Ontem estava a assistir ao noticiário da RTP 2, que recomendo, quando foi transmitida uma reportagem sobre as condições de trabalho numa fábrica chinesa. Nada de muito original. Já passaram diversas reportagens sobre as péssimas condições de trabalho oferecidas por muitas empresas, em particular industriais, que laboram na china.
Contudo, ao contrário do que costuma ser apresentado tratava-se de uma fábrica tecnologicamente avançada e que produzia um dos produtos mais desejados pelos consumidores compulsivos. Nada mais, nada menos do que a fábrica que constrói o I PAD da Apple.
É verdade, o I PAD. Um dos novos símbolos que supostamente conferem status social. Mais um produto que serve para diferenciar as pessoas não pelo que realmente são mas pelo que possuem.
Na dita reportagem foi entrevistada, a medo, uma das operárias. A única tarefa executada por esta operária consistia na colocação do símbolo da Apple na tampa do I PAD. Durante todo o dia de trabalho qua não era curto limitava-se a fazer de forma repetida e sistemática esta simples função.
O que mais me impressionou foi o facto de esta trabalhadora nunca ter visto um I PAD a funcionar. Simplesmente desconhecia aquilo que estava a produzir. Teve pela primeira vez contacto com um I PAD quando o jornalista que a entrevistou lhe apresentou o aparelho e a deixou manipulá-lo.
Se lermos alguns relatos de episódios passados em fábricas na Europa e nos EUA nos finais do século XIX e inícios do Século XX percebemos que as coisas não mudaram muito. Se lermos relatos apresentados por Karl Marx, Engels e outros percebemos que a realidade nas fábricas do Século XIX é em tudo semelhante ao que se passa em muitas fábricas que vão surgindo nos países ditos emergentes.
O que a operária da fábrica da Apple demonstrava era uma completa alienação relativamente ao produto que ajuda a construir. Alienação. É verdade. Conceito Marxista muitas vezes dificilmente entendido pelos estudantes de Economia do Trabalho ou de Sociologia do Trabalho. Estou certo que esta reportagem ajudou a clarificar o que Marx queria dizer quando se referia à alienação face ao produto.
Esta fábrica era tão sinistra que simplesmente tinha retirado o direito aos operários de se libertarem pelo suicídio. É verdade. Como a taxa de suicídio era muito elevada, a direcção da fábrica resolveu colocar redes de protecção para aparar a queda dos operários que se atiravam pelas janelas. Esta fábrica é o mundo dos operários. É nela que passam 6 dias por semana. Lá trabalham, comem, dormem e muitas vezes morrem.
As fábricas na china recorrem às mais retrogradas técnicas de organização do trabalho criadas por Taylor e potenciadas por Ford: Intensificação desmedida da divisão do trabalho, separação entre trabalho de concepção e trabalho de execução. Afinal pouco ou nada mudou em 200 anos de revolução industrial.
O que parece ter mudado é a latitude em que os produtos são fabricados. Mudou igualmente o conceito de divisão do trabalho entre concepção e execução. Se no século XIX e inícios do Século XX esta separação era efectuada dentro da unidade de produção, presentemente a separação é feita entre países que concebem e países que executem. Entre países que criam valor pela inovação e design e países que utilizam mão-de-obra escrava para darem forma aos produtos criados nos países ricos. Separação entre quem cria símbolos de poder e quem apenas tem como destino produzir uma ínfima parte desses símbolos.
O mais irónico é que os países ricos não percebem que os indivíduos que vivem nos países ricos estão a ficar sem sítio onde trabalhar. Nem todos têm capacidade de serem criadores de novos símbolos. A maioria precisa de ser o “mero” executante para sobreviver. Resta saber se preferimos executantes com algumas condições de vida ou se preferimos escravizar outros povos e deixar na miséria grande parte dos indivíduos que vivem nos países ricos.
Contrastando com esta reportagem assistimos a mais um momento bucólico de assinatura de mais uma compra por parte da china de uma empresa portuguesa.
