempo médio de desemprego dos indivíduos com nível habilitacional até ao secundário, varia entre 14,5 meses em 2008 e aproximadamente 15 meses em 2010. Isto é, o tempo médio de desemprego de um indivíduo com um nível habilitacional até ao secundário é quase o dobro do de um indivíduo diplomado.

Analisemos agora a interferência que as áreas de formação têm no tempo de desemprego dos diplomados. O quadro IV lista um conjunto de áreas de formação e os respectivos tempos médios de desemprego a que os indivíduos com formação superior, em cada uma das áreas de formação apresentadas, estão sujeitos.

Quadro IV – tempo médio de desemprego dos indivíduos diplomados, por área de formação

2008/10

2009/10

2010/10

ENFERMAGEM

3,3

3,9

4,7

ENGENHARIA, INDÚSTRIAS TRANSFORMADORAS E CONSTRUÇÃO

-

4,2

5,1

MATEMÁTICA

6,2

6,9

6,0

CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

5,2

5,3

6,3

CIÊNCIAS INFORMÁTICAS

6,5

6,8

7,9

CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS

6,4

6,6

7,9

QUÍMICA

8,5

9,0

8,8

ARQUITECTURA E URBANISMO

7,1

7,0

9,0

GESTÃO E ADMINISTRAÇÃO

8,0

8,4

9,9

MEDICINA

7,5

8,5

10,3

CONTABILIDADE E FISCALIDADE

8,9

9,4

10,6

ECONOMIA

10,2

9,9

11,6

DIREITO

10,8

10,7

12,3

CIÊNCIAS SOCIAIS E DO COMPORTAMENTO

22,9

21,8

26,1

FILOSOFIA HISTÓRIA E CIÊNCIAS AFINS

29,0

40,5

36,0


Os dados apresentados demonstram claramente que existe uma amplitude, de tempo médio de desemprego, muito acentuada, entre as diversas áreas de formação. Se os indivíduos que são detentores de um diploma na área de enfermagem necessitam apenas, em 2010, de 4,7 meses para encontrar um emprego, os indivíduos diplomados em filosofia ou história precisam de 36 meses.

  1. Considerações Finais

É recorrente os órgãos de comunicação social veicularem a ideia, pouco fundamentada, que o desemprego afecta de forma aguda os indivíduos que detêm habilitações de nível superior. Em particular os licenciados. Esta ideia é muitas vezes interiorizada pelos indivíduos, de forma acrítica, o que gera na opinião pública a sensação que estudar não compensa. Outra ideia errada e que é consequência da primeira, claramente contrariada pelas estatísticas de organismos internacionais como a OCDE ou União Europeia, é que Portugal tem excesso de diplomados.

Os dados apresentados, permitem concluir que a escolaridade compensa. Contudo, importa referir que o prémio da educação, em termos de redução do tempo de desemprego, não é igual para todos. Isto é, indivíduos com o mesmo nível de escolarização (ex: licenciados) não estão todos em pé de igualdade, existem áreas de formação que permitem a obtenção de um emprego num período de tempo mais curto do que outras.

Por outro lado, verifica-se que nem sempre mais tempo de escolarização corresponde a uma maior facilidade na obtenção de emprego. Bacharéis e doutorados têm mais dificuldade de encontrar emprego do que os indivíduos com o ensino secundário e mesmo do que aqueles que apenas possuem o 9º ano. Podem equacionar-se diversas justificações para esta realidade. No caso dos bacharéis, pode avançar-se como hipótese, o facto de ser um título desvalorizado pelo mercado de trabalho, em parte, pelo facto de ter sido extinto pelo Acordo de Bolonha e no caso dos doutorados pelo facto do tecido empresarial português estar pouco receptivo à integração de indivíduos que são em muitos casos considerados pouco próximos da realidade empresarial e muito conotados com a área da investigação.

Podemos pois concluir que, em termos gerais, a escolarização compensa. Mais escolarização menos tempo de desemprego. Contudo, para uns compensa mais do que para outros.



Referências Bibliográficas


Portugal, Pedro (2004), Mitos e Factos Sobre o Mercado de Trabalho Português: A Trágica fortuna dos Licenciados, Boletim Económico, Banco de Portugal;

Renato, P. Saul (2004), As Raízes Renegadas da Teoria do Capital Humano, Sociologias, Porto Alegre;

Suleman, Fátima (2007), O Valor das Competências – Um Estudo Aplicado ao Sector Bancário, Livros Horizonte, Lisboa;

Suleman, Fátima (2010), conjunto de slides respeitantes à aula 6 da Cadeira de Economia do Trabalho do Mestrado em Ciências do Trabalho e Relações Laborais;

http://epp.eurostat.ec.europa.eu

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Taylorização dos Call Centers?

Introdução

Os Call Centers são uma realidade cada vez mais presente no âmbito das organizações. Esta realidade resulta de diversos factores. Por um lado pelo facto das organizações pretenderem reduzir custos ao nível da prestação dos serviços, diminuindo a sua força de trabalho e externalizando em regime de outsourcing funções que consideram com pouco valor acrescentado, e por outro como resultado das exigências dos clientes que pretendem ver os seus problemas resolvidos sem a necessidade de se deslocarem fisicamente às instalações das organizações prestadoras de serviços.

Seja como for a verdade é que os Call Centers são uma realidade que veio para ficar e pelos dados disponíveis se encontram em expansão.

Pretendemos, com este trabalho dar alguns contributos para a discussão em torno da inevitabilidade da aplicação do modelo de Organização Cientifica do Trabalho Taylorista à actividade dos call-centers.

Começaremos por apresentar alguns aspectos relevantes para a definição do conceito de Call Center e para o entendimento da tecnologia utilizada.

Passaremos em seguida a analisar o modelo de organização do trabalho existente nalguns Call Centers estudados por diversos autores e tentaremos encontrar similitudes desse modelo com o modelo de organização do trabalho proposto por Taylor.
Abordaremos em seguida aspectos que classicamente estão relacionados com o modelo Taylorista: Divisão do Trabalho, Alienação e Controlo Social.

Antes de finalizarmos relatamos uma experiência de trabalho que demonstra que o modelo Taylorista não é a única forma de organização do trabalho possível de encontrar num Call Center.


«Os operadores de call center são trabalhadores com uma cadeia de montagem na cabeça»
Bono. 2000


1.Call Centers: O Conceito e a Tecnologia

As estruturas criadas para permitir o atendimento à distância utilizando como mecanismo de comunicação o telefone, designam-se, em inglês, de Call Centers. Estas estruturas permitem que as organizações, recorrendo ao outsourcing ou a recursos internos, prestem serviços ou meramente informação aos seus clientes.

Neste contexto, poder-se-á referir que os Call Centers são estruturas que existem nas organizações desde que estas dispõem de telefone e de colaboradores capazes de utilizar esse equipamento como instrumento de interacção com terceiros. Nesta óptica, os Call Centers são estruturas que surgem no inicio do século XX e como tal perfeitamente integradas numa sociedade industrial de tipo tradicional. Contudo, o termo Call Centers, começou a ser usado de forma mais frequente a partir dos anos de 1980 e por relação com a introdução das novas tecnologia de informação e comunicação (TIC) como elemento caracterizador deste tipo de estrutura (Rijo et al, 2006).
Os Call Centers recorrem às TIC o que possibilita a integração de voz e dados. Esta tecnologia permite igualmente gerir um número elevado e simultâneo de chamadas telefónicas e proceder ao seu balanceamento, tratando-se de chamadas em regime de inbound , em função do número de operadores afectos ao atendimento (Rijo et al, 2006).

Outro termo em língua inglesa muito usado e que por vezes se confunde com o de Call Center é o de Contact Center. Para Rijo et al (2006) os Contact Centers são estruturas que se configuram como que numa espécie de upgrades dos Call Centers. Os Contact Centers utilizam tecnologia multi-canal. Isto é, a crescente utilização de canais de contacto como o e-mail, a internet, fax, sms, etc., fez com que as organizações incorporassem outras tecnologias no processo comunicacional que estabelecem, designadamente, com os seus clientes. Temos pois, um conceito de estrutura que assenta na diversificação dos canais de contacto, por oposição ao Call Centers que utilizam apenas a tecnologia de voz (telefone) como meio de interacção.
Assim, poderemos referir que os Contact Centers são a nova geração de Call Centers.

A internet, como instrumento integrado na prestação de serviços através de um Contact Center, tem uma característica fundamental que a diferencia dos restantes canais de contacto (ie, telefone, e-mail, fax, sms). Apela ao auto-serviço (self-service). Os utilizadores deste canal devem ser autónomos na procura do serviço ou da informação que pretendem obter. Todos os demais canais indicados necessitam de um interlocutor para a obtenção do serviço ou da informação. Todos os demais canais carecem de um operador.

