Afinal,
quem somos nós na escola? A identidade individual e o peso das pertenças
sociais
Carlos
Santana, Sociólogo
A Sociologia tem destas
coisas. Leva-nos a descobrir, nas situações aparentemente mais banais do nosso
quotidiano, fenómenos sociais que revelam muito sobre a forma como vivemos, nos
relacionamos e construímos a nossa identidade.
E a escola é um dos
melhores lugares para observar esses fenómenos.
Costumamos pensar na
identidade como algo que nos pertence individualmente. Temos um nome, uma
personalidade, determinadas características e uma história de vida que nos
tornam únicos.
Mas será que os outros
nos reconhecem verdadeiramente por aquilo que somos? Ou será que, muitas vezes,
somos aquilo que os outros pensam que somos, em função dos grupos a que
pertencemos e das relações que estabelecemos?
Pensemos, por exemplo,
nas comunidades mais tradicionais, como tantas aldeias e vilas portuguesas.
Nesses contextos, onde
as relações de proximidade, os laços de parentesco e a memória coletiva assumem
particular importância, a identidade dos indivíduos é frequentemente construída
a partir da família a que pertencem.
Não interessa tanto
saber quem somos, mas sobretudo de quem somos filhos, netos, sobrinhos ou
primos.
Somos «o filho do
senhor António», «a neta da dona Maria» ou «o sobrinho daquele que vive junto à
igreja».
O nosso nome próprio
torna-se quase secundário. O que verdadeiramente importa é a nossa pertença
familiar.
E essa pertença pode
ter consequências sociais.
Se pertencermos a uma
família respeitada e reconhecida na comunidade, podemos beneficiar de uma
reputação positiva que não conquistámos individualmente. Se, pelo contrário, a
nossa família estiver associada a uma imagem negativa, podemos ser objeto de preconceitos
ou julgamentos sem que o nosso comportamento individual os justifique.
Pierre Bourdieu
ajuda-nos a compreender este fenómeno através do conceito de capital simbólico,
associado ao prestígio, reconhecimento e legitimidade social.
Mas o que tem isto que
ver com a escola?
Na verdade, muito mais
do que poderíamos imaginar.
A escola também
constrói identidades
Quando uma criança
entra na escola, não chega como uma página em branco.
Traz consigo uma
história familiar, experiências de socialização, formas de falar, valores,
hábitos, expectativas e recursos culturais que influenciam a sua relação com a
instituição escolar.
A família constitui um
dos principais agentes de socialização primária. A escola, por sua vez, assume
um papel fundamental na socialização secundária, introduzindo a criança em
novos universos de normas, regras, valores e relações sociais.
Mas a escola não se
limita a transmitir conhecimentos ou a ensinar comportamentos socialmente
esperados.
A escola também
classifica, categoriza e atribui identidades aos indivíduos.
Pensemos numa situação
relativamente comum.
Um professor recebe um
aluno cujo irmão mais velho já frequentou a mesma escola.
Antes mesmo de conhecer
verdadeiramente o novo aluno, pode já existir uma determinada expectativa sobre
ele.
«É irmão do Miguel? O
Miguel era um excelente aluno!»
Ou, pelo contrário:
«É irmão do Miguel?
Espero que não dê tantos problemas como ele!»
Em ambos os casos, a
identidade do novo aluno começa a ser construída a partir da experiência
escolar de outra pessoa.
Antes de ter
oportunidade de demonstrar quem é, já pode estar sujeito a expectativas
positivas ou negativas.
A Sociologia designa
este fenómeno, quando envolve a atribuição de características a indivíduos em
função de categorias sociais, como um processo de rotulagem social.
A chamada teoria da
rotulagem, particularmente associada a Howard Becker, ajuda-nos a
compreender como determinadas classificações sociais podem influenciar a forma
como os indivíduos são percecionados e tratados.
E essas classificações
não são necessariamente inofensivas.
Quando as expectativas
influenciam os percursos escolares
Imaginem dois alunos
com capacidades semelhantes, mas relativamente aos quais os professores
desenvolvem expectativas diferentes.
Um é considerado
inteligente, responsável e com potencial académico. O outro é visto como pouco
interessado, indisciplinado ou incapaz de alcançar bons resultados.
Essas expectativas
podem influenciar, mesmo involuntariamente, a maneira como os professores
interagem com cada aluno.
Um poderá receber maior
incentivo, mais oportunidades de participação e maior reconhecimento. O outro
poderá encontrar expectativas mais reduzidas relativamente ao seu desempenho.
Importa, contudo,
perceber que não estamos perante um mecanismo automático ou inevitável. As
expectativas dos professores podem influenciar os percursos escolares, mas não
determinam, por si só, o sucesso ou o insucesso dos alunos.
Ainda assim, a questão
sociológica é particularmente relevante:
Até que ponto aquilo
que os outros pensam que somos influencia aquilo que podemos vir a ser?
E os pais? Também
perdem a sua identidade na escola?