Como hoje se comemoram os 25 anos da morte de Zeca Afonso, nada melhor do que terminar com um verso de uma canção sua: «Eles comem tudo e não deixam nada…» (do Album Vampiros)
Contudo, ao contrário do que costuma ser apresentado tratava-se de uma fábrica tecnologicamente avançada e que produzia um dos produtos mais desejados pelos consumidores compulsivos. Nada mais, nada menos do que a fábrica que constrói o I PAD da Apple.
É verdade, o I PAD. Um dos novos símbolos que supostamente conferem status social. Mais um produto que serve para diferenciar as pessoas não pelo que realmente são mas pelo que possuem.
Na dita reportagem foi entrevistada, a medo, uma das operárias. A única tarefa executada por esta operária consistia na colocação do símbolo da Apple na tampa do I PAD. Durante todo o dia de trabalho qua não era curto limitava-se a fazer de forma repetida e sistemática esta simples função.
O que mais me impressionou foi o facto de esta trabalhadora nunca ter visto um I PAD a funcionar. Simplesmente desconhecia aquilo que estava a produzir. Teve pela primeira vez contacto com um I PAD quando o jornalista que a entrevistou lhe apresentou o aparelho e a deixou manipulá-lo.
Se lermos alguns relatos de episódios passados em fábricas na Europa e nos EUA nos finais do século XIX e inícios do Século XX percebemos que as coisas não mudaram muito. Se lermos relatos apresentados por Karl Marx, Engels e outros percebemos que a realidade nas fábricas do Século XIX é em tudo semelhante ao que se passa em muitas fábricas que vão surgindo nos países ditos emergentes.
O que a operária da fábrica da Apple demonstrava era uma completa alienação relativamente ao produto que ajuda a construir. Alienação. É verdade. Conceito Marxista muitas vezes dificilmente entendido pelos estudantes de Economia do Trabalho ou de Sociologia do Trabalho. Estou certo que esta reportagem ajudou a clarificar o que Marx queria dizer quando se referia à alienação face ao produto.
Esta fábrica era tão sinistra que simplesmente tinha retirado o direito aos operários de se libertarem pelo suicídio. É verdade. Como a taxa de suicídio era muito elevada, a direcção da fábrica resolveu colocar redes de protecção para aparar a queda dos operários que se atiravam pelas janelas. Esta fábrica é o mundo dos operários. É nela que passam 6 dias por semana. Lá trabalham, comem, dormem e muitas vezes morrem.
As fábricas na china recorrem às mais retrogradas técnicas de organização do trabalho criadas por Taylor e potenciadas por Ford: Intensificação desmedida da divisão do trabalho, separação entre trabalho de concepção e trabalho de execução. Afinal pouco ou nada mudou em 200 anos de revolução industrial.
O que parece ter mudado é a latitude em que os produtos são fabricados. Mudou igualmente o conceito de divisão do trabalho entre concepção e execução. Se no século XIX e inícios do Século XX esta separação era efectuada dentro da unidade de produção, presentemente a separação é feita entre países que concebem e países que executem. Entre países que criam valor pela inovação e design e países que utilizam mão-de-obra escrava para darem forma aos produtos criados nos países ricos. Separação entre quem cria símbolos de poder e quem apenas tem como destino produzir uma ínfima parte desses símbolos.
O mais irónico é que os países ricos não percebem que os indivíduos que vivem nos países ricos estão a ficar sem sítio onde trabalhar. Nem todos têm capacidade de serem criadores de novos símbolos. A maioria precisa de ser o “mero” executante para sobreviver. Resta saber se preferimos executantes com algumas condições de vida ou se preferimos escravizar outros povos e deixar na miséria grande parte dos indivíduos que vivem nos países ricos.
Contrastando com esta reportagem assistimos a mais um momento bucólico de assinatura de mais uma compra por parte da china de uma empresa portuguesa.
Como hoje se comemoram os 25 anos da morte de Zeca Afonso, nada melhor do que terminar com um verso de uma canção sua: «Eles comem tudo e não deixam nada…» (do Album Vampiros)


1 comentário:
Reitero mais uma vez a leitura deste extraordinário texto.
Saudades da disciplina de Sociologia :-(
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