Apesar da existência de múltiplas formas de contacto, o canal telefónico é um dos mais utilizados e é aquele que permite um contacto em tempo real e uma interacção mais próxima do contacto face-a-face (Marques, 2004, 57). Assemelha-se ao atendimento presencial embora encerre dificuldades particulares. O atendimento telefónico não está desenhado para ser exploratório, aprofundado e consequentemente demorado.

Geralmente, salvo algumas excepções, o cliente que utiliza o telefone requer um serviço concreto e pretende obter uma resposta rápida.

Já referimos a evolução que se verificou ao nível do conceito de Call Center, tendo este conceito dado lugar ao de Contact Center. Contudo, apesar da diferenciarão conceptual existente iremos apenas utilizar a designação de Call Center.

Os Call Centers dos dias de hoje caracterizam-se por incorporarem tecnologia informacional e comunicacional sofisticada, por oposição ao que ocorria com os tradicionais telefones. Ao contrário do que faziam os telefonistas, que se limitavam a atender as chamadas e a registar o pedido do cliente para que alguém mais tarde devolvesse a resposta, os operadores de Call Center dispõem de instrumentos de trabalho que lhes permitem responder a um conjunto de questões colocadas pelos clientes. Para além disso, podem igualmente funcionar como agentes dinamizadores dos serviços prestados ou dos produtos comercializados pela organização para a qual trabalham. Para tal, configuram-se como operadores de telemarketing que contactam telefonicamente potenciais clientes interessados em adquirir o que a organização “vende”. Esta realidade impõe que os operadores sejam indivíduos com conhecimentos elevados, nomeadamente, ao nível das TIC pois têm que operar diverso software de forma competente (Santos & Marques, 2006, 68, Marques, 2004, 59).
Um aspecto relevante das empresas de Call Centers é o facto de estas poderem trabalhar em regime de outsourcing para diversas organizações e assim prestarem serviços em áreas diversificadas. São igualmente caracterizadas por serem extremamente flexíveis em termos de localização geográfica, graças a recorrerem a tecnologias que permite a sua fixação em qualquer parte do mundo, e por apresentarem uma gestão dos recursos humanos muito plástica com o recurso quase que exclusivo ao trabalho temporário (Santos & Marques, 2006, 68).

Toda esta plasticidade das empresas de Call Centers concorre para que as organizações que a elas recorrem externalizem as funções que não consideram parte do seu core business e por essa via diminuam custos (Kovacs, 2006, 45).
O facto de os operadores trabalharem em empresas de Call Centers, prestadores de serviços em regime de outsourcing, faz com que estes desconheçam a missão e a cultura de cada uma das organizações clientes das empresas de Call Centers. Por outro lado, os operadores, em muitos casos, trabalham para diversas organizações, não estando por isso costumizados a uma organização em concreto.

Considerando que as empresas de Call Centers são prestadoras de serviços a diversas organizações é necessário que estas tenham bem definidos e delimitados os serviços que prestam. Assim, as organizações que recorrem às empresas de Call Centers devem elaborar uma listagem rigorosa e precisa da informação que pretendem que os operadores prestem aos seus clientes. A informação é assim padronizada e formatada em scritps . Os operadores devem limitar-se a informar os clientes de acordo com a informação previamente elaborada e contida nos scipts (Venco, 2006, 8; Marques, 2004, 62).

Resumidamente, poderemos referir que as empresas de Call Centers são estruturas que baseiam a sua actividade na utilização das TIC, caracterizam-se pela flexibilidade estrutural, de localização e de gestão de recursos humanos, podendo prestar serviços a diversas organizações em simultâneo.

2.Organização do Trabalho nos Call Centers

Como já tivemos oportunidade de referir, os operadores dos Call Centers devem limitar-se a “dizer” aos clientes aquilo que está expresso nos scripts. Ou seja, são meros executantes de um conjunto de tarefas previamente definidas.

Esta regra de considerar o operador como um mero executante, de uma tarefa que alguém previamente concebeu, aproxima a organização do trabalho existente nos Call Centers de um modelo Taylorizado e de certa forma característico das unidades industriais mais tradicionais. A principal diferença reside no facto do operador de Call Center operar um computador e um trabalhador de uma fábrica Taylorizada operar uma máquina industrial. Existe como que uma diferenciação pouco perceptível, como refere Madureira (2000), uma fronteira muito ténue entre o que se pode considerar industria e serviços. Em particular nos sectores que utilizam as TIC como ferramenta base do trabalho.

Taylor divide a produção em dois momentos chave. Por um lado a concepção que deverá estar a cargo dos engenheiros e dos donos da empresa. Por outro lado a execução que compete aos operários. Os operários devem ser desencorajados de pretenderem intrometer-se em matérias referentes à concepção. Aos trabalhadores não compete pensar mas apenas executar (Freire, 2002).

Nos Call Centers também existe quem define o que fazer e como fazer (quem desenha, designadamente, os scripts) e quem tem que operar o software de forma a prestar a informação requerida pelos clientes (os operadores). Existe uma nítida separação entre trabalho de concepção e trabalho de execução.

O Taylorismo caracteriza-se ainda pela concepção do processo produtivo como algo que deverá reger-se por regras “científicas”. Todos os movimentos efectuados pelos trabalhadores devem ser pensados e calculados de forma a se encontrar a melhor forma de executar determinada tarefa (one best way).

Nos Call Centers os scripts são desenvolvidos de forma encontrar a melhor forma de responder ao cliente. Os operadores não devem personalizar as respostas. Devem sempre responder da mesma forma. Não devem acrescentar valor à sua intervenção. Devem operar de forma “mecânica” (Santos, 2007, 151; Venco, 2006, 9).

Os operadores estão completamente dependentes dos equipamentos informáticos, sendo como que uma espécie de extensão desses equipamentos. Falhando os equipamentos os operadores ficam incapacitados de encontrar as respostas que os clientes procuram.
Como referem Marx e Engels, todas as actividades interessantes foram absorvidas pelo trabalho mecanizado, ficando os operários apenas com o trabalho mais simples e por consequência mais monótono. Para estes autores, o Homem tornou-se como que um servo da máquina (Marx & Engels, 2004, 43). Esta mesma realidade está de alguma forma presente no trabalho dos operadores dos Call Centers.

3.Divisão do Trabalho

Taylor pretendia que as tarefas a executar pelos trabalhadores fossem extremamente simples. É através da repetição dos gestos que se obtém a maximização da produtividade. Taylor levou a «(…) divisão do trabalho a um ponto até então desconhecido» (Freire, 2002, 57)

Era seu objectivo ocupar cada trabalhador com uma ínfima parte das tarefas necessárias à produção de um determinado bem. Aquilo a que Friedman chama de trabalho em migalhas.

Braverman (1977) ao criticar a lógica capitalista da divisão do trabalho, destaca o facto do processo de divisão do trabalho existente nas fábricas Tayloristas estar a ser disseminado para o escritório muito por via da informática. Para Braverman, inicialmente os trabalhadores da informática eram multifuncionais e asseguravam a operação integral dos diversos processos e em diversas máquinas. Com a evolução da informática o sistema capitalista de produção hierarquizou e dividiu o trabalho, deixando para os trabalhadores, os operadores dos computadores, as tarefas mais rotinadas e enfadonhas (Braverman, 1977, 278-279). O relato de Braverman parece ser feito à medida daquilo que é a actividade diária dos operadores de Call Centers.
A divisão do trabalho enquanto fenómeno social não é um tema pacífico. A divisão do trabalho resultou da crescente e sistemática mecanização dos processos de trabalho.
Braverman (1977) considera a divisão do trabalho como uma das principais inovações do sistema capitalista de produção. Braverman distingue a divisão de tarefas da divisão do trabalho. A divisão de tarefas é visto no contexto social alargado, enquanto que a divisão do trabalho é vista num contexto mais específico, no contexto de uma actividade produtiva em concreto. A divisão de tarefas dá-se através das diversas profissões e ofícios. Cada profissão ou ofício é constituído por múltiplas tarefas. A diversificação de profissões e de ofícios permite satisfazer as diversas necessidades sociais do Homem. Por seu lado, a divisão do trabalho dá-se no interior de uma unidade de produção e consiste na divisão sistemática e sucessiva de uma profissão ou oficio em pequenas tarefas. Tarefas essas que são executadas de forma mecânica e standardizada (Braverman, 1977, 70).