Curiosamente, a escola
permite observar um fenómeno semelhante ao das comunidades tradicionais, mas
com uma inversão geracional.
Nas aldeias, os mais
novos são frequentemente identificados a partir dos mais velhos.
Na escola, acontece
muitas vezes o contrário.
Os pais passam a ser
conhecidos através dos filhos.
Quantos professores
sabem o nome dos pais dos seus alunos?
Naturalmente, alguns
saberão. Mas, em muitos casos, os pais são simplesmente «o pai do João», «a mãe
da Mariana» ou «os encarregados de educação do Pedro».
A identidade individual
dos adultos torna-se secundária relativamente ao papel que desempenham naquele
contexto institucional.
E há um aspeto ainda
mais interessante.
Nas comunidades
tradicionais, os filhos podem herdar a reputação dos pais. Na escola, os pais
podem ser socialmente avaliados a partir do comportamento dos filhos.
Quando um aluno
apresenta bons resultados escolares, é educado e respeitador, não raramente
ouvimos comentários como:
«Nota-se que tem uma
boa educação em casa.»
Mas quando um aluno
revela comportamentos considerados problemáticos, também é frequente ouvirmos:
«O problema deve vir de
casa.»
Ou seja, a escola pode
transformar o comportamento individual do aluno num indicador da qualidade da
sua educação familiar.
O que está aqui em
causa é um processo de generalização: a partir do comportamento de um
indivíduo, formulam-se juízos sobre outros membros do seu grupo familiar.
Do ponto de vista
sociológico, este fenómeno merece particular atenção, porque tende a
simplificar realidades que são muito mais complexas.
O comportamento e o
desempenho escolar de uma criança não resultam exclusivamente da educação
familiar. São influenciados por múltiplos fatores, incluindo as condições
sociais e económicas, as relações com os pares, as experiências escolares e as
práticas da própria instituição. Ou seja, diversos contextos de socialização.
A escola como espaço de
reconhecimento social
Erving Goffman
mostrou-nos como a identidade social é construída e negociada nas interações
quotidianas.
Aquilo que somos aos
olhos dos outros depende, em parte, dos contextos em que nos encontramos e dos
papéis sociais que desempenhamos.
Um indivíduo pode ser
reconhecido como filho num determinado contexto, aluno noutro, atleta num clube
desportivo e amigo no seu grupo de pares.
Não deixa de ser a
mesma pessoa. Mas a dimensão da sua identidade que adquire relevância varia
consoante o contexto social.
Na escola acontece
precisamente isso.
O aluno não é apenas
aquilo que pensa de si próprio. Também é influenciado pelas classificações,
expectativas e formas de reconhecimento que encontra junto dos professores,
colegas e restantes membros da comunidade educativa.
E a escola desempenha
um papel particularmente importante neste processo porque dispõe de mecanismos
institucionalizados de avaliação e classificação.
As notas, os prémios de
mérito, os processos disciplinares, as distinções entre bons e maus alunos ou
entre alunos considerados aplicados e desinteressados não são apenas
instrumentos de organização escolar.
São também práticas que
podem contribuir para a construção de identidades sociais.
Ser repetidamente
identificado como «bom aluno» ou «mau aluno» pode influenciar a forma como o
próprio indivíduo se vê e interpreta as suas possibilidades.
Isto não significa que
a escola determine a identidade dos alunos. Significa que participa ativamente
na sua construção.
Uma última reflexão
Vivemos em sociedades
que valorizam cada vez mais a autonomia individual, a liberdade de escolha e a
ideia de que cada pessoa constrói o seu próprio percurso.
No entanto, continuamos
profundamente condicionados pelos contextos sociais em que estamos inseridos e
pelo reconhecimento que recebemos dos outros.
A escola é um excelente
exemplo desta tensão entre o indivíduo e a sociedade.
Por um lado,
apresenta-se como um espaço de desenvolvimento individual, de valorização do
mérito e de construção de projetos pessoais.
Por outro, é também um
espaço onde os indivíduos são classificados, comparados, reconhecidos e, por
vezes, estigmatizados.
E talvez uma das
grandes contribuições da Sociologia da Educação seja precisamente ajudar-nos a
compreender que os alunos não são apenas indivíduos que aprendem. São também
atores sociais cuja identidade se constrói nas relações que estabelecem com a
família, a escola, os professores e os colegas.
Afinal, quando um
professor olha para um aluno, quem vê verdadeiramente?
O indivíduo que tem à
sua frente?
O irmão de um antigo
aluno?
O filho de determinada
família?
O aluno que tem boas ou
más notas?
Ou a imagem que foi
sendo construída sobre ele ao longo do seu percurso escolar?
É precisamente por nos
levar a formular estas perguntas que a Sociologia é tão fascinante.
Porque, por vezes,
compreender a escola exige muito mais do que estudar aquilo que nela se ensina.
Exige compreender as relações sociais que nela se constroem.


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