Nesta perspectiva, a divisão do trabalho é algo negativo para os operários. Os operários deixam de controlar o processo produtivo e ficam reduzidos à operação de tarefas fáceis e pouco qualificadas.

Na mesma linha de raciocínio argumenta Adam Smith ao referir que «O espírito da maior parte dos homens desenvolve-se necessariamente a partir das e pelas suas ocupações de cada dia. Um homem que passa toda a vida a desempenhar algumas operações simples… não tem oportunidades de exercer a inteligência… Torna-se em geral o mais estúpido e ignorante que uma criatura humana pode ser.» (in Marx, 1976, 79)

Igual raciocínio tem Urquhardt ao referir que «Subdividir o homem é executá-lo, se mereceu a pena; é assassiná-lo, se não a merece. A subdivisão do trabalho é o assassínio de um povo». (in Marx, 1976, 79)

Ambas as opiniões referenciadas (Adam Smith e Urquhardt) servem de argumento a Marx, na sua obra O Capital, como forma de ilustrar as consequências funestas da divisão do trabalho para os operários. Ao contrário da divisão do trabalho que é um meio de estupidificação do Homem, Marx contrapõe o trabalho cooperativo. O trabalho cooperativo, para Marx, possibilita que os trabalhadores, de uma determinada profissão, incorporem no produto do seu trabalho todas as suas capacidades politécnicas. Ou seja, apesar de poderem estar envolvidos no processo produtivo de um determinado bem, um conjunto diversificado de profissões, a verdade é que cada trabalhador desempenha diversas tarefas da mesma profissão. O conjunto de diversas profissões concorre para o resultado final. Para a criação de um novo produto.
Marx dá como exemplo do trabalho cooperativo a construção de um coche e refere que «Um coche por exemplo, foi o produto colectivo de um grande número de operários independentes uns dos outros, como carpinteiros correeiros, talhadores, serralheiros, torneiros (…)». (Marx, 1976, 64). Por outro lado, Marx refere que na divisão do trabalho o trabalhador passa apenas a executar uma tarefa do conjunto alargado de tarefas que constituem uma profissão.

Emile Durkheim por seu lado tem uma opinião contrária a respeito da divisão do trabalho. Para este autor, a divisão do trabalho é o resultado de um processo social de evolução que conduziu a sociedade a um determinado estado de desenvolvimento. A divisão do trabalho é um fenómeno da sociedade pós revolução industrial. Na sociedade pós revolução industrial o papel do Homem é especializar-se é constituir-se enquanto «órgão da sociedade, e a sua acção específica, por consequência, é desempenhar o seu papel de órgão». (Durkheim, 1984, 201)

Para Durkheim a divisão do trabalho, mais do que um fenómeno com reflexos apenas no mundo do trabalho, é algo com consequências transversais a toda a vida social. A divisão do trabalho é considerada como uma fonte de solidariedade social. É pela divisão do trabalho que os indivíduos estabelecem laços de interdependência funcional. A solidariedade que resulta da divisão do trabalho e que caracteriza as sociedades industriais é de tipo orgânico. Ou seja, cada indivíduo assume o papel de órgão por via da divisão do trabalho e da especialização que lhe está subjacente (Durkheim, 1984).

Independentemente das visões e dos juízos de valor que se possam ter relativamente à divisão do trabalho, a verdade é que no caso particular dos operadores de Call Center parece evidente que a divisão do trabalho se estabelece de forma muito similar à que está presente nas empresas industriais em que a organização do trabalho se efectua com base nos referências de Taylor ou em abordagens designadas de neo-tayloristas. Nos Call Centers encontramos uma realidade a que Kovacs (2006) designa por “empresas cabeça” e “empresas mão”. As “empresas cabeça” são as que externalizam os seus serviços para as “empresas mão” que executam as tarefas previamente estabelecidas. Nas “empresas cabeça” reside o know-how e o trabalho qualificado, nas “empresas mão” o trabalho de execução pouco qualificado.

A mesma visão relativamente à desqualificação do trabalho dos Call Centers é transmitida por Giddens quando este refere que «À semelhança da industrialização a “revolução da informação” parece ter produzido um largo número de empregos rotineiros e sem qualificações.» (Giddens, 2007, 384)
Tivemos oportunidade de verificar que a divisão do trabalho é vista por alguns autores como um factor que se pode considerar de desqualificação do trabalho ou mesmo alienante.

4.A Alienação

Uma das consequências da divisão do trabalho, apontadas por alguns autores, em particular por aqueles que dão sequência à obra e pensamento de Marx, é a alienação a que os trabalhadores estão sujeitos ao executarem de forma sistemática tarefas repetitivas, rotinadas e mecânicas.

A alienação é vista por Friedman (1973) como uma inevitabilidade da sociedade industrial e como algo a que a generalidade dos trabalhadores não pode fugir. O trabalho criativo e não alienante é segundo este autor um bem cada vez mais escasso.

De acordo com Grint e Edgell, Marx vê a alienação a partir de quatro dimensões diferenciadas. (i) Os produtores (os trabalhadores) não têm qualquer controlo no processo produtivo. Os verdadeiros obreiros da produção vêem-se assim separados, alienados, do processo produtivo. O resultado do trabalho é meramente visto numa perspectiva capitalista de lucro e não como um meio de satisfação de uma necessidade Humana. (ii) A divisão do trabalho fragmenta todo o processo produtivo o que faz com que as tarefas executadas pelos trabalhadores sejam algo desconexas o que contribui para que a criatividade e a satisfação do trabalho sejam eliminados. (iii) A necessidade de maximização do lucro impele à competitividade, colocando os indivíduos uns contra os outros e contribuindo desta forma para a degradação das relações sociais. (iiii) As mercadorias que são o produto derivado do trabalho Humano acabam por dominar os seus criadores (Grint, 1998, 117; Edgell, 2009, 29).

Destas quatro dimensões parece-nos que a mais visível no trabalho dos operadores dos Call Centers é a segunda. Nesta dimensão faz-se referência à fragmentação, ao trabalho esmigalhado, pela divisão do trabalho. Isto mesmo é retratado por Marques ao reproduzir um excerto de uma entrevista que realizada por Bono a um operador de Call Center:

«Eu tenho a possibilidade de realizar um trabalho muito melhor. Aqui coloco o piloto automático. (...) É como ser um respondedor automático mas vivo, com personalidade. Nós sentamo-nos e falamos como um robot.» (Marques, 2004, 61)

Nos Call Centers pode-se dizer que os operadores estão duplamente alienados. Por um lado estão alienados por via da divisão do trabalho e por outro, pelo facto de não estarem identificados, implicados, com a organização a quem indirectamente prestam o serviço. Os operadores são em muitos casos pagos por uma empresa, trabalham fisicamente noutra e prestam serviço a uma terceira (Marques, 2004).

5.O Controlo Social

Um dos aspectos mais diferenciadores da organização do trabalho de tipo Taylorista é a preocupação que existe no registo e na cronometragem de todas as operações. Desta forma consegue-se identificar erros, melhorar procedimentos e avaliar o trabalho dos operários (Freire, 2002, 57-58). Todos estes aspectos se consubstanciam num processo de controlo social do trabalho.

Este fenómeno de controlo do trabalho está igualmente presente nas profissões que utilizam como instrumentos de trabalho as TIC. Os operadores de Call Centers são continuamente controlados por meios electrónicos. Giddens refere a este respeito que «As interacções destes empregados, fortemente controlados, com os clientes são registadas para “assegurar a qualidade”.» (Giddens, 2007, 384).

Os operadores são controlados na qualidade do seu trabalho, designadamente através da auditoria às chamadas telefónicas que efectuam, ao tempo que demoram em cada chamada e aos tempos mortos ente chamadas (Marques, 2004, 63; Venco, 2006, 9; Santos & Marques, 2006, 71).

Este tipo de controlo do trabalho difere do verificado nas empresas industriais ou mesmo de outras actividades do sector dos serviços. Neste caso, o controlo é permanente e exercido por “máquinas”. São as “máquinas” que através de software sofisticado grava as chamadas telefónicas, regista as estatísticas dos tempos que cada operador demora a atender os clientes e os tempos mortos entre cada chamada. Neste caso, utilizando a terminologia Marxista, o Homem é um servo da “máquina” porque trabalha segundo a sua vontade e sujeita-se ao seu controlo.


6.Uma Experiência Diferente?

Será inevitável que em todos os Call Centers se assista a uma Taylorização dos processos de organização do trabalho e a uma intensificação da divisão do trabalho com consequências alienantes para os operadores? Esta poderia ser a pergunta de partida para uma investigação sobre a realidade do trabalho nos Call Centers. Contudo, não é essa a nossa intenção.

Depois de termos efectuado uma revisão de literatura relevante sobre as temáticas desenvolvidas ao longo deste trabalho e de termos constatado a proximidade existente entre as fábricas Tayloristas e as empresas de Call centers, pretendemos relatar a experiência vivenciada pelo autor deste trabalho no âmbito de um Call Center.

Trata-se de um Call Center de um serviço da Administração Pública.

O modelo utilizado por este organismo, durante os anos de 2006 a 2008, estava estruturado em duas linhas de atendimento:

1ª Linha

Prestação de informação elementar sobre a actividade desenvolvida pela organização em causa.

Os utentes contactavam com a 1ª linha utilizando o telefone e o e-mail.

Todos os serviços afectos à 1ª linha eram prestados em regime de outsourcing.

2ª linha

Prestação de informação complexa e resolução de processos.

Os utentes apenas contactavam a 2ª linha através do encaminhamento providenciado pela 1ª linha.

Sempre que a informação ou o serviço pretendido pelo utente fosse da responsabilidade da 2ª linha, os operadores afectos à 1ª linha procediam à transferência das chamadas telefónicas ou ao encaminhamento dos e-mails.

Todos os serviços prestados pela 2ª linha eram desenvolvidos por técnicos da organização.

Neste contexto e tendo por base a diferenciação entre trabalho pouco qualificado, desenvolvido em regime de outsourcing (1ª linha) e trabalho qualificado desenvolvido dentro da organização (2ª linha), pretende-se demonstrar a coexistência, de um modelo organizacional do trabalho próximo do modelo Taylorista e de outro que privilegia a qualificação do trabalho e a autonomia dos técnicos.

Tal como no taylorismo, o atendimento de 1ª linha não tinha preocupações com a costumização dos clientes. Todos eram tratados e informados da mesma forma standardizada e uniformizada. Standardizada e uniformizada pelo facto de o operador se limitar a consultar um scipt que devia seguir. O operador não adicionava valor à sua intervenção. Baseiava-se apenas num mero sistema automatizado que debitava informação previamente preparada. Ou seja, executava uma tarefa que alguém previamente concebeu e sistematizou. Este Modelo é idêntico ao que já tivemos oportunidade de referenciar ao longo de todo este trabalho.

Por seu lado, os técnicos que operavam na 2ª linha resolviam processos e prestavam informação qualitativa e personalizada ao utente.

Personalizada porque pretendia resolver um problema em concreto e da forma mais adequada às expectativas e características do utente em causa. Verifica-se pois uma costumização da prestação do serviço.

Se podemos detectar alienação do trabalhador face ao trabalho na 1ª linha, por via do seu descomprometimento face à informação que presta, devido à divisão do trabalho e por desconhecer de forma holística a cultura e a missão da organização a que presta o serviço, o mesmo não se pode dizer dos técnicos da 2ª linha. Neste caso existe uma implicação directa no trabalho pois a personalização da prestação do serviço obriga a que o trabalhador adicione valor à intervenção e não se limite a cumprir procedimentos estereotipados e pré-formatados.

Os técnicos afectos à 2ª linha trabalhavam na sua maioria, à excepção daqueles que estavam afectos directamente aos serviços centrais , de forma rotativa. Foi criada uma bolsa de trabalhadores que permitia que os colaboradores do Call Center efectuassem rotatividade funcional. Apenas estavam afectos ao Call Center cerca de uma semana de três em três meses. No resto do tempo estavam afectos à sua unidade orgânica de trabalho. Este processo de rotatividade permitia que os técnicos não cristalizassem conhecimentos e que tivessem uma visão integrada do que se passa em ambos os lados: trabalho no terreno e trabalho de atendimento à distância. Estes factores reduzem a alienação do trabalho e contribuem para uma polifuncionalidade dos colaboradores. Estes colaboradores, em particular os que estavam afectos à unidade central, para além de se assumirem como operadores da 2ª linha de atendimento, eram igualmente responsáveis pela coordenação operacional do serviço, pelo desenho dos scripts e pela elaboração e aplicação dos conteúdos de formação. A formação dos operadores de 1ª linha era ministrada pelos técnicos afectos à 2ª linha.

Os operadores afectos à 1ª linha eram todos contratados através de empresas de trabalho temporário. Verificava-se uma rotatividade bastante grande de operadores. Parte dos operadores estavam afectos apenas ao trabalho do Call Center do organismo embora a maioria não tivesse exclusividade. Isto é, trabalhavam para diversos clientes da empresa de Call Centers.

Por seu lado, os operadores da 2ª linha eram todos técnicos pertencentes ao organismo, com contrato de trabalho sem termo e com exclusividade de funções.

Os operadores da 1ª linha estavam sujeitos ao controlo do trabalho através de mecanismos electrónicos. Os operadores de 2ª linha não.

Este pequeno relato demonstra a polaridade existente em termos de qualificação do trabalho e no que concerne ao vínculo laboral. Os trabalhadores tipicamente de Call center (1ª linha) têm trabalho precário e pouco qualificado, enquanto que os técnicos do organismo têm trabalho qualificado e duradouro. Como refere Kovacs (2006, 43), podem coexistir numa mesma empresa modelos de organização do trabalho contraditórios.


Considerações Finais

Em Portugal tem sido notada a intervenção de um grupo designado por Precários Inflexíveis (PI). Este grupo tem efectuado diversas demonstrações de forma a fazer chegar ao grande público a sua opinião sobre, designadamente, o trabalho efectuado nos Call Centers. Em declarações ao semanário Sol um dos activistas insurge-se contra a forma como são tratados os trabalhadores:

«Os trabalhadores e trabalhadoras dos Call Centers estão entre os mais explorados e mais chantageados. São policiados no seu local de trabalho, forçados a ritmos de trabalho desumanos, pressionados permanentemente, sem quaisquer condições ou direitos, com elevada rotatividade e salários muito baixos. O trabalho nos Call Centers é um exemplo flagrante de um modelo que se tenta impor e ameaça o conjunto da classe trabalhadora»

Este exemplo de protesto é revelador do que se passa num número significativo de empresas prestadoras de serviços de Call Centers. Os operadores são mal remunerados, têm contratos de trabalho precários e o trabalho é pouco qualificado. Por outro lado, os operadores não encontram nos Call Centers perspectivas de futuro em termos de evolução na carreira e as organizações sociais que defendem os direitos de quem trabalha, os sindicatos em particular, não estão vocacionadas para a defesa dos interesses desta tipologia de trabalhadores (Marques, 2004, 61).

Também no aspecto da precariedade do trabalho os operadores dos Call Centers se assemelham aos operários das fábricas Taylorizadas do inicio do século XX.

Contudo, não se pode generalizar o modelo Taylorista de organização do trabalho a todos os Call Centers. Por um lado porque não existem estudos suficientes que o permitam fazer e por outro porque são conhecidas experiências em que se verifica que é privilegiada a autonomia dos técnicos e a sua capacidade de resolver problemas em detrimento da standardização de processos e da excessiva divisão do trabalho (Silva, 2004, 14).

Como futura pista de investigação, parece-nos que seria interessante estudar a existência de modelos de organização do trabalho diferenciados em função dos Call Centers serem parte integrante de uma organização ou serem contratados em regime de outsourcing.

O exemplo que apresentámos, embora não possa ser considerado como relevante em termos de estudo de caso, até porque não foi estudado, é contudo, um relato que pretende contribuir para a discussão em torno da inevitabilidade ou não dos Call Centers apresentarem de forma quase que determinística um modelo de organização do trabalho Taylorizado. No exemplo que relatámos, verificava-se que a parte do trabalho realizado no interior da organização privilegiava a autonomia e a qualificação do trabalho, enquanto que o trabalho externalizado se configurava como perfeitamente enquadrável nos princípios Tayloristas de organização do trabalho. Estamos na presença de dois sistemas de organização do trabalho ou se preferirmos na presença de um sistema misto. Por questões de gestão relacionadas com a disponibilidade de recursos internos este modelo foi abandonado.

Presentemente existe um Call Center em regime de outsourcing em que o trabalho é eminentemente de tipo Taylorizado.






Bibliografia

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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Avaliação do Desempenho

1.Introdução

Na sociedade contemporânea e em particular na sociedade pós-industrial ou sociedade da informação, como lhe chama Alain Touraine, todos os indivíduos são avaliados desde a mais tenra idade.

Os indivíduos começam a ser avaliados mal saem do ventre materno: Qual é o bebé mais inteligente? Qual é o que diz primeiro papá ou mamã? Quem começa a andar mais cedo? Quem consegue ler as primeiras palavras? etc. As nossas competências, quase que instintivas e inatas, são precocemente avaliadas e com elas o nosso desempenho face a uma situação em concreto.

A avaliação é pois uma constante na vida dos indivíduos. Os indivíduos convivem com esta realidade ao longo da sua vida.

É nossa intenção demonstrar a importância da avaliação do desempenho no contexto organizacional, a subjectividade inerente a um processo de avaliação e a relevância da planificação para o sucesso de qualquer modelo de avaliação do desempenho. Por outro lado pretendemos demonstrar que a realidade da avaliação do desempenho é algo comum ao sector privado e à Administração Pública.

Começamos por introduzir o tema da avaliação no contexto educativo e no mundo do trabalho. Trata-se de uma perspectiva de carácter eminentemente sociológico.

Num segundo momento apresentamos diversas definições sobre os conceitos de qualificação e competência. Seguimos com a definição de desempenho e com uma breve retrospectiva sobre o surgimento e desenvolvimento dos diversos modelos de avaliação do desempenho.

De seguida identificamos as diversas fases inerentes à implementação e gestão de um modelo de avaliação de desempenho, centrando-nos no modelo de gestão por objectivos.
Antes de concluirmos apresentamos algumas considerações sobre um exemplo de má prática na aplicação do modelo de avaliação do desempenho da Administração Pública.

2.A Educação, o Trabalho e o Desempenho

O sistema de educação moderno, embora tenha como objectivo o desenvolvimento holístico e como tal multidimensional do Homem enquanto ser Humano e logo ser social, tem ou deverá ter um papel importante no que concerne à preparação dos indivíduos para a entrada no mercado de trabalho. Não nos podemos esquecer que todo o sistema educativo se desenvolveu e massificou, desde o século XIX, tendo como pressuposto a integração profissional dos indivíduos.

Não é certamente por acaso que diariamente ouvimos falar da falta de ajustamento do sistema de ensino às realidades do mercado de trabalho, na falta de qualificações, etc.

Tal como o mundo do trabalho a educação tornou-se num dos agentes mais relevantes para a socialização dos indivíduos.

Anthony Giddens (2007), recorrendo ao pensamento de Illich, diz-nos que o facto de os jovens terem um contacto diário e demorado com a escola, esse factor determina que a sua aprendizagem não se limite meramente à aquisição dos conteúdos programáticos transmitidos pelos professores na sala de aula. O contacto com a escola permite que as crianças e os jovens se apercebam de diversas regras que devem ser cumpridas, tais como: o cumprimento de horários, a obediências, o conhecimento das hierarquias sociais. Este conhecimento adquirido no seio da escola é importante pois muitas das regras escolares são similares às que os indivíduos têm que cumprir quando ingressarem no mercado de trabalho.

A escola é um sistema complexo no qual se movimentam diversos actores sociais com papeis devidamente estabelecidos. A escola não se confina apenas às interacções que os indivíduos produzem dentro de uma sala de aulas.

Durkheim foi um dos primeiros autores a teorizar sobre educação. Não será alheio o facto de ter dedicado a sua vida ao ensino e de ser antes de tudo um pedagogo e um professor. De acordo com este autor, «A educação é a acção exercida pelas gerações adultas sobre aquelas que ainda não estão maduras para a vida social. Tem por objectivo suscitar e desenvolver na criança um certo número de estados físicos, intelectuais e morais que lhe exigem a sociedade política no seu conjunto e o meio ao qual se destina particularmente» (Durkheim, 2007, p. 53).

Pode dizer-se que para Durkheim educação não é mais do que um mecanismo de socialização que é conduzido pelas gerações adultas e interiorizado pelas gerações jovens. Durkheim diz a este respeito que «a educação consiste numa socialização metódica da jovem geração» (Durkheim, 2007, p. 53).

O conceito de educação proposto por Durkheim leva-nos a concluir que a educação é um processo pelo qual se assegura a continuidade da sociedade através da transmissão dos valores morais que garantem a preservação de uma consciência colectiva homogénea que serve de garante à coesão social e como tal ao equilíbrio da sociedade. Ou seja, a educação reproduz o modelo social dominante.

Berthelot (in Diogo, 1998, p.109) apresenta-nos uma definição de educação (no caso prefere designar por escolarização) como «o modo de socialização privilegiado das sociedades industrializadas, através do qual se transmite o saber social, suporte das práticas sociais que asseguram o modo de existência destas sociedades e se faz a integração sócio-profissional dos indivíduos, isto é a passagem de uma posição social inicial a uma posição social ulterior». Esta perspectiva não difere muito da apresentada por Durkheim. Apresenta-se a educação como um mecanismo de socialização que tem como pressuposto e objectivo final a reprodução do modelo social. Berthelot introduz, contudo, um aspecto que é relevante, ou seja, liga a educação (se preferirmos a escolarização) à integração profissional dos indivíduos.

Uma outra visão da educação e do papel da escola é apresentada por Talcott Parsons. Para Parsons (in Mónica, 1981, p. 28) a educação é um processo pelo qual «as personalidades individuais são treinadas para poderem um dia vir a estar emocional e tecnicamente preparadas para satisfazer as exigências dos papéis que como adultos irão desempenhar (…)». A perspectiva de Parsons apresenta a educação como algo que não pode estar desligado das diversas dimensões do homem enquanto ser social. Ou seja, a educação não é um mero instrumento para a integração profissional dos indivíduos, é antes um mecanismo que permite o seu desenvolvimento integral e holístico. A educação deve servir para preparar os indivíduos aos diversos níveis e de acordo com os múltiplos papeis que estes terão que desempenhar na vida adulta.
Kellerhals e Montandon (in Diogo, 1998, p. 81) preferem abordar a questão da educação como um processo diferenciado da socialização. Para estes autores, a educação «(…) contém apenas os aspectos intencionais e a segunda (socialização) diz respeito a todas as transformações e influências a que a criança é sujeita, por pressão exterior». Pode inferir-se que, de acordo com esta perspectiva, a educação resulta de uma atitude proactiva. Ou seja, os educadores agem intencionalmente sobre os indivíduos para que estes interiorizem os “conteúdos" estabelecidos pelo sistema formal de ensino. Sendo que a socialização é um processo pelo qual os indivíduos assimilam os valores predominantes da sociedade, em que estão inseridos, através de diversos mecanismos: imitação, interacção social face-a-face, comunicação social, etc. Podemos dizer que educação é uma socialização formal e a socialização uma educação informal.

Apesar de todos os autores, atrás referidos, identificarem a educação como um processo pelo qual passam os indivíduos mais novos, importa reter que tal como menciona Giddens «a obtenção de qualificações já não ocorre hoje uma vez na vida» (2007, p. 527).

Deve pois ter-se presente que a educação que, tradicionalmente, ainda é vista como algo que ocorre numa fase precoce da nossa existência, quase como um ritual de passagem para a vida adulta, não faz sentido numa sociedade em constante mutação e em que o mercado de trabalho exige dos indivíduos uma contínua actualização das suas competências e da sua capacidade de adaptação a mudanças rápidas. Cada vez mais se houve falar da aprendizagem ao longo da vida. Temos assim que a educação não é apenas um processo a que estão sujeitos os indivíduos mais novos mas consubstancia-se igualmente como um veículo de reeducaação dos indivíduos adultos em idade activa. «Vemos jovens engenheiros e técnicos duvidosos se, em poucos anos, não estarão desactualizados porque o progresso técnico e as condições de emprego que dai resultam evoluem demasiadamente depressa mesmo para esses privilegiados» (Béraud.& Millet, 1975, p.150).

Como sabemos, o sistema educativo, logo após as famílias, é um agente socializador onde se mede o sucesso e o insucesso. Digamos que é a primeira instituição constituída para avaliar formalmente desempenhos. Desde tenra idade que os indivíduos que frequentam o sistema de ensino se habituam a ser avaliados.
A avaliação que ocorre no sistema de ensino, apesar das diversas críticas que são feitas, é vista como algo perfeitamente normal. É necessário medir o que os indivíduos demonstram saber.

Pode dizer-se que aquilo que se passa no sistema de ensino, ao nível da avaliação dos conhecimentos que os indivíduos demonstram saber, é de alguma forma transponível para a realidade organizacional do mundo do trabalho. Se é necessário avaliar o que se sabe nas escolas, também é necessário avaliar o que se faz no mundo do trabalho.
Na escola quando se demonstra saber pouco, os indivíduos são penalizados com a atribuição de uma classificação baixa. No mundo do trabalho quando o desempenho é insuficiente, os indivíduos não beneficiam de certas regalias (i.e. prémios de desempenho, promoções, etc), podendo inclusive ser penalizados com o despedimento.
Depois de todas estas considerações poderemos referir que existe uma certa comparabilidade entre desempenho escolar e desempenho no contexto do mundo de trabalho. Contudo, importa distinguir o que se avalia na escola e o que se avalia no trabalho.

Na escola avaliam-se essencialmente conhecimentos. No mundo do trabalho avaliam-se essencialmente competências. Estamos pois confrontados com dois conceitos que exigem alguma clarificação: competências e qualificações.

3.Competências e Qualificações

Nem sempre é muito perceptível a diferença entre qualificações e competências.
Esta diferença para além de ser algo dúbia para o indivíduo comum, a verdade é que os próprios autores não têm um entendimento único sobre estes conceitos.
Mário Ceitil (2007) refere que as competências podem ser analisadas de diversas perspectivas. Poderemos considerar as competências como atribuições, qualificações, características pessoais ou como comportamentos ou acções. Nesta lógica, as qualificações são uma componente das competências.

Segundo Ceitil (2007, p. 24), a abordagem das competências como atribuições é a perspectiva mais tradicional. Considera-se competência algo que é externo ao indivíduo e específico da função profissional que este exerce. Ou seja, a competência não é algo próprio do indivíduo mas sim algo que lhe é conferido pelo cargo ou pela função profissional que exerce.

Enquanto qualificação (Ceitil, 2007, p. 25), a competência é como que uma espécie de capital cultural. Ou seja, expressa-se pelo conjunto de diplomas que os indivíduos obtêm através do sistema formal de ensino, através do sistema de formação profissional ou outro. É algo intimamente ligado à aprendizagem. Nesta perspectiva, os indivíduos dão sinais ao mercado de trabalho que são capazes, que possuem as competências necessárias para o desempenho de uma determinada função. As qualificações escolares funcionam como preditores do bom desempenho profissional.
As competências, encaradas enquanto características pessoais, (Ceitil, 2007, p. 27) iniciam um novo paradigma ao nível da avaliação de competências. As competências deixam de ser algo ligado exclusivamente ao percurso escolar dos indivíduos, à sua condição económico-social ou a qualquer outro aspecto que sirva de elemento diferenciador em termos sociais e passa a ser apenas algo relacionado com aspectos particulares da individualidade de cada um. Introduz-se uma variável que enfatiza a diferenciação entre a competência e o desempenho em ambiente escolar e a competência e o desempenho em contexto profissional. Nem sempre os indivíduos mais capazes em termos escolares são igualmente competentes em termos profissionais. Esta perspectiva é marcadamente psicologista.

Finalmente, as competências enquanto comportamentos ou acções (Ceitil, 2007, p. 33). Neste caso o que realmente importa é aferir em termos concretos, em termos quantificáveis, mensuráveis e observáveis, o que os indivíduos demonstram saber. As suas características pessoais apenas são relevantes se puderem contribuir para um bom desempenho. Se tal não se verificar de nada servem.

Fátima Suleman (2007) chama-nos a atenção para a dificuldade de encontrar um conceito uniforme para definir qualificação e competência. Como refere Suleman, a nomenclatura não é utilizada de forma uniforme, por exemplo, ao nível dos diferentes países europeus. Se na tradição anglo-saxónica a qualificação está muito conotada com os níveis de instrução escolar, na Alemanha, a qualificação está intimamente relacionada com o sistema de formação profissional (Suleman, 2007, p. 37).

A tradição da escola Francesa da Sociologia do Trabalho e de autores como Oiry e D’Iribarne, caracterizam a qualificação como algo específico do posto de trabalho e as competências como qualificações do indivíduo (Suleman, 2007, p. 38).

Uma outra linha de pensamento, aportada por Reynaud, refere que a competência é algo que se diferencia dos diplomas que os indivíduos podem obter no contexto escolar ou formativo. A competência é algo que tem que ser demonstrada no contexto do exercício de uma actividade profissional (Suleman, 2007, p. 38). Esta perspectiva vem ao encontro da ideia de competência como comportamento ou acção (Ceitil, 2007, p. 33).
Reynaud, diz algo que permite diferenciar a qualificação da competência, ao referir que as qualificações são algo que os indivíduos adquirem em primeiro lugar e que as competências são algo que é adquirido no âmbito da vida profissional e que necessita da mobilização de saberes (Suleman, 2007, p. p. 39).

Ferreira Cascão, apresenta-nos uma tentativa de conciliação das diferentes perspectivas dos autores. São encontrados alguns pontos em comum (Cascão, 2004, p. 34):

•As competências são algo que se pode manifestar através de acções e de comportamentos;

•As competências estão intimamente relacionadas com o desempenho, como o atingir de objectivos;

•As competências são algo que se pode observar, medir e avaliar;

•As competências devem ser sempre entendidas como algo contextual;

•As competências são algo processual e como tal mutável;

•As competências estão relacionadas com conhecimento. Para realizar uma tarefa é necessário mobilizar conhecimentos.

Apesar da discussão em torno do conceito de competências e de qualificações não estar terminado, para o trabalho que nos propomos realizar importa sobretudo olharmos para o conceito de competência, como refere Ceitil, como um comportamento ou acção. Como algo que pode ser observado e medido. Conceito que encontra na síntese realizada por Cascão pontos de contacto.

Se importa clarificar o que se entende por competências, não é certamente menos relevante abordar o conceito de desempenho.

4.Avaliação do Desempenho
4.1.Desempenho

Como foi referido, importa que se possa observar e medir as competências. Na prática importa avaliar um determinado desempenho. Se na escola é medido o desempenho escolar através da aplicação de testes escritos, através da realização de trabalhos e pela participação que os alunos têm ao longo das aulas, em contexto organizacional importa encontrar formas de avaliar o desempenho. Se quisermos de medir de que forma as competências são operacionalizadas em prol de uma maior eficácia e eficiência da organização. Em resumo, de uma melhor produtividade.

Sem entrarmos em grandes conceptualizações sobre o que se entende por desempenho, propósito pouco relevante para os nossos intentos, recorramos ao pensamento de Parker & Turner (2002). Estes autores referem-se ao desempenho como um conjunto de comportamentos que os indivíduos colocam em prática para cumprirem os objectivos que a organização definiu.

Este conceito de desempenho encerra duas dimensões. Por um lado o comportamento, aquilo que o individuo teve que operacionalizar para cumprir um objectivo, e por outro o resultado. Aquilo que foi alcançado. Se o objectivo foi ou não cumprido. O resultado é sempre uma consequência do comportamento ou acção.

Neste contexto, importa saber que tipo de mecanismos ou instrumentos as organizações utilizam para avaliarem o desempenho dos seus colaboradores.

4.2.Avaliação do Desempenho: Breve Historial

É certo que as preocupações com o desempenho não são recentes. Desde sempre que no mundo do trabalho os detentores dos meios de produção se preocuparam em saber se os seus colaboradores desempenhavam mal ou bem as atribuições que lhes eram conferidas.

Sempre houve a preocupação de saber se os colaboradores eram ou não produtivos e de que forma contribuíam para o sucesso das organizações. Contudo, a centralidade da avaliação do desempenho, e a consequência que tal facto tem para a produtividade das organizações, é sem duvidas uma preocupação do sistema capitalista que ganhou particular relevância no inicio do século XX. Para tal muito contribuíram as ideias de Taylor (Brandão & Tomás, 2001).

De facto é com Taylor que a organização do trabalho assume uma dimensão quase científica.

Taylor era um observador atento à forma como a produção era executada nas empresas e em particular nas do ramo da metalurgia. Sentia-se de alguma forma insatisfeito pela forma pouco organizada como as empresas funcionavam e pelo desperdício de tempo e de meios. Para Taylor, apesar dos progressos alcançados durante todo o processo da revolução industrial, a verdade é que as empresas assemelhavam-se a grandes oficinas e pouco a empresas industriais.

Taylor, após fazer observação de diversos postos de trabalho e de diferentes formas de produção, delineou uma planificação sistematizada e detalhada da forma como as empresas deveriam organizar o seu processo produtivo.

Taylor divide a produção em dois momentos chave. Por um lado a concepção que deverá estar a cargo dos engenheiros e dos donos da empresa. Por outro lado, a execução que compete aos operários. Os operários devem ser desencorajados de se intrometerem em matérias referentes à concepção. Aos trabalhadores não compete pensar mas apenas executar (Freire, 2001).

O Taylorismo caracteriza-se ainda, para além dos aspectos já referidos, pela concepção do processo produtivo como algo que deverá reger-se por regras científicas. Todos os movimentos efectuados pelos trabalhadores devem ser pensados e calculados de forma a se encontrar a melhor forma de executar determinada tarefa.Quem não respeitar essas regras não tem o desempenho que se deseja e deve ser excluído do sistema. Isto é, deve ser despedido.

Obviamente que com a complexificação do processo produtivo, os modelos de avaliação do desempenho evoluíram e afastaram-se do modelo Taylorista que media essencialmente tempo de realização das tarefas e movimentos mais correctos para a sua execução.

Os modelos de avaliação do desempenho começaram, como já referirmos com uma abordagem Taylorista, tendo evoluído para uma avaliação de mão única, na qual um chefe avaliava directamente o desempenho do seu subordinado. Evolui em seguida para um modelo de avaliação bilateral em que chefe e subordinado discutem a avaliação de desempenho em conjunto. A evolução mais recente vai no sentido de uma avaliação designada de 360º. Este tipo de avaliação visa diminuir a subjectividade. A avaliação é promovida por múltiplos avaliadores. Avaliadores que podem ser colegas, chefias, clientes, etc (Brandão & Tomás, 2001, p. 12). Desta forma diminui-se a subjectividade e alcança-se uma avaliação do desempenho mais objectivada.
Depois de realizarmos uma pequena viagem desde o inicio do século XX até aos nossos dias, para percebermos a evolução da avaliação do desempenho em contexto organizacional, importa perceber o que na prática fazem as organizações para avaliarem os colaboradores.

4.3.Avaliação do Desempenho: Implementação do Processo

Para que seja possível avaliar os colaboradores, as organizações têm que recolher, proceder à análise e à interpretação de um conjunto de informação que foram reunindo. Ou seja, é com base na informação compilada e processada que os avaliadores formam um juízo sobre o desempenho do colaborador.

Tratando-se de um juízo de valor que o avaliador forma sobre o avaliado, como nos refere José Dias (2004), é sempre algo subjectivo e extremamente difícil de alcançar.
Mais difícil se torna quando o contexto organizacional deixa de ter as características de uma indústria taylorizada ou fordista, em que bem ou mal se pode medir de forma rigorosa o desempenho de um colaborador, e se passa para uma organização onde o seu produto é o conhecimento ou a informação. O sector dos serviços torna ainda mais complexa a implementação dos sistemas de avaliação do desempenho. Esta constatação tem conduzido ao desenvolvimento e implementação de modelos de avaliação do desempenho cada vez mais robustos. Neste âmbito se inclui o modelo de avaliação 360º feedback (Dias, 2004, p. 115).

O modelo 360º feedback não deixando de ser igualmente potencialmente subjectivo, tem o mérito de investir diversos elementos da organização enquanto avaliadores. Desta forma pretende-se diluir num grupo de avaliadores a subjectividade da avaliação individual.

Contudo, não nos interessa criticar os diversos modelos de avaliação do desempenho que existem. Pretendemos apenas chamar a atenção para o facto de todos eles conduzirem a uma avaliação subjectiva.

Independentemente do modelo de avaliação existente numa organização, poderemos encontrar um tronco comum de componentes na implementação de um modelo de avaliação do desempenho. Esse tronco comum integra as seguintes componente (Caetano & Vala, 2007, p. 360):

•Os objectivos;
•Os instrumentos;
•Os procedimentos.

4.3.1. Os Objectivos

Os objectivos devem ser claros para a organização. A organização deve perguntar-se o que pretende atingir com a implementação de um sistema de avaliação do desempenho.
Podem resumir-se da seguinte forma os objectivos que as organizações perseguem quando implementam um modelo de avaliação do desempenho (Caetano & Vala, 2007, pp. 360 e 361):

•Comparações interindividuais – incluem aspectos relacionados com a gestão dos salários, promoções e despedimentos, comparação dos desempenhos dos colaboradores;

•Comparações intra-individuais – incluem as necessidades de formação, feedback sobre o desempenho do indivíduo, comparação entre pontos fortes e pontos fracos do desempenho, etc;

•Sistema de Manutenção – inclui as necessidades de formação da organização, a avaliação dos objectivos propostos aos avaliados, o reforço da autoridade e a identificação das necessidades de desenvolvimento organizacional.

Este último objectivo (sistema de manutenção) funciona como uma espécie de meta-objectivo. Ou seja, serve como mecanismo de crítica e de avaliação do próprio modelo de avaliação de desempenho e da forma como a organização o está a implementar.

Contudo, os objectivos que em termos abstractos são da organização são na prática operacionalizados por avaliadores e avaliados.

De acordo com Caetano & Vala (2007, pp. 361 e 362) os objectivos dos avaliadores podem ser resumidos em quatro dimensões:

•Objectivos dirigidos para as tarefas – a avaliação do desempenho é utilizada como estímulo para a melhoria ou manutenção do desempenho dos colaboradores;

•Objectivos Interpessoais – a avaliação do desempenho é utilizada como forma de melhorar ou manter os níveis de relacionamento interpessoais entre avaliadores e avaliados;

•Objectivos Estratégicos – a avaliação do desempenho é utilizada como forma de potenciar a reputação do avaliador ou da sua equipa no seio da organização;

•Objectivos Internos – a avaliação do desempenho é utilizada como forma de credibilizar o próprio processo de avaliação do desempenho. Isto é, o avaliador demonstra toda a sua neutralidade, interesse e objectividade, na forma como avalia o desempenho dos colaboradores. A avaliação não é efectuada como algo administrativo e rotineiro, mas como algo que pode trazer mais-valia para o avaliado e para a organização.

Caetano & Vala (2007) chamam a atenção para o facto de ser dada pouca atenção aos objectivos do avaliado. A avaliação do desempenho é vista como algo que reflecte uma relação de poder diferenciada. Os avaliadores são quem detém o poder e os avaliados quem se submete a esse poder.

Contudo, podem identificar-se alguns objectivos que foram identificados em alguns estudos empíricos e que os avaliadores referiram como sendo para eles importantes:

•Feedback – os avaliados procuram saber o que os avaliadores pensam do seu desempenho e pretendem comparar o seu desempenho com o dos seus pares;

•Futuro – os avaliados dão relevância à interferência que a avaliação do desempenho poderá ter no seu futuro profissional;

•Modelo – os avaliados entendem que a avaliação do desempenho lhes permite criar uma espécie de tipo ideal sobre o que se entende como um bom profissional.

4.3.2. Os Instrumentos

Existem diversos instrumentos para medir o desempenho dos avaliados. Alguns desses instrumentos pretendem focar-se em aspectos centrados especificamente na personalidade dos colaboradores. Isto é, são escalas que medem basicamente comportamentos. Outros permitem fazer uma comparação entre os desempenhos de diversos colaboradores. Existem ainda instrumentos que centram a avaliação nos resultados (Caetano e Vala, 2007).

Iremos apenas debruçar-nos sobre instrumentos que se centram nos resultados. Isto é, na gestão por objectivos.

A avaliação do desempenho por objectivos mede os resultados alcançados pelos avaliados e compara esses resultados com os objectivos previamente fixados. Os avaliados sabem à partida os objectivos que se esperam vir a ser alcançados.
A avaliação por objectivos encerra diversos momentos: A formalização dos objectivos, o planeamento da acção, o auto-controlo e as revisões periódicas (Caetano & Vala, 2007, p. 369).

Uma das vantagens apontadas, por vários autores, deste método de avaliação, prende-se com as etapas de auto-controlo e revisão periódica. Estas etapas permitem que os avaliados analisem o seu desempenho e o possam corrigir ao longo do período a que respeita a avaliação.

Por outro lado, existe uma certa unanimidade em considerar que o aspecto mais crítico é a definição dos objectivos.

Os objectivos devem ser específicos, mensuráveis, temporalizados, realistas (embora desafiantes), consensuais (Seixo, 2007, p. 35). Esta multiplicidade de requisitos, que deve estar presente na definição de um objectivo, contribui para a complexificação da sua definição.

A definição dos objectivos funciona em cascata. Ou seja, em primeiro lugar importa definir os objectivos organizacionais. A partir destes objectivos macro, definem-se os objectivos de cada departamento e dos responsáveis que os lideram. Em seguida definem-se os objectivos dos colaboradores. Os objectivos devem ser desenhados de forma a contribuírem coerentemente para o todo organizacional (Seixo, 2007, p. 35).
José Seixo (2007) chama-nos à atenção para o facto de ser importante definir tipologias de objectivos em função do conteúdo funcional. Isto é, os objectivos devem ser desenhados tendo por base a maior ou menor complexidade de cada função.

Apresentamos, a título exemplificativo, a forma como alguns objectivos podem ser desenhados. Sendo que apresentamos a forma correcta e incorrecta de definir objectivos.

Forma Incorrecta

Aumentar as vendas.
Melhorar o atendimento presencial dos utentes.

Forma Correcta

Aumentar em 10% as vendas no primeiro trimestre de 2001
Diminuir o tempo médio de espera dos utentes de 30 para 15 minutos.

As principais vantagens e desvantagens da gestão por objectivos encontram-se sintetizadas abaixo:

Vantagens

•O avaliado tem um feedback constante do seu desempenho;
•Reduz as possibilidades de erros de cotação;
•Contribui para a motivação, o esforço, a satisfação e a produtividade.

Desvantagens

•Os avaliadores têm muita dificuldade em definir os objectivos de forma adequada;

•A organização tem dificuldade em avaliar os objectivos;

•É difícil ponderar factores contextuais fora do controlo dos avaliados.

4.3.3. Os Procedimentos

Na avaliação por objectivos, na maioria dos casos, compete à chefia directa do avaliado proceder à avaliação. Entende-se ser o chefe directo que está em melhores condições objectivas para proceder ao acompanhamento do desempenho do avaliado, para orientar esse desempenho, para motivar o avaliado e finalmente para proceder à avaliação (Caetano & Vala, 2007, p. 375).

Um dos aspectos determinantes para o sucesso ou insucesso, da avaliação do desempenho por objectivos, é a preparação, a formação dos avaliadores e o conhecimento que estes detêm do modelo de avaliação em causa. Um mau avaliador ou um avaliador pouco empenhado contribui decisivamente para a desmotivação do avaliado, para a descredibilização do processo de avaliação e em última instância para o insucesso organizacional.

Como referem Caetano & Vala (2007), baseados em diversos estudos, a formação dos avaliadores é um factor decisivo para o sucesso do processo. A formação dos avaliadores contribui claramente para a diminuição dos erros de julgamento e para uma maior objectividade na formulação dos objectivos.

É no âmbito de uma entrevista que os objectivos que os avaliados devem cumprir são estabelecidos e contratualizados. É na mesma entrevista que se procede à comunicação da avaliação do desempenho do período anterior.

A entrevista deverá ter diversas fases (Seixo, 2007, p. 65):

•O avaliado deve apresentar a sua auto-avaliação (previamente elaborada). Deve haver um confronto entre a auto-avaliação e os objectivos traçados;

•O avaliador deve comentar a auto-avaliação de forma objectiva e tendo igualmente como referência os objectivos que tinham sido anteriormente acordados. O avaliado deve ser convidado a pronunciar-se sobre os aspectos que tiveram influência no seu desempenho;

•O avaliador indica a avaliação do desempenho ao avaliado e deve certificar-se se o avaliador percebe a metodologia utilizada e os resultados indicados;

•Na última fase da entrevista devem ser identificadas acções (designadamente de formação) que contribuam para elevar o desempenho do avaliado. É igualmente nesta fase que são apresentados os objectivos para o novo período de avaliação.

Neste contexto, a entrevista de avaliação encerra um ciclo de avaliação com a indicação dos resultados do desempenho obtidos num determinado período temporal e abre um novo ciclo de avaliação com a definição dos objectivos para o novo período.

4.4.Sistema de Recompensas

Poder-se-á referir que do ponto de vista sociológico, os sistemas de avaliação do desempenho, visam basicamente controlar o desempenho individual dos colaboradores e assim funcionar como mecanismo de controlo social e por esta via como meio de alcançar a paz social nas organizações.

Um instrumento que reforça de alguma forma a paz social das organizações é o sistema de recompensas.

O sistema de recompensas está previsto na maioria dos sistemas de avaliação do desempenho. O desempenho mais eficiente deve ser premiado. Só desta forma os colaboradores de uma organização vêm reconhecido o seu esforço. É sabido que não é apenas com “prémios” materiais que se motiva os colaboradores de uma organização.
Contudo, importa ter presente que a remuneração é um aspecto extremamente relevante para todos aqueles que dependem do seu salário como único meio de subsistência.
Assim, em muitos casos o sucesso de um sistema de avaliação do desempenho está dependente das contrapartidas que são proporcionadas aos colaboradores. Um sistema de avaliação que não premeia o mérito está votado ao insucesso.

Importa que todos os colaboradores tenham conhecimento, aquando da definição dos objectivos, das recompensas de que podem usufruir.

5.Avaliação do Desempenho na Administração Pública: Um Testemunho

O sistema de avaliação presentemente em vigor na Administração Pública, designado por SIADAP – Sistema Integrado de Gestão e Avaliação do Desempenho na Administração Pública - incorpora três subsistemas. Um destina-se a avaliar os organismos da administração pública, outro os dirigentes e o terceiro a avaliar os colaboradores.

Importa-nos referir apenas o subsistema de avaliação dos colaboradores.

O relato que passamos a efectuar não pretende ser um testemunho representativo de toda a Administração Pública, mas apenas a representação pessoal do autor deste trabalho enquanto avaliado e enquanto colaborador de um Organismo da Administração Pública.

O modelo SIADAP, relativo à avaliação do desempenho dos colaboradores, é em todo idêntico aos modelos de desempenho por objectivos utilizados pelas organizações privadas. Está em causa a definição de um conjunto de objectivos e a confrontação do desempenho do colaborador com esses objectivos. Os objectivos devem igualmente respeitar um conjunto de regras, por nós já mencionadas , deve realizar-se uma entrevista que servirá para definir os objectivos futuros e para comunicar a avaliação respeitante ao período de referência anterior.

Contudo, introduz um aspecto que ainda não foi por nós referido. A avaliação final é ponderada, tendo por base o grau de cumprimento dos objectivos e o nível de competência demonstrado. As competências são seleccionadas pelo avaliador e pelo avaliado no âmbito de um conjunto de competências disponibilizado.

Finalmente, o modelo apresenta diversos incentivos que passam pela acumulação de pontos que são relevantes para a progressão na carreira, pela atribuição de prémios monetários, pela promoção por mérito e por outros incentivos de ordem não monetária.

O relato de que se pretende dar testemunho pretende retratar as perversidades, não do sistema, mas da sua implementação.

Nos três anos de desempenho de funções que estavam sujeitas à aplicação do SIADAP (2008, 2009 e 2010), em nenhum foi realizada a entrevista para a fixação dos objectivos para os períodos subsequentes, nem para apresentação dos resultados do período anterior. Foram apenas apresentados informalmente os resultados e comunicados, sem negociação, os objectivos e competências para o período subsequente. É de referir que em 2010 não foram nem definidos objectivos e competências como não foi comunicada a avaliação do desempenho do ano anterior (2009).

Por outro lado, a definição dos objectivos não respeitou os critérios definidos para o efeito. Os objectivos limitavam-se a impor datas para realização das tarefas sem que tivessem sido identificados quaisquer critérios qualitativos que permitissem de algum modo aferir sobre a qualidade do trabalho desenvolvido.

Finalmente, importa referir que nunca houve qualquer benefício dos prémios e recompensas, que estão previstos no regulamento do SIADAP, para os colaboradores que têm uma avaliação classificada como relevante ou excelente.

Todo este processo, para além de ferir a Lei, cria nos colaboradores um sentimento de desmotivação face ao trabalho e de descrédito face ao SIADAP. O SIADAP passa apenas a ser encarado como um mero formalismo sem data e hora para ser cumprido.

6.Considerações Finais

Como tivemos oportunidade de demonstrar, ao longo deste trabalho, a avaliação do desempenho está presente em diferentes contextos. No contexto familiar, escolar e organizacional. Ou seja, em múltiplas dimensões sociais.

A avaliação do desempenho no contexto organizacional é uma herança da revolução industrial e dos processos de organização do trabalho que se lhe seguiram.
A avaliação do desempenho é uma realidade tanto nas organizações privadas como na Administração Pública. Os objectivos são similares e as dificuldades de implementação dos modelos são igualmente comuns.

As incoerências da avaliação de desempenho estão essencialmente presentes na implementação dos modelos e não tanto nos modelos em si. Os constrangimentos estão na fragilidade técnica dos avaliadores que se reflecte, em muitos casos, na má definição dos objectivos que devem ser cumpridos pelos colaboradores.

Por último, importa referir que a avaliação do desempenho é um processo subjectivo. A subjectividade é transversal a todos os modelos de avaliação do desempenho que até hoje foram desenvolvidos. Compete a quem avalia ter noção dessa subjectividade e tentar na medida do possível objectivar o mais possível a sua avaliação.






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